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Crítica | Monty Python em Busca do Cálice Sagrado

por Luiz Santiago
630 views (a partir de agosto de 2020)

em busca do calice sagrado

estrelas 4

Depois da boa aceitação do filme E Agora para Algo Completamente Diferente (1971) a trupe britânica Monty Python embarcou em um projeto realmente novo, que direcionava a comédia maluca que os tornou famosos na série Monty Python’s Flying Circus para as lendas arturianas, onde o famoso rei dos bretões, ao lado de seu fiel escudeiro Patsy, procura bravos guerreiros para compor a Távola Redonda, em Camelot.

A produção de Em Busca do Cálice Sagrado foi bastante conturbada e exigiu muita criatividade do grupo e paciência entre eles mesmos para que o filme fosse completado. Primeiro, houve problemas com o orçamento, resultando na retirada dos cavalos, o que gerou a hilária mímica do Rei Arthur “cavalgando” pela Bretanha em um animal imaginário. Depois vieram algumas divergências criativas e os problemas de alcoolismo de Graham Chapman (Rei Arthur), que esquecia as falas e passou a maior parte da produção embriagado, dificultando as filmagens e atrasando a produção.

Somam-se a isso os impasses de mudança do tempo (a trupe precisou filmar em dias considerados ruins para a fotografia. No entanto, chegou um momento em que não era mais possível esperar uma trégua da chuva, neblina, névoa ou tempo fechado, pois os gastos seriam ainda maiores, então enfrentaram as condições mais impróprias para se gravar um filme, especialmente uma comédia), as reescritas e mudanças de piadas em cima da hora e a dificuldade de montar um filme com esquetes que, de alguma forma, se completavam… e temos então o arcabouço de dificuldades que, nas mãos de outros diretores, poderia fazer do produto final algo intragável. No caso de Em Busca do Cálice Sagrado tudo isso se tornou uma das comédias mais lunáticas e respeitadas do cinema, influenciado (assim como praticamente todos os trabalhos do Monty Python) um grande número de comediantes, dentro e fora do cinema, nos anos seguintes.

É claro que para um filme com um argumento de esquetes cômicas, mesmo que ligadas por um elemento principal, existem problemas de narração e não, eu não faço parte da massa crítica ou de espectadores que consideram O Cálice Sagrado uma obra-prima do cinema. Porque não é. A despeito da soltura que cabe ao filme, vindo de sua proposta mais livre de roteiro, é impossível não levar em consideração a descontinuidade, o tratamento mais superficial ou simplesmente “jogado” que observamos em alguns blocos na obra, como o surgimento dos atalhos no núcleo, que vai do Arthur procurando guerreiros valorosos para sua Corte até ele, ao lado de Sir Lancelot the Brave (John Cleese), Sir Robin the Not-Quite-So-Brave-as-Sir Launcelot (Eric Idle), Patsy (Terry Gilliam), Sir Bedevere (Terry Jones) e Sir Galahad the Pure (Michael Palin) recebendo uma ordem divina (a figura do jogador de críquete William Gilbert Grace) para procurar o malfadado Cálice Sagrado.

SPOILERS!

A máxima “em comédia, tudo vale” é quase aplicável aqui, mas é preciso se lembrar de que isso só funciona 100% se o elemento cômico, especialmente em um filme, não queira convencer de que todo o niilismo, dadaísmo, surrealismo, insanidade e linhas kafkianas possam tomar qualquer rumo e às vezes boicotar a si mesma sem sofrer algum dano no sentido geral da obra. Claro que nos esquetes individuais o filme triunfa quase que por inteiro, havendo poucos momentos “fillers” (e nenhum sem graça) ao longo da projeção.

Destacando as cenas do Cavaleiro Negro que luta contra Arthur, perde os dois braços e as duas pernas e ainda assim propondo um “empate”; a primeira cena do castelo dominado por franceses, que jogam animais nos ingleses e são “surpreendidos” por um coelho e texugo de madeira, em uma tentativa falha dos arturianos em imitar o Cavalo de Troia; a sequência com os Cavaleiros Que Falam “Ni”; e a famosíssima cena do Coelho Assassino, é fácil entender que a comédia do Monty Python está bem acima dos padrões mais insanos que se possam imaginar e possui qualidade não apenas em sua bizarrice, mas no tom e timing das piadas. Infelizmente uma pequena parte desses gatilhos cômicos passam por repetições desnecessárias (como a volta dos franceses, no final), atrapalhando importantes momentos da história.

