Crítica | Mistério no Mediterrâneo

“Eu não quero te revelar, mas foi o mordomo. O mordomo matou.”

Quando Mistério no Mediterrâneo se encerra, uma referência é rapidamente feita ao Expresso do Oriente, conhecido pela magnum opus de Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente. Jennifer Aniston, no longa-metragem que co-estrela com Adam Sandler – parceira retomada depois de Esposa de Mentirinha -, é Audrey Spitz, uma entusiasta dos instigantes mistérios ficcionais que envolvem assassinatos. Dessa maneira, as inspirações são claras e propensas a uma espécie de paródia das obras artísticas relacionadas a investigações criminais enigmáticas. Mas o roteirista James Vanderbilt, como é de praxe na carreira do ator Adam Sandler, está pouco interessado no crime propriamente dito, preferindo usá-lo como pretexto para que o casal discuta o seu relacionamento. Até chegarem a isso, os protagonistas são subitamente convidados por um ricaço, Charle Cavendish (Luke Evans), para participarem de uma cerimônia no iate de seu tio. De repente, uma morte acontece e as peças precisam ser encaixadas para o assassino ser capturado.

De antemão, o próprio título original do projeto, que poderia ser traduzido por aqui como assassinato misterioso ou mistério do assassinato, confessa o seu maior crime. O enredo da obra, como o seu nome prenuncia, é genérico, preguiçoso, sem conseguir explorar com sucesso as permissões para absurdismos que a premissa, juntamente com a presença de uma dupla cômica como essa, sugerem. O restante é morno em excesso. Curiosamente, isso não é estranho vindo de alguém como Vanderbilt, que não possui uma das carreiras mais prestigiadas. Percebam como a narrativa vai sucessivamente indicando culpados e os provando inocentes, um por um. Esse é um processo burocrático, que impede qualquer traço mais instigante de comunicação entre o público e a obra acontecer. O que continua é um determinado ar circular, com conversas provando ter alguma relevância para as respostas, contudo, nada especial. O mais exótico disso é Vanderbilt ter trabalhado em Zodíaco, outro mistério criminal que ao menos teve, porém, inspiração na realidade.

Em contrapartida, o roteiro prefere colocar em primeiro plano os confrontos pessoais entre os personagens, que interrompem cenas cruciais para supostamente serem desenvolvidos. Um corpo está morto na frente dos protagonistas, a exemplo, no entanto, eles não se importam com o acontecimento, preferindo, entretanto, apenas conversarem sobre o relacionamento. Isso, por um lado, seria possivelmente interessante, caso o drama minimamente convencesse. As motivações, contudo, são péssimas e truncam todo o esquema da comédia. No caso, Nick simplesmente mente para a sua esposa, pretendendo ser um detetive quando, na verdade, reprovou três vezes na prova. Já Audrey não tem o que fazer, senão reagir em resposta a isso – seus conhecimentos são medianamente usufruídos. Já o texto de Vanderbilt, em cenas mais sérias de conflitos, é péssimo. Ao mesmo tempo, o investigador responsável por desvendar o assassino cisma com o casal de personagens principais, quando, porém, não existe uma única prova para sustentar esse seu caso.

Mora, por sorte, um controle cômico de Kyle Newacheck no começo do longa, com a apresentação dos personagens e coadjuvantes – e, paralelamente, na conclusão, com as esperadas revelações. O roteiro, por sua vez, é realmente o culpado pelos crimes cometidos. James é incapaz de sugerir características, preferindo a verborragia – Cavendish é descrito como tendo a pose de vilão. O resultado, contudo, não é realmente péssimo em todos os sentidos imagináveis e inimagináveis. Diga-se de passagem, Aniston e Sandler parecem estarem sempre confortáveis consigo mesmos. E, embora não seja a obra mais feminista de todos os tempos, muito pelo contrário, é interessante a inversão de papéis que acontece numa das suas cenas finais – uma piada, curiosamente, que também existe em MIB: Homens de Preto – Internacional, lançado na mesmíssima semana. Não é criminoso essa obra existir, como outras protagonizados pelo ator provaram ser, mas o resultado é indistinto demais para conseguir causar até mesmo um sentimento negativo mais grave no público.

Mistério no Mediterrâneo (Murder Mystery) – EUA, 2019
Direção: Kyle Newacheck
Roteiro: James Vanderbilt
Elenco: Adam Sandler, Jennifer Aniston, Luke Evans, Gemma Arterton, Dany Boon, Luis Gerardo Méndez, Erik Griffin, Terence Stamp, John Kani, Shiori Kutsuna, David Walliams, Adeel Akhtar, Ólafur Darri Ólafsson
Duração: 97 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.