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Crítica | Mortal Kombat (2021)

por Iann Jeliel
4608 views (a partir de agosto de 2020)

Mortal Kombat

  • Contém SPOILERS! Confiram aqui todo nosso material sobre Mortal Kombat.

Para conseguir fazer algo pior que os filmes dos anos noventa com os recursos visuais atuais, era preciso muita “competência”. Contudo, não duvidemos da capacidade nociva da Warner em esquartejar mais uma de suas franquias, a troco de tentar agradar todo mundo com pedaços do que deveria ser um filme, mas que no máximo é mais um produto feito sob encomenda. Aliás, várias encomendas diferentes. Vejamos: o novo Mortal Kombat em essência quer agradar o fã dos games, mas ao mesmo tempo também quer introduzir um novo público, obviamente, para gerar mais dinheiro.

O que a princípio não tem problema nenhum. Afinal, você já conquista um novo público naturalmente só por trazer a essência dos games para o cenário atual, sem a necessidade de censura já provada por Deadpool, Logan e tantos outros hoje, correto? Segundo o diretor estreante Simon McQuoid e seu time de três roteiristas – possivelmente todos escravos de produtores –, errado. Por que quem diabos vai comprar essa mitologia naturalmente confusa e tosca? É preciso torná-la digerível, mesmo que esse processo só o deixe ainda mais tosco por parecer se levar a sério, e quando volta a querer ser realmente tosco, não parece verdadeiro. A essência, assim, é prejudicada e entregue falsamente em visual como modo de compensação ao fã que só queria ver lutinhas legais.

Como admirador da saga de jogos desde sempre, confesso que não queria ver muito mais do que isso: lutas legais. E o primeiro ato até que me entregou isso de um modo promissor, infelizmente vendendo errado o que viria a ser o filme a seguir. A impressão inicial da sequência de luta entre Hanzo (Hiroyuki Sanada) e seu arquirrival Bi-Han (Joe Taslim) é que o longa adotaria a complexidade e regras da mitologia da história para o segundo plano, só nos jogando direto na ação, sem dar motivações maiores aos personagens ou pormenores do porquê eles são rivais. Parecia até que o filme confiava na premissa sustentada apenas pela base do combate. Na luta, foi estabelecido que eles são rivais, logo, se um ganhou, implementa-se a necessidade da revanche.

Nesse sentido, é até um acerto inconsequente do roteiro, guardar o segundo round da luta somente para o clímax, em que os personagens já estariam com suas vestimentas clássicas de Scorpion e Sub-Zero. É estranho falar isso, mas fica naturalmente empolgante porque não foi bem desenvolvido, como se o filme realmente apostasse no valor gráfico daqueles personagens e que esses falassem por instinto. E realmente acabam falando, por serem os maiores momentos de valorização da coreografia (que nem é tão boa assim, mas é feita por dois atores experientes no cinema de ação oriental) e, inconsequentemente, não haver nenhuma interrupção para explicar novas regras como fantasia, torna-se bom e o único elemento, mesmo que não intencional, de fato compensador ao fã e ao público comum.

Porque de resto, nem mesmo como filme de fã se sustenta, quem dirá para quem é novo na festa. Há violência, sim, há repetição de frases icônicas, sim. Mas na história, por exemplo, dentro de uma preocupação exacerbada de  trazer logo lutas, ao passo que explica mastigadinho o universo sob a óptica de um novo personagem, esquece-se de colocar o torneio de Mortal Kombat na narrativa. Era o básico do básico, que inclusive resolveria muitos dos problemas estruturais da narrativa, porque se era para ter uma introdução detalhada de mitologia, explicasse isso conforme a sucessão de desafios características de um torneio, o que tornaria muito mais fácil para a compreensão do novo público a absorver aquela loucura de terras diferentes, acontecimentos bizarros e “poderes” com naturalidade.

