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Crítica | Monstros VS Alienígenas

por Iann Jeliel
516 views (a partir de agosto de 2020)

Monstros VS Alienígenas

Na onda crescente de filmes de heróis, Monstros VS Alienígenas propõem um crossover direto, debochado e referencial das criaturas que dominaram os cinemas de gênero anteriormente, se enfrentando no formato do cinema de gênero que domina hoje, claro, se aproveitando também o período de euforia do 3D. Mais resumir a divertida aventura da dupla de diretores Rob Letterman e Conrad Vernon somente pelas cenas de ação e piadas aleatórias dentro recorte temático é pouco, pois vemos novamente a Dreamworks artística e original do passado quando emplaca nas entrelinhas, um discurso de levantamento a mulher independente, forte e ainda feminina, literalmente sendo um monstro para os olhos de uma sociedade dominada por homens narcisistas e poderosos, que não passam de idiotas.

Susan (Reese Whiterspoon) precisa se tornar uma gigante de 15 metros é verdade – referência clara ao filme O Ataque da Mulher de 15 Metros de 1958, tanto que a roupa de casamento rasgada é idêntica ao que Alisson Hayes utiliza no clássico–, para perceber que seu casamento com o famoso repórter Derek (Paul Rudd) era somente um pretexto de melhoria da imagem ao companheiro, que não exatamente queria dividir as conquistas com a simpática menina, mas sim ter uma esposa submissa de segui-lo para onde for sem reclamar tanto e obvio, ter alguém para passar a imagem da construção de uma familia tradicional. É muito interessante a forma natural como o texto coloca o processo de perca de ingenuidade de Susan, que graças aos poderes, começa a perceber que ela só era uma mulher comum por sua escolha e, apesar de faltar um pouco o filme mostrar mais disso na perspectiva da população, a rejeição e o medo da sua “monstruosidade” enquanto está como Ginormica, é uma alusão ao medo inútil social da autossuficiência feminina, sendo que Susan basicamente não muda de personalidade, ou seja, ela é ainda aquela menina, só que “maior”.

Seus companheiros monstruosos, o Dr. Barata (Hugh Laurie) – referência aos cientistas loucos, com um dedo mais direcionado ao transmorfo do filme A Mosca da Cabeça Branca de 1958, que teve o famoso remake A Mosca, do David Cronenberg em 1986 –, a gosma B.O.B (Seth Rogen) – clara homenagem ao filme A Bolha Assassina de 1958, que também teve remake conhecido em 1988 –, O Elo Perdido (Will Arnett) – outra explicita homenagem ao O Monstro da Lagoa Negra, de 1954 – e o Insectosauro – criatura gigante que mescla o gênero de insetos gigantes com os Kaijus, também dominantes nos anos 50 – podem se encaixar facilmente representações masculinas mais abertas, por estarem dentro de uma minoria social, igualmente excluída e assustadora por ser “diferente”.

Percebam que há uma adaptação do fácil drama vindo do “ser monstro” neste direcionamento mais específico colocado pelo ótimo timing cômico, que no primeiro momento parece sem critério dada a referência pop e a caracterização estereotipada completamente fora da curva. Mas vejo tudo como intencional, em maior ou menor medida corroborando para a ideia central de Monstros VS Alienígenas. O presidente dos EUA (Stephen Colbert) é o mais próximo de um alívio cômico isolado, mas além de ser bom demais nesse sentido com piadas espetaculares, existe através dele a confirmação da máxima autoridade masculina como um covarde individualista e de comunicação para lá de instável – de uma frase para outra, ele pode apertar um botão para pedir um cafezinho ou explodir o mundo.

O deboche não chega a ser exatamente com o americano em si, ainda que tenha esse fator – porque os Aliens só querem invadir os EUA? –, tanto que existe a figura militar do general Monger (Kiefer Sutherland) como essa outra autoridade de pensamento completamente subversivo, que dá o aval para o plano de utilizarem os “excluídos” para salvar a integridade do país, além de no final ser o “piloto” para que um Insectosauro vire borboleta e voe numa alusão a saída do armário LGBT? Talvez… Há margem para isso. Enquanto isso o vilão principal, no caso, o alien, Gallaxhar (Rainn Wilson) não poderia ter uma motivação diferente de querer dominar o mundo, mas ilusoriamente o visual da narrativa o implementa como uma espécie de Hitler, que queria usar a substância que transformou Susan em Ginormica para fazer copias de si mesmo – olha o masculino narcisista novamente – escravizando e ou destruindo a espécie humana, na sua cabeça raça inferior, mesmo que a sua raça “ariana”, não seja exatamente pura, pois só foi possivel “reproduzi-la”, depois da extração de uma substancia que pertencia ao universo.

Claro que essas leituras não são exatamente identificáveis para o olhar infantil, mas independente delas, Monstros VS Alienígenas cativa todos os públicos servindo a fórmula que a Dreamworks encontrou em Shrek para um entretenimento irônico e vulgar, no meio achando um jeito de transformar as minorias que sempre colocou para protagonizar, em super-heróis que começariam a ficar bem em alta pouco tempo depois. É memorável e divertido o suficiente para os pequenos – eu inclusive, adorava na infância –, mas substancial, tanto humoristicamente pelas várias piadas de duplo sentido, tanto dramaticamente pelo forte texto subliminar, para os adultos.

Monstros VS Alienígenas (Monsters vs. Aliens | EUA, 2009)
Direção: Rob Letterman, Conrad Vernon
Roteiro: Rob Letterman, Conrad Vernon, Maya Forbes, Wallace Wolodarsky, Rob Letterman, Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco: Reese Witherspoon, Seth Rogen, Hugh Laurie, Will Arnett, Kiefer Sutherland, Rainn Wilson, Stephen Colbert, Paul Rudd, Julie White, Jeffrey Tambor, Amy Poehler, Ed Helms, Renée Zellweger, John Krasinski
Duração: 94 minutos

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