Crítica | Moça com Brinco de Pérola

Nada como a crítica de arte para exaltar ou enterrar a vida de um realizador. Johannes Vermeer, pintor de características associadas ao período barroco ficou desaparecido por bastante tempo até ser resgatado por W. Burger, historiador da arte que em 1866, atribuiu 34 trabalhos ao “mestre dos pincéis holandeses,” alguém que segundo os livros, viveu durante a Idade de Ouro Holandesa, era de grandes conquistas culturais e artísticas, o que o tornou o segundo pintor mais prestigiado da Holanda, ficando atrás apenas de Rembrandt. Conhecido pelo uso de cores transparentes, forte emprego do brilho e da luz, além das composições inteligentes e nada aleatórias, Vermeer também é um nome delineado em discussões sobre história da arte quando a peça “Moça Com Brinco de Pérola”, a “Mona Lisa Holandesa”, é mencionada.

Sendo uma de suas produções mais famosas, o processo criativo tornou-se alvo da imaginação de Tracy Chevalier, escritora do romance biográfico que em seu processo metalinguístico, recria a obra e a envolve numa redoma de mistérios literários que se desdobram no filme e na própria discussão estética e contextual da pintura, afinal, para quem já teve a oportunidade de contemplá-la, várias questões se estabelecem. Quem seria? O que pensava? Seus lábios entreabertos e seu ar sereno dizem algo? O que? A profundidade da peça, escura, em contraste com o primeiro plano cria a tridimensionalidade misteriosa que nos ajuda a imaginar tanta coisa que demorou até tempo demais para que um filme, peça teatral ou obra literária fosse realizada.

Alguns críticos apontam que o olhar da personagem retratada é uma espécie de convocação. Se pensado por esse prisma, em algum momento, os enigmáticos olhos chamaram à atenção de Tracy Chevalier, responsável por inspirar Olivia Hetreed a escrever o roteiro do filme lançado em 2003, dirigido por Peter Webber e interpretado por Colin Firth (Johannes Vermeer) e Scarlett Johansson (a moça com o brinco de pérola). No filme, Griete (Johansson) é uma jovem camponesa que vem de uma família com graves problemas financeiros. O seu pai já não produz quase nada, situação que a leva a trabalhar como doméstica na casa do excêntrico Vermeer, pintor que conduz a sua produção artística dentro de uma dinâmica própria, cercado por sua mulher, filha e sogra, além de outras pessoas que constantemente circulam pelo ambiente domiciliar.

Diferente da esposa Essie (Catharina Bohnes Vermeer), Griete é uma mulher expressiva. Ao chegar na casa, já mexe com a inspiração do pintor, além de traçar opiniões sobre iluminação e cores, dentre outros toques de alguém com sensibilidade artística. Enquanto Essie evita o ambiente de trabalho do marido, algo visto como “não é meu local de circulação”, Griete recebe a missão de limpar, o que a leva ao contato com o artista. Das primeiras palavras a relação avança e a jovem que aceitou o trabalho como doméstica por conta do pai ceramista incapacitado acaba por transformar a sua relação na casa da família Vermeer. É um momento de transformação para todos.

Mestre nas artes, Vermeer não acerta muito na condução das ordens da própria casa, comandada de maneira ferrenha por sua sogra (Judy Parfitt), uma senhora que funciona na narrativa como a mecenas que comercializa de maneira triunfal as obras produzidas pelo genro, fonte de renda para alimentar a família e manter outros aspectos da casa. Não chega a ser sutil, mas também não é escancarada a velha discussão sobre a comercialização da arte, algo que dentro de um esquema, mensura se a arte pode ou não ter um valor exato. É possível? A direção, neste aspecto, conduz bem a trama, principalmente nas feições de insatisfação do pintor, pouco satisfeito com as estratégias mercadológicas de sua sogra.

Diante do exposto, percebemos que Moça Com Brinco de Pérola acerta no drama sem tornar tudo um espetáculo piegas, além de debater questões contemporâneas da relação entre arte e sociedade, também sem excesso ou levantamentos descabidos de bandeiras esvoaçantes demais. Se tudo isso já é bom demais, o que dizer dos aspectos estéticos? No filme, os sentimentos são expressados por meio de gestos e iluminação, outro discreto elemento metalinguístico que funciona bem como estratégia narrativa, além da recriação bem-sucedida da obra de arte em questão. Ao longo de seus 100 minutos, a direção de fotografia, assinada por Eduardo Serra cumpre o seu papel de maneira exímia, tanto na luz quanto nos enquadramentos e movimentos, algo essencial para um filme que flerta com a arte exibida em “quadros”.

A contextualização histórica também trabalha corretamente. Os figurinos de Dien van Straalen emulam os perfis físicos, psicológicos e sociais imaginados do contexto em questão, isto é, o século XVII, algo em paralelo com o excelente trabalho de cenografia, assinado por Cecile Heideman. A direção de arte de Christina Schaffer é certeira nos detalhes, parte integrante do competente design de produção de Ben vas Os. Outro elemento funcional é a trilha sonora conduzida por Alexandre Desplat, um trabalho sutil e discreto, melancólico na medida certa, mas em nenhum momento intrusivo e ruidoso. Ademais, uma realização cinematográfica equilibrada e cheia de simbologias, tal como a biografia do artista e de sua obra retratada. Enigmáticos e brilhantes.

Moça com Brinco de Pérola — (Girl With a Pearl Earring/Luxemburgo, 2003)
Direção: Peter Webber
Roteiro: Olivia Hetreed
Elenco: Colin Firth, Judy Parfitt, Scarlett Johansson, Tom Wilkinson, Essie Davis, Judy Parfitt, Cillian Murphy, Joanna Scanlan, Alakina Mann
Duração: 95 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.