Se já não fazia o menor sentido querer se explicar demais depois da introdução eficiente e direta sem explicar a fantasia, fica pior quando se tenta criar uma nova lógica com aquela história das marcas de nascença(?) que determinam quem pode ir ao torneio do Mortal Kombat e dá origem aos poderes. Mas se essas marcas são para alguns “escolhidos”, por que diabos alguém pode adquiri-la matando um deles? E se algum dos escolhidos morresse aleatoriamente atropelado? O motorista que o atropelou iria adquirir a marca e ter direito a treinar sua “arcana” para virar o Vin Diesel? Se o filme realmente acreditasse no universo do jogo, os poderes seriam simplesmente parte daquilo. Inventar uma explicação “racional” para eles é um tiro no pé, pois só abre uma responsabilidade do filme ter de se explicar cada vez que toca no assunto, sem necessidade, já que o princípio era vender a funcionalidade do universo somente para o que tange às lutas.

Então, a partir do momento em que o Liu Kang (Ludi Lin) entra em cena, o filme se perde nas explicações, não consegue introduzir a mitologia e nem as explicar direito para quando fosse partir para a ação, acumulando uma série de furos na própria lógica, que nem mesmo eu, que não me incomodo com furos de roteiro em geral (quem dirá em Mortal Kombat, que a franquia base passa longe de ser uma referência em organização), pude deixar despercebido. Porque tudo na história fica dependente de novas explicações, inclusive as motivações dos personagens que não eram para ser relevantes em nível tão específico. O texto coloca, por exemplo, um drama familiar ao protagonista Cole Young (Lewis Tan) somente para ter o despertar da sua “arcana”. Faremos uma linha retroativa do tempo só nesse fato: por que Cole Young tinha que ter a arcana? Para conseguir ir para o torneio preparado, certo? Mas não há torneio. Shang Tsung (Chin Han) quer eliminar os concorrentes antes de acontecer, e para isso, arrisca a vida do seu campeão o enviando para matar a família do Young, que não tem nada a ver com a história, no risco de colocar a possibilidade de ele despertar a tal arcana.

Se fosse enviado qualquer outro capanga para enfrentar Young, em teoria, a vantagem seria do capanga, uma vez que o personagem não estava conseguindo despertar seu poder em treinamento. Seria relativamente fácil derrotá-lo como aponta o início do filme, quando ele perde para um lutador comum de MMA. “Ah, mas Young é descendente do clã de Scorpion, o mais fodão de todos, não poderia dar chance para ele se tornar forte”. Beleza, mas por que isso não foi feito antes? Raiden (Tadanobu Asano) não o tinha mais criança, sabe-se lá por quê. O filme não explica como ele foi parar na adoção e nem o Raiden fala da sua imensa incompetência de ter poderes de um deus, teleportando personagens aonde ele quer que eles lutem, em ter perdido a criança, e aí não consegue achá-la de novo?

Ele sabia onde ele estava, claro, ainda assim fica com discursinho de que os combatentes da Terra são fracos demais. Era só ter cuidado do jovem rapaz direito e estaria tudo certo, não? Porque os vilões igualmente incompetentes demoraram anos a descobrir seu paradeiro. Se o homem consegue vencer o Goro (Angus Sampson) sem nunca ter lutado com ninguém antes – algo que os diretores que queriam agradar os fãs sabiam que eles amariam ver isso em tela (risos) –, imagina se tivesse sido bem treinado desde cedo? Realmente, não iria precisar de torneio, já daria o cinturão para o marmanjo logo de cara. Ou para qualquer um da sua família, a única capaz de sobreviver ao congelamento do Sub-Zero sem nenhum dano colateral – coitado do Hanzo.

Percebam que nem precisei ir muito longe nas incongruências, porque dá para ir bem além, naqueles que chamo de “detalhes irrelevantes”: como os poderes do Jax (Mehcad Brooks) serem o crescimento tecnológico de sua prótese realista de metal, como se não fosse bem mais simples colocar os seus braços tradicionais direto nele; o fato de Kano (Josh Lawson), mercenário experiente, aceitar uma proposta sem nenhuma garantia da Sonya (Jessica McNamee) de milhões de dólares para embarcar na jornada de mundos loucos, em que ele havia acabado de derrotar um lagarto gigante invisível arrancando o coração dele fora e ainda se impressionando, logo em seguida, com o fato de Liu Kang soltar bolas de fogo… A lista é infinita pela brecha dada aos truques do roteiro em fingir que quer modernizar a galhofa, ou fingir que quer aplicar algo genuinamente autoral nela. Cole Young não é um personagem que está ali porque alguém queria criá-lo, porque se fosse até daria para engolir o fato de ele ser um chatão. Ora, nem todo avatar de jogo de luta nos simpatiza mesmo.

