Crítica | Modo Avião (2020)

Não é uma má ideia se apropriar da pauta do avanço tecnológico como antagonista das ações humanas. Principalmente quando o tema é facilmente suportado apenas pelo roteiro, ou seja, não precisa desenvolver grandes efeitos cinematográficos que inevitavelmente exigiriam grandes verbas. Modo Avião compra o argumento e até consegue engajar uma boa crítica contra o excesso de tecnologia, mas peca na sobreposição indesejável de figuras estereotipadas, com personalidade supérfluas que nunca existiriam na vida real. Além disso, deixa transparecer a tentativa desesperada de agradar o público-alvo, construindo momentos que a trama de imediato não suporta. Na história, Ana (Larissa Manoela) é uma influencer dependente da tecnologia. Quando seu vício no celular ocasiona um grave acidente de trânsito, a garota precisa cumprir uma pena na fazenda do seu avô Germano (Erasmo Carlos). O problema, no entanto, é que o local não possui acesso à internet.

As primeiras cenas do longa são interessantes. Modo Avião não demora a apresentar seu rumo principal, colocando a protagonista em momentos de perigo já na primeira cena. Também não enrolam a apresentar os personagens, tais como os papéis de cada um dentro da trama. Assim, pulamos todo aquele primeiro ato desgastante que normalmente os longas (especialmente os brasileiros) costumam ter. E isso seria um elogio se desconsiderássemos o restante da obra. Com a necessidade notável de apressar o andar da carruagem, o projeto perigosamente salta em direção ao estereótipo acentuado: os personagens agem da forma mais óbvia possível para que supram a falta de explicação aprofundada que poderia estar no primeiro ato. Por exemplo, o desejo desenfreado de Ana por tecnologia é algo citado nos primeiros minutos do longa. E isso inevitavelmente voltaria a aparecer, já que de certa forma é o ponto central do filme.

No entanto, relembrar esse aspecto por meio de ações furtivas da personagem é diferente de citar a todo momento esse elemento. A protagonista age a todo momento como a garota agonizada por não ter um aparelho telefônico, chegando a brigar com uma garota para que a deixe usar o celular (e isso acontece duas vezes!). Isso torna as ações da personagem repetitivas, de modo que parece mais um deboche com o público. Ora, já percebemos esse desejo compulsivo de Ana, então vamos continuar a história? construir novas ações para a personagem que, pelas entrelinhas, relembrem essa dependência? Em outras palavras, acelerar a história para que ela não fique desgastante é um grande feito, entretanto se for para tratar o telespectador como alguém que não é capaz de entender a narrativa apenas com um comentário ou ação nas primeiras cenas, seria melhor que tivesse um primeiro ato tradicional.

De mais, a crítica principal é ofuscada pela presença desnecessária de um romance que rouba a cena e da transição repentina da personalidade de Ana. Quando a protagonista chega no sítio, por exemplo, ela está completamente irritada. Dois dias depois ela é demonstrada sorridente e alegre, aproximando cada vez mais suas relações com o avô que até umas horas atras era representado como um sentimento de repulsa. Detalhe que isso fica ainda pior quando lembramos do estereótipo citado: sequências anteriores de Ana aparecer feliz no novo ambiente, ela estava brigando desesperadamente com o avô para que conseguisse ir à cidade e acessar a internet. Ora, se Ana era literalmente uma dependente da tecnologia, e as cenas queriam ressaltar isso, não faz sentido nenhum essa transição abrupta de personalidades. Mas é claro que isso tem um propósito: o marketing (que, destaco, é uma das artimanhas  mais podres que o cinema pode oferecer).

É notável a vontade dos roteiristas em banalizar a história de modo que se tornasse mais um romance adolescente, que certamente atrairia um público maior que uma narrativa onde o tema central é uma crítica. Assim, encontramos o amor sem sentido e mal construído de Ana e João (André Luiz Frambach), que claramente é só uma ação de marketing a fim de atrair o público infanto-juvenil. O maior problema, entretanto, é que isso destrói completamente a ideia inicial do longa, e tudo a partir de então passa a rodar em torno desse núcleo. Até o desfecho é fruto desse romance forçado, de modo que a dependência tecnológica da protagonista não é resolvida e, enfim, termina sem resposta. 

Ao menos todos os personagens tem boas atuações, e os cenários também não deixam a desejar. As caracterizações estão perfeitas (talvez impecáveis) e encontramos uma boa direção de fotografia. Mesmo com algumas dificuldades em visualizar o que estava escrito nas telas dos celulares, é inevitável que o ponto forte desse filme está na produção. Infelizmente, a boa escolha da parte técnica é atrapalhada por roteiristas que forçam estereótipos pois acham que o espectador é burro; além de se renderem a momentos toscos a fim de atrair mais público para a obra.

Modo Avião – Brasil, 2020
Direção: César Rodrigues
Roteiro: Alice Name, Bomtempo, Alberto Bremer, Jonathan Davis, Renato Fagundes
Elenco: Larissa Manoela, Erasmo Carlos, André luiz Frambach, Edu D’Azevedo, Nayobe Nzainab, Katiuscia Canoro, Dani Ornellas, Adriano Fanti
Duração: 96 minutos.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.