- Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios da série e das outras obras do MonsterVerse.
Não tem jeito. Eu tento me esquivar de falar dos dramas pessoais de Monarch: Legado de Monstros, mas a série simplesmente não me deixa em paz no meu canto. Eu sequer tenho muito o que falar sobre Furusato, episódio que marca a metade da temporada, se eu não abordar justamente o lado humano da história que consegue ser um dos piores – senão o pior – de todos os filmes de monstro que já vi na vida. E olha que eu sou um grande defensor que esse tipo de filme precisa de personagens humanos para injetar a conexão que considero importante com os monstros, mas não tem como defender o que Chris Black vem fazendo nessa série derivada cuja real razão para existir ainda não ficou clara em minha cabeça e tenho dúvidas se ficará algum dia.
O episódio anterior nos deixou com o “grande” cliffhanger da descoberta, por parte de Hiroshi, da carta de amor e despedida que sua mãe escrevera há décadas para Lee Shaw e, agora, vemos as consequências dessa estupenda revelação que basicamente faz com que um homem adulto de algo como 50 anos que simultaneamente tem duas famílias em países diferentes, uma não sabendo da outra, ficar de beicinho, todo chateado e sem falar nada sempre que olha para Keiko e Lee porque os dois tiveram um breve caso nos anos 50. NOS ANOS 50!!! Quem é Hiroshi para dar uma de superior? Quem é Andrew Colville para escrever uma gigantesca bobagem dessas que não faz sentido nenhum e que até Lee esfrega na cara do filhinho ferido o quanto ele não tem moral para dar um gelo em sua mãe? É, como disse na crítica de Segredos, como se a série estivesse congelada nos mesmos anos 50 em que o grande momento de indiscrição de Keiko e Lee aconteceu, com uma insistência enervante em repisar o assunto constantemente sem conseguir por um segundo sequer criar empatia do espectador pela situação retratada simplesmente porque a situação retratada não faz sentido algum dentro da história ou, esquecendo da história, em pleno século XXI.
Mas o mais hilário é que, quando percebi que Hiroshi ia continuar zangadinho por um bocado de tempo – foram 30 minutos dessa baboseira – eu torci para que ele morresse para que eu não tivesse mais que aturar o sujeito e essa lenga-lenga toda. E, para minha surpresa, isso é exatamente o que acontece ao final. Sim, surpresa, mas não só isso, pois retirar Hiroshi do tabuleiro, nesse momento, não faz absolutamente sentido narrativo algum, mesmo que seja tradicional que os episódios de metade de temporada tragam algum desenvolvimento bombástico. Eu queria que ele morresse, é verdade, mas era uma verdade de brincadeira, especialmente se fosse para ele morrer no meio de seu arco de desenvolvimento, por pior que ele fosse. Afinal, temos que lembrar que Hiroshi é, com seu desaparecimento, a força motriz da primeira temporada e que, reunido com sua mãe na segunda, continua sendo peça-chave para a lógica interna do drama humano que a equipe amadora de roteiristas tenta escrever. Sem ele, esse castelo de cartas desmorona por completo, ainda que eu não vá sofrer por um segundo sequer em não ver mais Hiroshi na série, que fique bem claro.
E o que falar de Cate? Posso estar muito enganado, mas essa conexão dela com os titãs me parece invencionice tirada da cartola que só apareceu aqui nessa segunda temporada. O que exatamente Chris Black pretende com isso, revelar que ela é “encantadora de monstros”, que ela consegue falar com os bicharocos, consegue ler seus pensamentos? Ou que ela é metade humana, metade kaiju? Essa última opção, por mais aburda que possa ser, é a única que me deixa feliz, pois seria sensacional se ela de repente se transformasse em uma lagartixa rosa gigante ou em um tatuí fúcsia gigante. Seria o momento em que, para além de um anúncio de que a segunda temporada seria encurtada, eu festejaria com fogos de artifício que eu nem sem bem onde posso comprar. Ah, mas não. Ela provavelmente será a “humana mais cobiçada do mundo” pela Apex e pela Monarch, que provavelmente vão querer dissecar a jovem para descobrir como é que ela sente o que os bichos sentem. Aliás, boa ideia, hein? A dissecação de Cate Randa também seria um momento para ser comemorado!
Sobre os efetivos acontecimentos do episódio fora da novela mexicana (ou seria japonesa?), minha pergunta é simples: o que diabos uma série que se passa antes do filme mais recente do Monsterverse pode trazer de importante para esse universo compartilhado? É quase como ver o surgimento de peças extras de um quebra-cabeças que já está montado. Nada muda, nada será encaixado. Se o programa de May tiver sucesso como teve por segundos aqui, o que isso altera o que já aconteceu (para nós) nos filmes? E, se nada muda, porque eu deveria me preocupar com o que acontece? Ou seja, Monarch: Legado de Monstros é um derivado que está à deriva, incapaz de criar personagens com que possamos nos conectar, histórias humanas e de monstros que possamos sentir mais do que completa apatia e desenvolvimentos que signifiquem alguma coisa palpável. É quase como um teste de coragem – ou de masoquismo – assistir algo tão ruim que não consegue acrescentar nada sobre coisa alguma. E não tem Godzilla e King Kong aparecendo que resolverá isso.
Monarch: Legado de Monstros – 2X05: Furusato (Monarch: Legacy of Monsters – 2X05: Furusato – EUA, 20 de março de 2026)
Criação e showrunner: Chris Black
Direção: Jeff F. King
Roteiro: Andrew Colville
Elenco: Anna Sawai, Kiersey Clemons, Ren Watabe, Mari Yamamoto, Anders Holm, Wyatt Russell, Kurt Russell, Joe Tippett, Takehiro Hira, Dominique Tipper
Duração: 44 min.
