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Crítica | Monstro do Pântano: Tóxico País das Maravilhas

De boas intenções, o Inferno está cheio.

por Luiz Santiago
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Em Tóxico País das Maravilhas Doug Wheeler procura desenvolver a jornada da filha de Abigail com Constantine e o Monstro do Pântano, a pequena Tefé Holland, que fez a sua primeira aparição no arco Sobrevivência do Mais Apto. Há uma predição de que algo muito ruim está para acontecer — isso tendo sido avisado pelos “reis magos” que vieram trazer presentes para a menina já no arco anterior — e nessas edições #93 a 100 de Swamp Thing Vol.2 temos uma visão clara da tal tempestade se aproximando. Eu tinha comentado, anteriormente, que a forma como o autor estava concebendo toda a preparação para o “novo fim do mundo” se parecia bastante com o que Alan Moore fez em O Assassinato dos Corvos, linha de abordagem que muda bastante nas presentes edições, levando o título para um outro caminho, embora com essa premissa de que uma força destruidora está a caminho.

As primeiras três edições do arco, Capturing the Moments of Your Life (#93), The Mysterious Axman’s Jazz (#94) e Toxic Wonderland (#95) lidam com coisas que estão à margem da problemática central desenvolvida a partir da nonagésima sexta revista, intitulada Hell to Pay. Nessa tríade inicial, o maior destaque vai para a presença de Tefé na vida do Monstro do Pântano e de Abby. A realidade de casal dessa dupla já tem todas as suas estranhezas possíveis, e a presença de um bebê na situação torna a dinâmica ainda mais diferentona, especialmente porque Abby quer sair um pouco do pântano, quer ir para a cidade, trabalhar, comer coisas que não são saudáveis… ou seja, a liberdade de fazer outras coisas, além de ser uma “dona de casa”, como ela mesma diz em um diálogo.

O autor, porém, apresenta nuances sombrias que passarão a fazer parte da história, de verdade, a partir do momento em que Anton Arcane, o Inferno e toda uma sorte de demônios passam a fazer parte da narrativa. Servindo apenas para nos acostumar com Tefé, porém, essas edições iniciais não deixam de ter a sua característica de obras soltas e pouco interessantes. Não que as revistas seguintes mudem isso, mas pelo menos nos dão algumas coisas para pensar, dento do cânone do Pantanoso, o que não acontece nos primeiros passos do presente arco. Quanto as cenas no Inferno e a tentativa de Arcane em dominar Tefé, a única coisa que realmente se mostrou interessante foi o fato de termos indicações de que essa criança pode controlar tanto elementos do Verde (por ser o Broto criado pelo Parlamento das Árvores quando o Pantanoso estava “perdido no espaço“) quanto elementos da carne (por ser filha de Abby Arcane, uma humana), tendo ainda a possibilidade de acesso a poderes diabólicos, pois seu pai biológico é ninguém menos que Constantine.

Descobrindo um novo cantinho no Parlamento das Árvores.

Esses são pontos que a gente não consegue ignorar, e dão coisas muito boas para o leitor alocar em toda essa jornada do Musguento até o momento. Vale também citar o fato de que O Cinza aparece como uma força forte aqui, a força da vida fúngica na Terra, que tem Matango como representante: um ex membro do Parlamento das Árvores que acabou sendo dominado pelo poder e pelo impulso de crescimento senciente dos fungos e do lodo na Terra. Há uma boa promessa sobre isso para os próximos números, já que a missão do Monstro do Pântano não é completada aqui: ele ainda precisa levar a água até Tefé para que ela aprenda a falar e entenda como colocar seu espírito novamente em seu corpo humano.

Ver grandes poderes de uma criança num cenário cheio de coisas macabras é o que nos segura aqui, mesmo com a baixa qualidade das histórias em geral. Tefé acaba sendo a personagem mais interessante da revista, o que é um problema, se a gente parar para pensar. Quanto ao Monstro do Pântano, a “vida de casado” certamente estregou o personagem, isso a gente pode cravar com certeza. Tudo o que o tornou imensamente interessante na Era Alan Moore e mesmo na Era Rick Veitch foi majoritariamente colocado para baixo do tapete, e ele agora está mais interessado em passar o tempo com a filha e com a mulher do que proteger o Verde novamente, como o avatar que é. Todavia, as coisas prometem mudar, e esse é um ponto do texto de Doug Wheeler que me trouxe sensações mistas.

Por um lado, o rectcon que ele faz a respeito do Parlamento ter mentido sobre a obrigatoriedade de criar um novo broto para ser o avatar do Verde é horrível. Fazia todo sentido esse comportamento das árvores mais antigas, afinal, a Terra precisa de um avatar para proteção. Agora descobrimos que era tudo uma mentirinha, que o mundo não estava em perigo e que a própria vida de Tefé é apenas um acidente de percurso, “vítima” de um engano. A desculpa que o Pantanoso recebe dos pais fundadores é patética, assim como a cena final com os “anjos” num território antigo e oculto, onde parte da vida/essência vegetal na Terra estava abrigada. Tudo muito confuso e sem real sentido, apenas jogado para o leitor. Por outro lado, há uma luz no final desse túnel, pois agora o Musguento volta a ter responsabilidade sobre o Verde, algo que, na verdade, nunca deixou de ter, ele só tinha sido enganado. Pelo menos imaginamos uma progressiva volta do personagem à ação, tomando novamente o herói. É isso que a gente quer.

Swamp Thing #93 a 100: Toxic Wonderland —  EUA, março a outubro de 1990
Roteiro: Doug Wheeler
Arte: Pat Broderick, Kelley Jones
Arte-final: Alfredo Alcala, Kelley Jones
Cores: Tatjana Wood
Letras: John Costanza
Capas: John Totleben
Editoria: Karen Berger, Art Young, Tom Peyer
207 páginas

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