As excelentes interpretações da trupe, a direção de arte tão peculiar quanto o roteiro, os figurinos que são uma mescla da Idade Média Central (a história se passa no ano 932) e das suposições indumentárias típicas dos contos do Rei Arthur, a trilha sonora entre o militar/épico e o suspense e as excelentes animações que servem de ponte entre os esquetes; tudo isso faz de Em Busca do Cálice Sagrado um filme delicioso de se assistir. Apesar das quebras que o roteiro traz, esta é uma obra que abraça todo tipo de consideração secular, desde críticas sociais aos libertários e anarco-sindicalistas até comportamentos religiosos e fanáticos típicos dos anos 70 no Reino Unido. O espectador ainda tem bons momentos de quebra da quarta parede e uma maneira muito inteligente do grupo em inserir a metalinguagem no filme, novamente, como recurso de continuidade, que mesmo não funcionando todas as vezes, jamais deixa de ser engraçado. Esta é uma daquelas sagas que só humoristas muito bons e completamente loucos poderiam colocar nas telonas e fazer o público rir, às vezes de nervoso, às vezes pelo exotismo das situações e, na maioria das vezes, por estar diante de comédia fina, violenta e absurda de qualidade incomparável.

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Monty Python and the Holy Grail) — Reino Unido, 1975
Direção: Terry Gilliam, Terry Jones
Roteiro: Terry Gilliam, Terry Jones, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Michael Palin
Elenco: Terry Gilliam, Terry Jones, Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Michael Palin, Connie Booth, Carol Cleveland, Neil Innes, Bee Duffell, John Young, Rita Davies, Avril Stewart, Sally Kinghorn, Mark Zycon
Duração: 91 min.

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26 comentários

Diogo Maia 23 de abril de 2018 - 04:15

É muito bom poder rever este clássico por streaming, pois é a minha comédia favorita de todos os tempos. É praticamente impossível escolher a cena mais hilária porque a cada vez que eu assisto a Holy Grail eu escolho uma sequência diferente como a minha predileta. Hoje eu ficaria com toda a passagem da bruxa.

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Luiz Santiago 23 de abril de 2018 - 04:20

É bem isso que você disse mesmo: tanta coisa foda que a gente escolhe uma diferente a cada revisão! 😀

Responder
Gabriel Carvalho 17 de abril de 2018 - 00:59

Arrrrghhhhhhhhhhh, eu acho Monty Python em Busca do Cálice Sagrado uma obra-prima. Porque é. Sua mãe é um hamster, seu pai cheirava a esterco e eu peido na sua direção.
Argh, falando sério agora, eu, diferentemente de você, considero o retorno dos franceses uma jogada genial. Acima de tudo, é inesperada. Aquela piada do início do filme, que já absorvemos depois de extensas gargalhadas – seja para dentro ou para fora – e que retorna “aleatoriamente”, para nos fazer relembrar (afinal, como esquecer) dela e todo o contexto de sua aparição anterior. Quando a vaca caiu eu demorei uns 2 segundos antes de começar a morrer de rir.

Qual é a sua cena favorita, Luiz? Se é que é possível escolher apenas uma. Quando Lancelot começa a matar todas as pessoas no castelo é a minha. Foi uma crise absurda de riso.

Responder
Luiz Santiago 17 de abril de 2018 - 08:37

O que você vai fazer? Sangrar em mim? AHUAHAUAHUAHUAUAHUAH

Cara, eu acho que a Ponte da Morte e essa cena do castelo foram as que mais me fizeram rir feito um idiota! Mas o filme inteiro é lotado desses momento, não é?

Responder
Gabriel Carvalho 17 de abril de 2018 - 00:59

Arrrrghhhhhhhhhhh, eu acho Monty Python em Busca do Cálice Sagrado uma obra-prima. Porque é. Sua mãe é um hamster, seu pai cheirava a esterco e eu peido na sua direção.
Argh, falando sério agora, eu, diferentemente de você, considero o retorno dos franceses uma jogada genial. Acima de tudo, é inesperada. Aquela piada do início do filme, que já absorvemos depois de extensas gargalhadas – seja para dentro ou para fora – e que retorna “aleatoriamente”, para nos fazer relembrar (afinal, como esquecer) dela e todo o contexto de sua aparição anterior. Quando a vaca caiu eu demorei uns 2 segundos antes de começar a morrer de rir.

Qual é a sua cena favorita, Luiz? Se é que é possível escolher apenas uma. Quando Lancelot começa a matar todas as pessoas no castelo é a minha. Foi uma crise absurda de riso.

