Crítica | Monrovia, Indiana

Monrovia, Indiana é muito parecido com qualquer filme que Frederick Wiseman veio a dirigir nos últimos vinte anos. Seu olhar firme sobre a civilização sempre foi fiel ao traduzir a construção social de diferentes escopos, seja olhando para uma biblioteca, um bairro ou museu. Aqui seu objeto de estudo é a pequena cidade de Monrovia, no interior de Indiana, que reflete o clássico estereótipo americano intrínseco à mentalidade estrangeira. É uma cidade com 1500 pessoas, cuja principal fonte de renda é o mercado agrário, atividade em que toda a cidade reflete-se de forma religiosa. No entanto, a tarefa de Wiseman é, essencialmente, cartográfica e sociológico, seu trabalho é prever Monrovia como uma instituição e mapear cada uma de suas particularidades que fazem a cidade mover-se.

A primeira observação fundamental é a imensidão desse projeto em retratar toda uma cidade, por menor que ela seja. Quase vinte anos atrás, Wiseman fez o belíssimo Belfast, Maine, filme quase irmão deste seu mais recente, onde ao olhar para o cotidiano da cidade conseguiu esboçar um retrato dos Estados Unidos na virada do século. Desde esse longa, pouco mudou na carreira do diretor, seu olhar sempre voltou-se para instituições como academias de boxe, escolas de balé, universidades, mas varia dentro dos filmes entre dar luz aos rituais mecanizados em primeiro plano, e captar instituições e suas burocracias como reação inconsciente do cenário americano (sua única exceção talvez seja Crazy Horse, filme passado numa casa de shows parisiense). Aqui é um trabalho superficialmente mais livre de Wiseman, tanto pela “curta” duração e pelo tamanho de seu material de trabalho, no entanto seria leviano não afirmar que o método do diretor está mais afiado que nunca, sua precisão nos cortes e planos só comprovam que seu trabalho de montador é tão essencial quanto de diretor.

Incrível mesmo é pensar como reuniões de orçamento tem mais tempo de tela que as cenas de fazenda. Por mais que as cenas de burocracia sejam as menos interessantes, são esses momentos que instauram a ordem da cidade, que preza pelo controle vindo dos próprios moradores, que gastam tempo discutindo sobre a compra de novos bancos, problemas com cidades vizinhas, e como regular para que a cidade mantenha-se estagnada, vendo o progresso como ruína desse tipo de cidade do interior. Por mais que esse filme não tenha um tópico em especial, ele vê Monrovia desafiando o desenvolvimento e brigando por manter-se do jeito que ela é, refletindo esse pensamento na primeira cena do filme, em que um professor explica a turma todo o legado do basquete na cidade, como um dia, dezenas de anos atrás, Indiana já foi uma das capitais do esporte nos EUA. A vontade do professor não é a de renovar o esporte dentro da cidade, mas sim a de manter viva a memória, exprimir o passado como prioridade. Por isso o povo é tão preocupado em manter a população estável, impedindo grandes investimentos, priorizando a lembrança ao progresso.

A elegância em que Wiseman vai de ambiente em ambiente, de uma pizzaria para uma reunião maçônica é inimaginável, a naturalidade em que estabelece a geografia da cidade de uma maneira tão didática promove a encenação deste organismo tão distante, concebe a cidade e a comunidade como um lugar comum aos nossos olhos. As sequências mais bonitas são as da fazenda, que servem como intermissões entre as longas conversas filmadas pelo cineasta, como se ele resolvesse descansar e aproveitar o momento. Como a luz do sol reflete na relva e encontra as máquinas que agem numa coreografia vagarosamente, é quase como Wiseman filmando um espetáculo de dança. A sensação que me trouxe ao final da sessão infelizmente foi a de ser um último filme de Wiseman, principalmente pela última sequência ser a de um funeral. Por mais incrível que pareça, essas cenas foram as que conseguiram relembrar as principais características da cidade, assim como esse filme foi uma espécie de reprise de tudo que o diretor já havia nos oferecido nesses cinquenta anos de carreira. Se for um adeus, que seja um adeus contente e belo como esse filme.

Monrovia, Indiana – EUA, 2018
Diretor: Frederick Wiseman
Roteiro: Frederick Wiseman
Duração: 142 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.