- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e das outras obras do MonsterVerse.
Tenho a convicção que Chris Black não sabe muito bem o que quer fazer com o conceito geral de Monarch: Legado de Monstros. É uma série para expandir o Monsterverse ou somente para em tese existir lá dentro, sem que ela seja realmente importante para mais nada que não seja fingir que há um universo compartilhado em mídias diferentes? Não é nem que Invasão tenha sido ruim como o episódio anterior, pois realmente não foi, mas a impressão que me passa é tudo anda à deriva, com retcons bobos aqui e ali como foi o breve prólogo que adiante os flashbacks em alguns anos para focar em Bill Randa e sua obsessão com os titãs e com artifícios narrativos completamente sem sentido – a não ser para ocupar a minutagem dos episódios, claro – como foi a desistência de Cate por um mísero episódio, somente para ela, no meio de uma nova evacuação de São Francisco, ser encontrada por uma mãe cujo filho havia sido salvo por ela somente para que sua autoestima suba novamente e, ato contínuo, ela mude de ideia sobre seu papel no mundo e corra de volta para seus círculo de amigos.
Até mesmo o foco do episódio faz como caranguejo e anda de lado, sem muita razão de ser, mais parecendo uma reiteração daquilo que até o espectador mais distraído já sabe há muito tempo, ou seja, que a Apex é uma corporação vilanesca que tem seus próprios objetivos obviamente desalinhados com os da Monarch. Pelo menos a estrutura de “plano mirabolante para invadir um local e furtar algo” não deixa o episódio esmorecer, com o uso efetivo de toda a equipe, até mesmo paralelamente de Tim tendo seus entreveros com um também narrativamente perdido Jason Trissop que entra e sai da história como se estivesse passando por uma porta giratória. Como é muito difícil errar por completo com esse tipo de história em que uma estratégia de invasão é construída em off em segundos e executada em minutos por meio do emprego de todos os clichês possíveis do gênero, além de uma quantidade boçal de conveniências clássicas, como é May tomando o controle da Apex por dentro como se ela estivesse hackeando um sistema baseado em um TK-85 de segunda mão, o episódio vai, aos trancos e barrancos, se segurando como uma bobagemzinha sem maiores consequências.
O que realmente não funciona é a passagem temporal de 23 horas até a chegada do Titã X em São Francisco. A decupagem é amadora, a montagem depende única e exclusivamente de alguém dizer, de tempos em tempos, quanto tempo falta, com as ações que vemos em tela jamais transmitindo a mínima impressão de que o que acontece não ocorre no tempo real de duração do episódio, ou seja, em 40 e poucos minutos. Só faltou um relógio aparecer na tela que nem na série 24 Horas – mas, que fique claro, lá tinha razão de ser – para evitar dar trabalho ao montador e evitar a vergonha que foi ver o tempo não passar aqui. E não tenho muito o que dizer da direção geral também, pois o trabalho de Hiromi Kamata é desleixado, sem nenhuma tentativa de sair do óbvio ululante em termos visuais, o que acaba telegrafando cada segundo dos eventos já mal e porcamente expostos no roteiro. Ou seja, é uma série que está mais para um castelo de cartas que pode ser derrubado a qualquer tempo com um mero sopro e que depende única e exclusivamente do carisma de Kurt Russell que, porém, ironicamente, não tem tido o destaque que deveria ter para que essa sua qualidade tenha algum efeito.
Também não ajuda a inacreditável insistência com as infidelidades matrimoniais. Eu ri quando vi Hiroshi lendo a carta de sua mãe para Lee Shaw e descobrindo sobre suas indiscrições há mais de 60 anos, especialmente porque o próprio Hiroshi é um bígamo confesso com família em dois continentes. Até quando isso será importante para a série? Até quando vamos ter que aturar cara de decepção, de surpresa, de arrependimento e de frustração de todo o elenco por uma bobagem completamente alheia ao ponto central da história? Ah, sim, claro, alguns dirão que o ponto central da história é o drama humano e tal e não os monstrengos e eu até tenderia a concordar, mas se e apenas se esse drama humano fosse relevante para a história macro sendo contada como acontece em Godzilla Minus One e em King Kong (tanto na versão original de 1933 quanto no remake anabolizado de 2005). O drama humano de Monarch é basicamente a xepa da feira dramática que até roteiristas de novelas da Globo teriam vergonha de inserir em seus roteiros.
Mas é aquilo: a traminha mequetrefe que justifica o título do episódio até que funcionou razoavelmente aqui e, com base no espírito benevolente que baixou em mim hoje, eu deixo passar e consigo concluir, sem muito drama, que o episódio conseguiu alcançar o duvidoso pódio da regularidade, naquela posição incômoda entre o ruim e o bom que não fede, nem cheira. Será que pelo menos no próximo episódio, que marca a metade da temporada, teremos algo para comemorar ou será apenas mais do mesmo? Façam suas apostas!
Monarch: Legado de Monstros – 2X04: Invasão (Monarch: Legacy of Monsters – 2X04: Trespass – EUA, 20 de março de 2026)
Criação e showrunner: Chris Black
Direção: Hiromi Kamata
Roteiro: Al Letson
Elenco: Anna Sawai, Kiersey Clemons, Ren Watabe, Mari Yamamoto, Anders Holm, Wyatt Russell, Kurt Russell, Joe Tippett, Takehiro Hira, Dominique Tipper
Duração: 45 min.
