Crítica | Mortal Kombat Legends: A Vingança de Scorpion

A longeva e lendária franquia de videogames Mortal Kombat criada pela Midway Games em 1992 já gerou uma infinidade de obras derivadas nas mais diversas mídias. Apenas no audiovisual, foram dois longas live-action, uma série animada e duas séries live-action, a segunda delas já sob os auspícios da Warner Bros., que adquiriu a propriedade em 2009. Um pouco mais de 10 anos depois, portanto, a WB, pródiga na produção de longas animados para os personagens da DC Comics, parece ter decidido seguir o mesmo caminho com a franquia, o que parece uma escolha perfeitamente lógica.

Dirigido por Ethan Spaulding, que já trabalhou nessa cadeira para a Warner/DC em O Filho do BatmanBatman: Assalto em ArkhamLiga da Justiça: Trono de Atlântida, não tenta reinventar a roda visualmente e trabalha com traços e movimentações em computação gráfica que fazem a mímica da qualidade recente dos longas animados dos super-heróis da produtora, ou seja, algo que fica ali na linha mediana, sem grandes arroubos técnicos. No entanto, o que diferencia esse primeiro capítulo de Mortal Kombat Legends é o que diferenciava a franquia de games em sua origem e que levou à auto-regulamentação dos jogos nos EUA: a violência extremamente explícita. Nesse quesito, a equipe técnica esmerou-se no banho de sangue, normalmente por intermédio de punhos ou do uso de instrumentos cortantes, com direito à muita câmera lenta para os famosos fatalities (que são orgânicos à animação, ainda bem), além de um bem-vindo efeito de raio-x, digamos assim, que permite que o espectador veja o efeito da pancadaria nos ossos, músculos e órgãos dos lutadores. E o melhor é que Spaulding não exagera nesse artifício, deixando-o quase como uma exclusividade de Scorpion, mesmo que as lutas sejam uma constante nos 80 minutos da animação.

Como o título deixa bem claro, o mote do roteiro de Jeremy Adams é a vingança de Scorpion, ou Hanzo Hasashi (Patrick Seitz) como o vemos no excelente e muito gráfico preâmbulo que lida com o extermínio de seu clã e sua própria morte seguida de renascimento como o lutador místico e famoso dos jogos. Tudo o que gira em torno de Scorpion, apesar de ser uma estrutura clichê de busca de vingança, funciona muito bem, aliás, até mesmo quando ele é levado para competir no Mortal Kombat, algo que não se encaixa perfeitamente à história que estava sendo contada, mas que, claro, é todo o objetivo da animação.

De certa forma, Adams não consegue trazer o torneio para seu roteiro de maneira fluida e isso afeta profundamente a direção de Spaulding que trata dessa linha narrativa quase que completamente em paralelo, sem saber muito bem equilibrar o lado pessoal de Scorpion e sua sede de sangue contra Sub-Zero e a existência de um evento místico de lutas entre seres dos mais variadas universos em uma ilha interdimensional. Isso fica ainda mais claro na medida em que os demais personagens clássicos dos games são apresentados, com todos eles caindo de para-quedas na animação sem maiores explicações, especialmente Liu Kang (Jordan Rodrigues), Sonya Blade (Jennifer Carpenter) e Johnny Cage (Joel McHale), permanecendo como coadjuvantes de luxo.

Aos que não se importam por desenvolvimento de personagens ou por roteiros coesos, Mortal Kombat Legends: A Vingança de Scorpion será um maná dos deuses, mas quem quiser um pouco mais do que apenas pancadaria divertida não encontrará aqui. Na verdade, até mesmo as lutas envolvendo Kang, Blade e Cage são apenas razoáveis, novamente reiterando o ponto acima: os combates em si ficam à margem da história de Scorpion. Afinal, é esse personagem que não só é o único a ganhar desenvolvimento, com ele também é brindado com os melhores embates. Teria sido muito mais honesto se o subtítulo da animação fosse o foco único do trabalho de Spaulding e Adams, já que o restante fica parecendo exatamente o que é, perfumaria.

Os trabalhos de voz do elenco merecem comenda, porém. Patrick Seitz, que já fizera a voz de Scorpion em Mortal Kombat vs. DC Universe, Mortal Kombat (2011) e Mortal Kombat X, retorna para seu personagem e é o grande destaque aqui não só pela atenção dada ao herói/anti-herói (seja lá o que ele for exatamente), como também pela qualidade e imponência de sua vocalização, mesmo quando ele fica apenas em sons guturais de raiva incontida. Logo atrás, vem o sempre ótimo comediante Joel McHale como o irritante, mas levemente engraçado, Johnny Cage, que acha que está em um set de filmagens por boa parte da animação. Carpenter e Rodrigues também estão bem em seus respectivos papeis, assim como os demais dubladores em papeis menores como Dave B. Mitchell como Lorde Raiden e Artt Butler como Shang Tsung.

Prometendo descaradamente uma continuação que faria muito bem se equilibrasse melhor a importância de seus personagens e do próprio torneio mortal, Mortal Kombat Legends: A Vingança de Scorpion, mesmo com seus evidentes problemas, até que não é um começo desapontador para uma eventual série de longas animados. Resta só esperar que a Warner invista mais nessa empreitada, mas sem deitar nos louros e sem repetir uma estrutura única que pode até funcionar em games, mas que não se sustenta por muito tempo no audiovisual.

Mortal Kombat Legends: A Vingança de Scorpion (Mortal Kombat Legends: Scorpion’s Revenge, EUA – 2020)
Direção: Ethan Spaulding
Roteiro: Jeremy Adams (baseado em videogame criado por Ed Boon, John Tobias)
Elenco: Patrick Seitz, Steve Blum, Jordan Rodrigues, Darin De Paul, Joel McHale, Jennifer Carpenter, Artt Butler, Robin Atkin Downes, Dave B. Mitchell, Ike Amadi, Kevin Michael Richardson, Grey Griffin, Fred Tatasciore
Duração: 80 mim.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.