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Crítica | Monstress – Vol. 2: O Sangue

por Kevin Rick
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Ler Monstress é como folhear as páginas de um livro de fantasia épica, mas com imagens extraordinárias substituindo a descrição ambiente, os diálogos vívidos da literatura expostos em fabulosos traços que tem a agonizante tarefa de expor a cruel realidade de quem as pronuncia. Considerando o fato de Marjorie Liu ser uma romancista, entende-se como Monstress transpõe esse tipo de experiência. A autora poderia ter escrito um livro épico, e provavelmente seria espetacular, mas estou feliz que não a tenha feito. Primeiramente por ser um fã de carteirinha de quadrinhos, mas, principalmente, pelo prazer de ver a arte de Sana Takeda. Seria inimaginável ler esse quadrinho como uma novel e ter a inventividade mental de criar as imagens que ela exibe na série. Tanto o roteiro poético de Marjorie, quanto a arte lírica de Takeda, transformam Monstress em uma leitura que transcende estilos artísticos. O Sangue O Sangue

Se em Despertar a dupla de criadoras não hesitam em nos inserir neste mundo fantástico, em O Sangue, elas decidem expor como tudo era apenas a ponta do iceberg. Marjorie Liu demonstra como sua criatividade é ilimitada, constituindo uma fenomenal construção de mundo, com mais personagens exóticos e localidades estonteantes. A trágica aventura é acompanhada por inúmeras espécies animalescas, distorcidas criaturas fúnebres e muita informação histórica. Tudo respaldado pela belíssima arte e, claro, pela monstruosidade social e política. Apesar deste volume conceber um arco de aventura contido, o discurso expositor do preconceito imbuído culturalmente continua permeando a obra em várias cenas paralelas à narrativa principal de diálogo monárquico e imperial daqueles no poder.

Após os eventos do volume anterior, Maika decide refazer os caminhos de sua mãe, em sua incessante busca por respostas, levando à Ilha dos Ossos, mas sua procura agora sustenta diferentes conotações para a protagonista. Se antes havia uma demanda para entender sua história, após ir de encontro com muitas verdades doloridas, há uma certa inquietação em remexer no passado, pois Maika estava presa à dor da desumanização, mas agora ela se encontra capturada pelo fantasma da desaprovação materna. Ela continua implacável, mas o roteiro navega no pavor de Maika por satisfazer sua mãe, mesmo em óbito. Seu medo da morte só é sobreposto pelo pensamento da aprovação, evidenciando que sua jornada em busca de aceitação na verdade é uma trajetória para o empenho de se tornar digna perante Moriko.

O Sangue

Ora, que filho não busca o orgulho dos progenitores? No entanto, a história de Maika é justamente trágica pelo preço a ser pago nesta perseguição de valorização dos mortos. Se Monstress realmente é uma obra sobre cura, como imaginei ser no primeiro volume, o caminho de Maika é ainda mais tortuoso, pois o louvor que anseia é inalcançável. Sua luta contra o passado imposto a sua raça toma novas dimensões com o conhecimento de que o destino para o fim do preconceito ancestral foi entregue por sua mãe com dúbias intenções. Entender e acabar com o trauma de tantos era sua sina, mas o poder oferecido por Moriko é realmente para tal objetivo? As perguntas de Maika apenas começaram e a instigante desenvoltura da trama nos faz ansiar por resoluções da mesma forma que a protagonista. 

O problema é que várias soluções de suas questões baseiam-se no conhecimento de um monstro sem memória. Essa amnésia do Monstrum rende a melancolia de seu arco pessoal e a comicidade do relacionamento entre a dupla. A humanização da criatura é uma história contada múltiplas vezes, e pode-se dizer que Monstress faz isso constantemente com Maika, mas é especialmente interessante como o roteiro constrói o núcleo dramático do Monstrum. Afinal, não existe uma vitimização do personagem; ele é um monstro figurativamente e literalmente, e seus atos de violência foram e são hediondos, sustentando motivos duvidosos para dizer o mínimo, mas, ainda assim, ele também está em busca de aceitação e conhecimento do passado. Essa elaboração de sobrevivência para o Monstrum, mesmo em sua perversidade, é o perfeito exemplo de ser humano. O brilhante roteiro de Marjorie Liu não precisa vitimizar o vilão para torná-lo empático.

É divertido evidenciar como a amnésia e o relacionamento horrendo dos dois também expõe momentos bastante cômicos. Maika busca retirar a criatura de si, matando-o, enquanto o Monstrum transforma a protagonista em um monstro ao se alimentar dos outros, e se não fosse o bastante, também se “alimenta” dela. No entanto, em toda essa relação parasita, há uma construção narrativa de conciliação, principalmente exposta nas cenas joviais. Essa veia recreativa é levada à dinâmica do resto do grupo, com o gato Ren e Kippa adentrando nas práticas humoristas. O felino também é sustentado pela personalidade ambígua, rendendo cenas hilárias com Maika em sua desconfiança e desdém pela integridade física do gato. Já Kippa é a completa inocente da traiçoeira equipe, servindo como uma espécie de bússola moral para o grupo. 

O Sangue continua o épico de fantasia sombrio, mas divergindo a jornada do elenco principal. Maika e o Monstrum, agora chamado de Zinn, estão lutando e abrindo caminho para se redimir de pecados passados… de traumas passados. A busca por vingança e aceitação são apenas superfícies que escondiam o medo da dignidade de Maika, imposta por sua, aparentemente, terrível figura materna. O fato de tudo isso acontecer em uma ilha de ossos, um cemitério, uma prisão onde aqueles que a visitam nunca podem sair, é uma metáfora do enclausuramento emocional de Maika e Zinn. Em seu segundo volume, o conto de fadas macabro expande o mundo e aprofunda os personagens. A busca por respostas ancestrais, seja lá quais forem, de ambos, apenas começou.

Monstress – Vol. 2: O Sangue (Monstress – Vol. 2: The Blood, EUA – 2016/17)
Contendo: Monstress #7 a 12
Roteiro: Marjorie Liu
Arte: Sana Takeda
Letras: Rus Wooton
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: outubro de 2016 a maio de 2017
Páginas: 152

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