Crítica | Monstro do Pântano – Especial de Inverno (2018)

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Este Especial de Inverno do Monstro do Pântano, publicado pela DC Comics em fevereiro de 2018, é uma homenagem da editora aos dois criadores do Musguento, Len Wein e Bernie Wrightson, ambos falecidos em 2017 (e, curiosamente, ambos nascidos no mesmo ano: 1948). Escrito por Tom King e ilustrado por Jason Fabok, o volume se divide em duas partes. A primeira, com a trama The Talk of the Saints, consistindo na homenagem aos Mestres que retornaram ao Verde. A segunda, com um editorial seguido de mais 20 páginas de ilustrações e decupagem de um roteiro que daria continuidade ao arco Os Mortos Não Dormem, última produção de Wein para o seu personagem. A presente crítica não avalia esta segunda parte — até porque ela não é para ser avaliada, é apenas um presente não publicado, deixado por um artista que partiu cedo demais.

King se utiliza de uma passagem da revista Batman Vol.3: Renascimento, da qual é o roteirista da safra, e coloca um locutor de rádio fazendo um comentário esportivo sobre um jogador que “viu um monstro” no campo. Este monólogo servirá de plataforma para a apresentação do cenário onde a história do pantanoso acontece, começando com uma chegada muitíssimo rápida do inverno no bayou, algo fora do comum. Então entram em cena o avatar do Verde e uma criança perdida, que deve ser levada para os pais. Ou é assim que entendemos o andamento da história antes de ela se tornar uma simbólica saga de vida e morte.

O que incomoda no roteiro de King é a passagem do tempo. Os quadros com a indicação “Later” começam funcionando bem, porque imaginamos uma caminhada diferente para a história. Mas até antes de descobrirmos a verdade sobre o que está acontecendo, entendemos que a composição de elipses narrativas por parte do texto adquire peso extra e se torna cada vez menos eficiente. Sem contar que existe uma rápida saturação dessa disposição de passagem. Uma vez que estamos falando de um conto intimista — ou uma espécie de diário com uma grande surpresa na reta final — o autor poderia ter adotado caminhos de integração entre os tempos que não sugerissem uma espécie de loop ou algo que a memória sempre apagava e que só quando não tem mais jeito é que o Monstro do Pântano se lembra. Mas no todo, enredo é muito bom e sua composição de tempos não atrapalha de fato o volume, ganhando força pouco a pouco, ao mesmo tempo que surgem as justificavas para o que achávamos ser “furos de roteiro”.

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Uma das muitas paradas do Monstro do Pântano e da criança que ele está protegendo.

Jason Fabok domina muito bem o cenário de desolação onde o texto insere o personagem. Nas pontas da edição, quando o verdade está em evidência, temos o pântano com sua vegetação rica, particular, um pouco amedrontadora. No início é apenas uma visão rápida, sugerindo a chegada do outono (as cores de Brad Anderson são um verdadeiro espetáculo aqui. Ele consegue tantas nuances dentro da imensidão do branco, das cenas noturnas e da presença pontual do verde que é quase inacreditável). Depois temos o longo inverno, sua finalização e então o renascer do pântano, em toda a sua majestade, fazendo um tipo de integração entre corpo e vegetação que, pelo teor da homenagem do roteiro, é capaz até de emocionar o leitor.

SPOILERS!

Existem coisas na vida que a gente carrega para sempre. Um comportamento, um tique, uma doença. Às vezes ela dá sinais de que está ali, mas a gente não liga. Ou a gente trata. Ou a gente simplesmente se esquece dela. Ignora sua presença, como se fosse um fardo comum, “apenas um mal estar” ou “uma estranha sensação que logo passa”. Mas o peso dos anos nos transforma, assim como transformou o Monstro do Pântano nessa história. E então percebemos a verdade. Mas nesses casos, ao menos por um ponto de vista, sempre é tarde demais. O que nos resta é encarar o tempo que ainda temos ao lado desta companhia de tantos anos, e matá-la, nem que isso implique na nossa passagem direto para a transfiguração do corpo atual em outro tipo de matéria, seja na longa teia do Verde, seja na consciência do Vermelho. E então, do velho e doente corpo que carregava um monstro, floresce outra vida, que caminha para as águas de uma outra aventura, bem ao lado do Parlamento das Árvores. Lugar onde agora estão — e nos sorriem — Len Wein e Bernie Wrightson.

Swamp Thing Winter Special: The Talk of the Saints (EUA, 7 de fevereiro de 2018)
Roteiro: Tom King
Arte: Jason Fabok
Cores: Brad Anderson
Letras: Deron Bennett
Capa: Jason Fabok
Editoria: Jamie S. Rich, Maggie Howell
80 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.