Crítica | Mortadelo e Salaminho: O Sulfato Atômico

Mortadelo e Salaminho (Mortadelo y Filemón, no original)… A gente ouve esse nome e já monta na mente uma base engraçada para o que poderia ser uma história em quadrinhos com personagens com esta alcunha. Criados por Francisco Ibáñez na edição 1394 da revista Pulgarcito (1958), numa aventura de uma página chamada Mortadelo y Filemón, Agencia de Información, os personagens não demorariam muito tempo para fazer sucesso, o que garantiu a Ibáñez a presença semanal de seus atrapalhados detetives na publicação da Editora Bruguera, em histórias majoritariamente de uma página, chamadas posteriormente de histórias curtas. A partir de 1969, onze anos depois da criação dos personagens, estreando a revista Gran Pulgarcito, deu-se início às histórias longas de Mortadelo e Salaminho (tramas entre 44 e 50 páginas), cujo primeiro exemplar foi a hilária O Sulfato Atômico.

Mesmo que nesse início de Nova Era para os personagens, a declarada paródia a Sherlock Holmes e Dr. Watson tenha virado apenas uma sugestão, o elemento investigativo ainda é o principal foco do roteiro, dado pela primeira aparição dos Técnicos de Investigações Avançadas (T.I.A. ou Técnicos de Investigación Aeroterráquea, no original), uma paródia da CIA que conta ainda com o Professor Bactério (já com caraterísticas de invenções absurdas, perigosas e que por acaso sempre caem em “mãos erradas”) e o Superintendente Vicente, chefe de operações reclamão que insiste em confiar em Mortadelo e Salaminho para as empreitadas da T.I.A., ação que, independente do trajeto percorrido pelos atrapalhados detetives, acaba se provando acertada, em uma forma benéfica, por assim dizer, de “os fins justificam os meios“.

O leitor percebe rapidamente que o tom da saga é como o tom dos cartoons slapstick, onde personagens sofrem as mais cruéis violências e agressões, mas estão ali, no próximo quadro [quase] prontos para outra, no máximo com um galo, um olho roxo, alguns arranhões ou roupas rasgadas e chamuscadas… nada mal para indivíduos que tiveram tanques de guerra passados por cima de suas cabeças ou bombas explodindo em seus fundilhos. E justamente por entender rapidamente esse tom, o leitor aproveita sem restrições todas as correrias e absurdos cênicos que Ibáñez coloca praticamente a cada dois ou três quadros. Este é o tipo de trama onde a ação, as trapalhadas e as piadas são ininterruptas. É quase inacreditável que o roteirista consiga manter esse ritmo, dentro dessa proposta, ao longo de 50 páginas.

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A primeira página da aventura. Os detetives chegam ao QG da T.I.A.

A arte é outro espetáculo. Devido à excelente noção espacial do artista e bom conhecimento da relação entre o ritmo de leitura de imagens e palavras, sua diagramação é uma das mais interessantes de se acompanhar, marcando-se uma boa mistura entre onomatopeias gigantescas, balões de xingamentos, diálogos e desenhos, tudo muito bem organizado e pensado para, em uma espécie de pingue-pongue, mostrar os dissabores de M & S durante esta “primeira” missão, que é ir até Tirania, uma ditadura militar sob comando de Bruteztrausen (paródia fascista como um todo, mas declaradamente em sua versão nazi) resgatar o tal Sulfato Atômico inventado por Bactério, arma biológica que os “inimigos da liberdade” pretendem usar para “dominar o mundo“. A premissa do absurdo, por mais forçada que seja em diversas partes, não incomoda a ponto de estragar a experiência ou tornar a narrativa enjoativa, pois ela cabe tranquilamente dentro da ideia cartunesca desse Universo. Apenas torci o nariz para algumas incongruências de continuidade visual, como o frasco do sulfato ora aparecendo como um Balão de Erlenmeyer, ora como um spray; mas nada que torne a aventura ruim ou coisa parecida.

Abarrotado de situações genuinamente engraçadas, com um ritmo alucinante de ação e bom estabelecimento de um novo caminho para as “aventuras longas“, O Sulfato Atômico prova o por quê é uma das histórias mais reverenciadas de Ibáñez e uma das mais icônicas da série de Mortadelo e Salaminho. É o tipo de diversão nonsense que captura o leitor já na primeira página e inicia uma febre de amor aos personagens que nunca mais deverá passar. Ainda bem.

Mortadelo e Salaminho: O Sulfato Atômico (Mortadelo y Filemón: El Sulfato Atómico)
Publicação original: Gran Pulgarcito #1 a 23 (Espanha, 27 de janeiro a 30 de junho de 1969)
Editora: Bruguera
No Brasil: Editora Cedibra, 1969
Roteiro: Francisco Ibáñez
Arte: Francisco Ibáñez
50 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.