Home QuadrinhosArco Crítica | Monstrous Beauty (Doctor Who Magazine #556 a 558)

Crítica | Monstrous Beauty (Doctor Who Magazine #556 a 558)

por Rafael Lima
85 views (a partir de agosto de 2020)

Equipe: 9º Doutor, Rose
Espaço: Planeta Desconhecido, Nave Caixão
Tempo: Dark Times

Em 2020, o universo expandido de Doctor Who lançou um ambicioso projeto intitulado Time Lord Victorious, que traz uma narrativa desenvolvida em diversas mídias (HQs, audiodramas, livros) onde vários Doutores lidam com os Dark Times; os primeiros anos do universo, e do próprio tempo; que foram citados em histórias de diferentes eras da série. A minissérie em quatro partes Monstrous Beauty, publicada na Doctor Who Magazine; marca a entrada do 9º Doutor no evento, em uma trama que explora a guerra entre os vampiros e os Gallifreyanos. Na história, o 9º Doutor e Rose tentam ir ao Rio de Janeiro, mas acabam em um planeta e tempo desconhecidos. Algo no local faz com que o Doutor sinta o impulso de sair de lá o mais rápido possível, mas antes que possa deixar o planeta, o Time Lord percebe chocado que eles estão no meio de uma guerra que marcou a história de Gallifrey, situada em um tempo em que nenhuma TARDIS deveria ir.

A minissérie escrita por Scott Gray causa estranheza em um primeiro momento por trazer uma aventura do 9º Doutor que mexe com a mitologia de Gallifrey; afinal, nenhuma versão do personagem encarnou tão bem o título de Ultimo dos Time Lords quanto a vivida por Christopher Eccleston, sendo esquisito vê-lo em uma narrativa dessa natureza. Mas esse estranhamento é um dos grandes méritos da história, devido à forma como o roteiro lida com a culpa ainda recente do Doutor pelo que (supostamente) aconteceu ao seu povo, ao reencontrar os Gallifreyanos mais uma vez diante de uma guerra que pode destruí-los. A minissérie explora um período pouco trabalhado da história de Gallifrey (bem, pelo menos até recentemente), que é o que antecede a transformação dos Gallifreyanos em Time Lords. Tal como na Guerra do Tempo, o povo do Doutor luta uma guerra contra criaturas temidas e odiadas pelo universo, mas rapidamente tornam-se tão cruéis quanto os seus inimigos, em uma típica situação da história se repetindo.

Dessa forma, o Doutor não só precisa lidar com vampiros, mas com um esquadrão de soldados brutais, liderado por ninguém menos que Rassilon (em um corpo feminino), que embora não seja a líder de Gallifrey, já mostra a predisposição para fazer qualquer coisa pela vitória. Mas o roteiro dá destaque para algo que raramente a Nova Série lembra (especialmente tendo em vista o recente retcon de Chris Chibnall); há pessoas boas em Gallifrey. Isso é explorado através da parceria entre o Doutor e Androkan, um cientista Gallifreyano que mesmo temendo que o seu povo não sobreviva á guerra, não está disposto a compactuar com as táticas xenófobas de Rassilon. Há um caráter irônico na relação entre o 9º Doutor e Androkan, já que ao examinar o sangue do Time Lord (que se assemelha ao dos Gallifreyanos), o cientista deduz que o “viajante”, como o Doutor se apresenta, é um Gallifreyano evoluído e, portanto, a confirmação de que sua espécie vai sobreviver, o que é um contraste com os atuais sentimentos do protagonista.

Já os vampiros seguem o modelo apresentado no arco State of Decay; retratados como monstros aristocráticos, com a arte de John Ross sendo competente em articular a atmosfera gótica proposta pelo roteiro, com a natureza Sci-Fi de uma guerra especial. A mini não se limita apenas a reproduzir o que foi feito com essas criaturas em Doctor Who, expandindo como os vampiros se organizam; especialmente em um contexto de guerra; com o texto apresentando conceitos como os morcegos de batalha, e os Cucurbites, naves vivas de batalha que se abastecem de sangue. Por mais que alguns Gallifreyanos mostrados na história sejam bem cruéis, nada supera os escravos vampiros mantidos pelos Vampiros-Mor, que são praticamente viciados em sangue, trabalhando em condições degradantes nos maquinários das naves em troca de pequenas porções de plasma.

Rose acaba não sendo tão desenvolvida quanto o Doutor na história; sendo usada mais para as sequências de terror mais tradicional nas passagens onde ela se vê presa nos caixões, como são chamadas as naves dos vampiros (que para minha frustração não se parecem com caixões), após ser sequestrada por um dos morcegos de batalha. Mas o texto de Scott Gray nos permite vislumbrar um pouco do lado mais sombrio da Companion, na passagem em que Rose se vê transformada em uma vampira. As quatro partes da minissérie possuem um ritmo muito bom, com as viradas dramáticas sendo muito bem colocadas pelo roteiro. Apenas o desfecho da história soa um pouco apressado, com personagens mudando de lado durante o conflito de forma um pouco conveniente demais; o que também se percebe na cura para o vampirismo que o Doutor basicamente tira da cartola na parte final da minissérie.

Como dito antes, a arte de John Ross é competente em articular os diferentes aspectos da história, destacando-se principalmente nos grandes quadros, e nas sequências de ação, que revelam um traço bastante dinâmico.  O retrato dos “caixões” como enormes castelos góticos voadores é impressionante, assim como as criaturas vampíricas, que parecem saídas de um velho filme da Hammer. Mas o seu traço de personagens humanos em quadros gerais já não é tão convincente, criando um pequeno ruído na arte, o que é uma pena, pois na maior parte do tempo, os desenhos de Ross são bem agradáveis.

Monstruous Beauty é uma minissérie divertida e cheia de ação, que ganha pontos por explorar um capítulo interessante da história de Gallifrey antes dos Time Lords se tornarem o que são, usando com inteligência as referências feitas pelo programa a esse passado obscuro (diferente do Showrunner atual da série). O fato de trazer o 9º Doutor para dentro desse contexto dá um peso extra para a história pela relação única que esta encarnação tem com o seu povo. Quanto às ligações com o evento maior de Time Lord Victorious, ela não atrapalha a autonomia da minissérie. Com um final um pouquinho melhor trabalhado, e um pouco mais de desenvolvimento espaço para Rose Tyler, Monstrous Beauty podia ter sido uma HQ ainda mais divertida, mas ainda assim, vale a pena pela leitura rápida e empolgante, que consegue despertar a curiosidade pelas outras histórias da série Time Lord Victorious.

Doctor Who: Monstruous Beauty – DWM 556 – 558 (Reino Unido, 2020)
Roteiro: Scott Gray
Arte: John Ross
Cores: James Offredi
Arte Final: Roger Langridge
72 páginas

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