Responder
Flavio Batista 22 de dezembro de 2017 - 12:30

E a dublagem original em portugues é uma delicia: “Tens de saber estas coisas quando sois reis!” (na cena da ponte huahauhauahuahua)

Responder
Flavio Batista 22 de dezembro de 2017 - 12:30

E a dublagem original em portugues é uma delicia: “Tens de saber estas coisas quando sois reis!” (na cena da ponte huahauhauahuahua)

Responder
Luiz Santiago 22 de dezembro de 2017 - 17:49

AHUAUAHUAHUAHUAHAUAHUAHUHUAHAUHAUHAUAHUAHUHUA

Responder
Alvaro Viana Batista 25 de outubro de 2017 - 17:27

Filmaço!!! Fiquei estático com um sorriso sádico na cena do coleho, kk. E o método de detecção de bruxas?

Responder
Luiz Santiago 25 de outubro de 2017 - 18:22

O método de detecção é o melhor!! AHHAHAHHAAHAH sempre dou risada quando vejo ou me lembro disso.

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Fórmula Finesse 15 de maio de 2017 - 10:05

É só lembrar da cena dos “cavalos” para rir baixo como um abobado – se foi imposição orçamentária (duvido) ou não, que tirada genial!
Só podia sair da cabeça de gente que fez da cena da crucificação, um pequeno musical – rsrsrsrsrs

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Luiz Santiago 15 de maio de 2017 - 13:15

Que trupe maravilhosa! O negócio dos cavalos foi para economizar dinheiro sim. Eles tiveram que deixar os animais de lado para poder gastar dinheiro com outras coisas, então inventaram a “cavalgada ao vento, ao som de cocos” ahahhahahahhahahahahahahhahahaha

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Fórmula Finesse 15 de maio de 2017 - 14:38

Para outros, seria um obstáculo incontornável para a qualidade da película, para eles…uma oportunidade de melhorar a zoeira.

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Luiz Santiago 15 de maio de 2017 - 15:11

Com certeza! A primeira vez que aparecem no filme com aquela pose eu gargalhei!

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planocritico 25 de outubro de 2017 - 17:51

@frmulafinesse:disqus e @luizsantiago:disqus , uma vez eu vi esse filme em um cinema americano underground que, antes da sessão, distribuía os cocos para todos os espectadores para que acompanhássemos as “cavalgadas”… Foi um negócio impagável…

Abs,
Ritter

Luiz Santiago 25 de outubro de 2017 - 18:23

HAHHAHAHAHHAHAHAHAHHA Que sensacional!!!

Matheus Biasini 14 de maio de 2017 - 13:58

Melhor versão da lenda do Rei Arthur já realizada, junto com uma critica excelente.
“Bless this, O Lord, that with it thou mayst blow thine enemies to tiny bits, in thy mercy.”

Responder
Luiz Santiago 14 de maio de 2017 - 14:08

HAUAHUAHUAHUAHA, valeu, @matheusbiasini:disqus!
Cara, esse filme é uma loucura imensa! Todo mundo deveria conhecer essa versão das lendas arturianas!

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Matheus Biasini 14 de maio de 2017 - 23:23

Com certeza! Na verdade deveria conhecer toda a obra de Monty Python. “It’s just a flesh wound!”

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Luiz Santiago 15 de maio de 2017 - 00:17

OH, YEAH!

Responder
Guilherme Coral 14 de maio de 2017 - 11:14

What is your favorite color?

Responder
Luiz Santiago 14 de maio de 2017 - 14:07

Blue! hauahuahauhauahuahauahuahauhaua

O mais foda é que o outro se fodeu, achando que as perguntas seriam as mesmas.

Responder
Filipe Isaías 13 de maio de 2017 - 21:04

Ah como eu queria que as pessoas conhecessem mais o Monty Python. Não só eles fizeram um dos melhores filmes de comédia de todos os tempos, A Vida de Brian, como fizeram o melhor filme do Rei Arthur de todos os tempos. A única imagem que eu tenho da figura do Arthur é ele trotando com alguém com dois pedaços de côco atrás rsrsrs.

Minha parte preferida do filme é quando o Arthur conversa sobre sistemas de governo com outras 2 pessoas: “Mulheres estranhas que vivem em lagos e distribuem espadas não são base para um sistema de governo…”

Abs.

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Luiz Santiago 14 de maio de 2017 - 06:27

Esse filme tem excelentes momentos e cenas icônicas! O mais legal aqui é que o roteiro consegue falar de tanta coisa que chega uma hora que você pensa: do quê mesmo estamos falando? hahahahahahhahahahaha

Responder
planocritico 13 de maio de 2017 - 17:14

Ni!

Ni!

Ni!

– Ni

Responder
Luiz Santiago 13 de maio de 2017 - 17:19

NIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!

Responder

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