Crítica | Moana: Um Mar de Aventuras

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“O que quer que tenha acontecido aqui… culpe o porco”

O chamado à protagonista de Um Mar de Aventuras, Moana (Auli’i Cravalho), é um dos mais emocionais e verdadeiramente críveis de todas os impulsionamentos à missão que a Disney já expôs para, em consequência, nortear a jornada de seus personagens – no caso, um perigoso velejamento por agressivos mares, surpassando o recife que rodeia a morada natal da corajosa menina. Assim como em O Rei Leão, a morte é crucial para essa trajetória dramática da protagonista iniciar-se, com a garota prontamente saindo da sua zona de conforto. Os casos, no entanto, se diferenciam drasticamente, porque, enquanto no clássico da década de 90, a perda desconstruía Simba, chocando o espectador e obrigando o animal a transformar-se, em Moana a jovem é ainda mais carregada, juntamente aos sonhos que possui, pela passagem de sua avó, mulher que sempre a incentivara a seguir suas vontades e conseguira, antes da sua partida, provar a eminência desse acontecimento, não apenas ansiado, mas esperado, pois Moana é ‘a escolhida’.

A graciosa e emocionante sugestão da passagem da avó, com a presença de uma encantadora raia surgindo durante a cena de partida de Moana, mexe certeiramente com os sentimentos do espectador. A sequência acompanha um dos auges da música “How Far I’ll Go”, uma engrandecedora abertura a novas visões de espaço. Como um hino pela liberdade, muito mais enervante e melódico que “Let It Go”, de Frozen: Uma Aventura Congelante, a canção “How Far I’ll Go” é certeiramente reiterada, noção que enaltece a ótima trilha composta para a animação, que contém o musical como um dos seus gêneros. As composições urgem a necessidade por uma aproximação à cultura retratada – certos trechos são cantados em línguas não-inglesas. O público, com isso, acredita que Moana é uma sucessora realmente interessada em seguir os passos dos seus antepassados. As nossas riquezas culturais são as nossas maiores heranças e precisam ser preservadas. Caso a garota, por exemplo, recusasse o chamado à missão, Motunui desaparecia.

A emancipação da personagem é um momento poderosamente honesto e catártico – um chamado à aventura, não ao amor. Enquanto em A Pequena Sereia, o mágico partia do romance, não do encantamento da cultura do ser humano e apenas, em oposição à cultura marinha, o maravilhamento da personagem, assim como do espectador – coisa que é compartilhada nos dois casos -, em Um Mar de Aventuras, nasce da descoberta pelo desconhecido. O quanto o universo criado é graficamente exuberante é o quanto os olhos do público e da garota se enchem de água. O oceano nunca fora tão convidativo anteriormente. Uma obra, portanto, apaixonante já na sua introdução extraordinária – mesmo que não seja a coisa mais original do mundo, com os pais sendo manivelas pseudo antagônicas que incorporam um viés mais genérico ao longa-metragem-, movimentada por um ritmo gostoso devido uma montagem que não perde o fio da meada e vai resolvendo, sem interrupções desnecessárias, as primeiras implicações em vista do argumento.

Uma contradição, no entanto, reside no porquê da garota descobrir-se nos mares. Moana escolheu o mar ou o mar escolheu Moana? A jornada do herói é reencenada através do coração espirituoso da personagem, mas um senso de profecia ainda existe, invariavelmente, contrapondo uma liberdade pura. A missão de Moana: Um Mar de Aventura, ao mesmo tempo, é simplificada com um momento inicial que já encaminha quais serão os próximos personagens encontrados pela protagonista, com exceção do caranguejo gigante. Já o retorno de um rosto conhecido na conclusão não consegue ser diminuído por uma reviravolta, enfim, meio água com açúcar, porque Moana nunca foi uma produção sobre aparências e verdades. O carismático Dwayne Johnson, por sua vez, incorpora o irônico Mauí, um semideus com os poderes de transmutação, que recebe um decente arco de redenção – o que se sobressai no personagem são as tatuagens, marcando o interesse cultural da animação. Moana é, mormente, quase uma grandiosa pérola das animações.

Moana: Um Mar de Aventuras (Moana) — EUA, 2016
Direção:
 Ron Clements, Don Hall, John Musker, Chris Williams
Roteiro: Jared Bush, história de Ron Clements, John Musker, Chris Williams, Don Hall, Pamela Ribon, Aaron Kandell e Jordan Kandell
Vozes originais: Auli’i Cravalho,  Dwayne Johnson,  Rachel House, Temuera Morrison,  Jemaine Clement, Nicole Scherzinger,  Alan Tudyk, Oscar Kightley
Duração: 107 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.