Ele é somente muleta disfarçada, um símbolo totalmente descaracterizado da nova geração que “necessitava” ser conectada na mente dos responsáveis, mas nem nisso eles tiveram o trabalho de pensar em como fazer. O que só valida a teoria de que pouco importaria sua existência para o filme. Não é ruim pelo incômodo de não estar no jogo, e sim por nem se justificar minimamente dentro do microcosmo que o filme tardiamente propõe. Tardiamente, como dito, porque a impressão inicial seria de um filme mais solto e vigente para a ação, para a luta, o que era o certo pensando em adaptar a linguagem de Mortal Kombat nos games para o cinema. Um novo personagem seria apenas mais um dentre várias outras personificações que lutariam até a morte.

Para o fã, seria interessante ver como ficaria a hierarquia dos avatares. Afinal, se ninguém importasse ali, qualquer um poderia morrer. A vulnerabilidade estaria igualitária a todos sem a previsibilidade, fora o protagonista feito para o público geral, ou talvez Scorpion e Sub-Zero dada a introdução. Quem conhece o histórico poderia ser pego desprevenido com algumas fatalidades de personagens importantes, pensando na continuidade da franquia no cinema em que a mitologia seria explorada verdadeiramente. Por isso que, mesmo horríveis, as mortes de Goro e Kung Lao (Max Huang) de algum modo surpreendem, porque é corajoso matar dois dos principais logo no início, pena que foi do jeito errado. Para quem não conhece, seria divertido de qualquer forma, já que o que não falta são personificações no jogo para proporcionar uma variedade imensa de formas de ação.

Todo esse potencial descrito, os filmes noventistas sem quaisquer recursos técnicos tinham o discernimento e tentaram fazer o mínimo, às coxas dos seus limitados cineastas. É impressionante que essa versão em pleno 2021 não tenha a capacidade nem de chegar nesse mínimo. Dinheiro não faltava, mas o produto nem visualmente é bom. Efeitos visuais pobres, montagem picotada, caracterização prática de figurinos no máximo funcional num primeiro olhar, pois é acompanhado de casting despreparado a encarná-lo e um diretor ainda mais para conduzi-lo. É um show de horrores que ainda tem a pachorra de debochar de si mesmo e do fator pop geral que tanto anseia ser, por meio de Kano e suas piadinhas infames sobre O Senhor dos Anéis e Harry Potter, só para cumprir mais um requisito de encomenda que dizia na embalagem algo do tipo: “Tem que ser irônico também. As pessoas gostam de ironia. É inteligente. É cool. Vai fundo, mas só usa com referências a franquias nossas”.

Então nem se esforçando, dá para gostar do “tosco” que o filme apresenta ou que fica na sensação final, porque esse Mortal Kombat não acredita verdadeiramente no tosco que faz, que é a marca galhofa da franquia. Ele quer somente usá-lo para fazer dinheiro através do nome famoso do jogo – nem a música icônica é tocada direito, tamanha a vergonha (eu imagino) que os responsáveis têm de valorizar o teor icônico da franquia. Acaba que eles não tinham a menor ideia de como fazer isso em um longa-metragem, atiraram para todos os lados e públicos e acabaram finalizando todos com um fatality de constrangimento.

Mortal Kombat (Mortal Kombat | EUA, 2021)
Direção: Simon McQuoid
Roteiro: Greg Russo, Dave Callaham, Oren Uziel (Baseado na franquia de jogos desenvolvida por Ed Boon e John Tobias)
Elenco: Lewis Tan, Jessica McNamee, Josh Lawson, Joe Taslim, Mehcad Brooks, Matilda Kimber, Laura Brent, Tadanobu Asano, Hiroyuki Sanada, Chin Han, Ludi Lin, Max Huang, Sisi Stringer, Mel Jarnson, Nathan Jone, Daniel Nelson, Ian Streetz, Angus Sampson
Duração: 100 minutos

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