Crítica | Monty Python – O Sentido da Vida

Conheço muita gente que desgosta de Monty Python, mas, sinceramente, considero o grupo britânico como o fundador da comédia moderna ou, pelo menos, um dos grandes responsáveis pelos alicerces dela graças à inesquecível série Flying Circus. O Sentido da Vida é o quarto longa da trupe (excetuando-se o show ao vivo de 1982) e o último com todos os membros, já que Graham Chapman faleceria em 1989, além de representar uma volta às origens.

Se com Em Busca do Cálice Sagrado e A Vida de Brian eles trouxeram um semblante de estrutura narrativa aos longas, O Sentido da Vida volta à pegada do primeiro projeto da equipe, E Agora Para Algo Completamente Diferente, de 1971, ou seja, uma sucessão de esquetes como na consagrada série de televisão. Na verdade, sendo realmente honesto, O Sentido da Vida fica entre uma coisa e outra, uma vez que a coletânea de esquetes de certa forma resvalam na investigação que o título suscita – qual é, afinal, o sentido da vida? -, mas de maneira bem mais solta que os dois filmes anteriores. 

O tema, se é que posso chamar assim, é apresentado por peixes em um aquário depois que eles veem seu colega ser comido, o que imediatamente nos leva à primeira efetiva esquete, O Milagre do Nascimento, em que vemos uma mulher em trabalho de parto ser hilária e solenemente ignorada pelos médicos, estes muito mais preocupados com as aparências. A crítica social vai fundo nos problemas do sistema de saúde (não, isso não é monopólio brasileiro!), mas sempre no melhor estilo Monty Python: de maneira indireta, que exige que o espectador pense.

Em seguida, na melhor das esquetes, somos levados para o “terceiro mundo” que, para o grupo, é logo ali na esquina, Yorkshire, em que o patriarca de uma família católica chega em casa para contar à sua esposa e suas literais dezenas de filhos, que ele perdera o emprego. Os sucessivos tapas na cara da Igreja Católica que prega contra os contraceptivos (e nem vou entrar aqui no debate sobre o aborto) são inclementes e muito bem colocados. 

E assim a coisa vai, com direito a quebras da quarta parede quando chegamos ao meio do filme, a introdução de um espetacular curta (ele antecedia o filme, mas foi depois “costurado” na narrativa) em que piratas idosos de uma seguradora atacam a diretoria jovem de outra empresa do setor financeiro e o obrigatório – e realmente nojento – “momento escatologia”, em que um obeso mórbido come e vomita sem parar em um restaurante de luxo. Nem tudo funciona harmoniosamente, isso é evidente, com alguns esquetes exagerando na duração, mas os Python se mostram incansáveis em sua criatividade e em sua capacidade de desafiar o espectador. É quase como ver ao vivo um processo criativo de roteiro cinematográfico com os seis enlouquecidos em uma sala de reunião regada a café, uísque e “outras coisinhas a mais”, se é que me entendem.

Por outro lado, apesar de os valores de produção serem realmente impressionantes (o curta que mencionei tem efeitos práticos e pinturas matte de se tirar o chapéu), vê-se um pouco do desgaste da fórmula, com o retorno à narrativa original do grupo depois de dois grandes sucessos mais distantes dessa estrutura, quase que como um reconhecimento de que longas não são mesmo a praia de John Cleese, Terry Gilliam e companhia. Pessoalmente, porém, seria capaz tranquilamente de assistir a uma sucessão completamente desconexa à la Flying Circus sem maiores problemas, mas reconhecendo as limitações narrativas que essa escolha impõe.

No final das contas, talvez o sentido da vida – ou um dos sentidos da vida – seja justamente ter o prazer de ver o resultado de mentes humorísticas febris trabalhando sem freios. Se é mesmo, nunca saberemos, mas faz todo sentido, não?

Monty Python – O Sentido da Vida (Monty Python’s The Meaning of Life, Reino Unido – 1983)
Direção: Terry Jones, Terry Gilliam
Roteiro: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin
Elenco: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Carol Cleveland, Simon Jones, Patricia Quinn, Judy Loe, Andrew MacLachlin, Mark Holmes, Valerie Whittington
Duração: 107 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.