Crítica | Modern Love – 1ª Temporada

É fácil, muito fácil gostar demais de Modern Love. Baseado nos relatos reais da famosa coluna homônima do jornal New York Times, a nova série em formato de antologia da Amazon Prime Video conta com um elenco estelar e roteiros que, de tão simples, realçam os elementos de fantasia, quase fabulescos das histórias que conta, transformando a série em um simpático e muitas vezes necessário “intervalo” entre obras mais sérias e mais densas. E não, não há nada de fundamentalmente errado com isso se o espectador não se deixar enganar pelo desavergonhado verniz de clichês manipuladores que cada capítulo derrama generosamente e que tocam as teclas sentimentais corretas quase sempre.

Formada por sete capítulos, cada um contando uma história separada com elenco próprio com começo, meio e fim e mais um episódio de fechamento que introduz dois novos personagens em um simpático arremedo de história e que reúne todos os demais em uma espécie de epílogo para fazer sorrir, Modern Love lida, como o título muito bem diz, com o amor, mas não necessariamente o amor “moderno”, até porque essa é uma adjetivação que carrega um subjetivismo gigantesco. É, decididamente, uma série para lavar a alma e para ser assistida sem grandes pretensões.

Afinal de contas, é impossível não se deixar encantar com a relação paternal entre o carrancudo porteiro Guzmin (Laurentiu Possa) e a jovem independente Maggie (Cristin Milioti) em When the Doorman Is Your Main Man ou se emocionar com a história dupla de amores perdidos com o gênio da tecnologia Joshua (Dev Patel) de um lado e a jornalista Julie (Catherine Keener) de outro em When Cupid Is a Prying Journalist ou se sensibilizar com a bipolar Lexi (Anne Hathaway) lutando contra sua enfermidade que a impede de se conectar com todos ao seu redor em Take Me as I Am, Whoever I Am. Essa trilogia inicial, aliás, é, na minha lista, a melhor da temporada por conterem as narrativas mais inusitadas e personagens mais interessantes, ainda que todos trafegando sem vergonha por uma espaçosa zona de conforto narrativo com roteiros cuidadosamente cunhados para satisfazer, para agradar e, mesmo que alguns momentos nos façam refletir mais pausadamente aqui e ali, para anestesiar.

O mesmo vale para Rallying to Keep the Game Alive (reparem que os títulos são basicamente descritivos das histórias que contam), que apoia-se quase que exclusivamente no carisma de Tina Fey e John Slattery como um casal de meia idade que procura se redescobrir para fazer o roteiro bem básico funcionar. E é justamente isso – a química entre os personagens – que não funciona muito bem em At the Hospital, an Interlude of Clarity, que conta com Sofia Boutella e John Gallagher Jr. como um quase-casal tentando tornar-se um casal em meio a um acidente doméstico. Pelo menos a qualidade volta com o quase perigosamente ousado So He Looked Like Dad. It Was Just Dinner, Right? que lida com o abismo de gerações criando atritos e situações embaraçosas entre a jovem Maddie (Julia Garner) e o homem de meia idade já avô Peter (Shea Whigham, atuando com os olhos injetados e vermelhos como se estivesse o tempo todo drogado). A última história completa (por assim dizer) é Hers Was a World of One, que lida com a paternidade/maternidade, com um casal gay (vivido por Andrew Scott e Brandon Kyle Goodman) querendo adotar o futuro filho de uma mulher (Olivia Cooke) que vive como uma nômade nas ruas dos EUA por escolha própria e que captura o espectador pela inusitada combinação de personagens e de situações. O fechamento fica por conta do amor já com idade avançada (Jane Alexander e James Saito) em uma história terna, mas que parece mais uma vinheta com um título – The Race Grows Sweeter Near Its Final Lap – mais longo do que o tempo que leva para ela chegar ao fim.

A produção não se arrisca. Não só a ambientação é muito parecida entre uma história e outra, todas passadas em Nova York, como cada dupla – ou em alguns casos trinca – de atores é cirurgicamente dirigida de maneira a extrair do espectador o mesmo tipo de reação, normalmente positiva, com os necessários segundos de “aflição” sobre o destino de cada um. Há sequências genuinamente sensacionais, como basicamente toda as análises de Guzmin sobre os namorados de Maggie ou a forma musical como os altos da personalidade luminosa de Lexi contrasta com seus baixos extremamente claustrofóbicos. Mas esses momentos diferentes e genuinamente interessantes são exceções em um mar mais genérico e padrão que os trabalhos de direção de John CarneySharon Horgan, Tom Hall e Audrey Wells procuram manter. Não só há a impressão de mais absolutamente conformidade, como se a série não fosse no formato de antologia, mas sim uma coisa só, mas também há uma certa aversão ao risco.

Como disse mais acima, não há nada de fundamentalmente errado nessas escolhas mais… digamos… pasteurizadas de manipulação de sentimentos, só que fica aquela forte sensação de enorme potencial não realizado para que seja possível agradar ao maior número de pessoas. Afinal, com exceção de Boutella e Gallagher Jr., todo o elenco é afiado, com especial destaque para Possa e Milioti, Patel e Keener, Fey e Slattery e, claro, Hathaway, mas os textos entregues a eles só vão até determinado ponto, jamais desafiando, jamais realmente tornando um episódio memorável para além do tempo em que demoramos para assisti-lo.

Modern Love é o clássico exemplo de série feita para o espectador sentir-se bem consigo mesmo ao assisti-la. É a dose certa de simpatia para iluminar alguns minutos do dia ou para gerar conversas que muito provavelmente logo descambarão para outros e mais interessantes assuntos.

Modern Love (EUA – 18 de outubro de 2019)
Direção: John Carney, Sharon Horgan, Tom Hall, Emmy Rossum
Roteiro: John Carney, Sharon Horgan, Tom Hall, Audrey Wells
Elenco: Anne Hathaway, Tina Fey, Andy García, Dev Patel, Caitlin McGee, John Slattery, Brandon Victor Dixon, Catherine Keener, Julia Garner, Cristin Milioti, Olivia Cooke, Andrew Scott, Shea Whigham, Gary Carr, Sofia Boutella, John Gallagher Jr., Ed Sheeran, Jane Alexander, Peter Hermann, James Saito
Duração: 29 a 35 min. cada episódio (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.