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Crítica | Morte Súbita (1995)

por Ritter Fan
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Alguns filmes são tão icônicos que eles quase que literalmente criam subgêneros. A Noite dos Mortos-Vivos fez nascer o filme de zumbi, O Poderoso Chefão basicamente estabeleceu a infraestrutura moderna do filme de máfia, Guerra nas Estrelas serviu de alicerce para as chamadas space operas, e isso só para citar alguns dos mais populares, claro. Na seara da ação, Duro de Matar, que chegou no apagar das luzes da década de 80, conhecida por seus brucutus musculosos, popularizou o herói comum, carismático e identificável que se mete nas maiores enrascadas possíveis, saindo-se dela por muita teimosia, engenhosidade e sorte.

E os filhotes de Duro de Matar, incluindo aí suas próprias continuações (quatro até agora), se multiplicaram como coelhos, com variações que vão desde A Força em Alerta, ou “Duro de Matar em um Navio de Guerra” (continuado por “Duro de Matar em um Trem“), passando por Velocidade Máxima, ou “Duro de Matar em um Ônibus” (que ganhou continuação em um navio de cruzeiro) e chegando até os dias de hoje como o recente Arranha-Céu: Coragem Sem Limite, ou “Duro de Matar Igualzinho a Duro de Matar, Só Que em Prédio Mais Alto“. Dentre as dezenas de outros exemplos que poderia dar, um deles merece destaque, apesar de ser razoavelmente esquecido na filmografia de Jean-Claude Van Damme: Morte Súbita (ou “Duro de Matar em um Estádio“). Apesar de ser um dos filmes “inspirados” no clássico de 1988 que mais se aproxima estruturalmente dele, a segunda parceria do ator e lutador belga com o diretor Peter Hyams (a primeira foi no ótimo O Guardião do Tempo) é entretenimento descompromissado de qualidade.

A premissa é todinha Duro de Matar, com o ex-bombeiro Darren McCord (Van Damme), que agora é inspetor de segurança de incêndio, levando seus filhos para ver o jogo final da Stanley Cup (de hóquei no gelo) entre o Pittsburgh Penguins e o Chicago Blackhawks quando o estádio passa a ser controlado por um grupo de bandidos comandados por Joshua Foss (Powers Boothe) que quer cometer um roubo altamente sofisticado usando como instrumento David Binder (Raymond J. Barry), vice-presidente dos EUA que foi prestigiar a disputa. Interessantemente, a ideia “super original” para o roteiro veio de Karen Elise Baldwin, esposa de Howard Baldwin que, à época, era dono do Pittsburgh Penguins e tinha um contrato de dois anos com a Universal Studios para o desenvolvimento de filmes, o que acaba fazendo de Morte Súbita uma gigantesca peça publicitária do time e do estágio, ainda que eu tenha lá minhas dúvidas se uma trama em que a segurança do local é tomada com aparente facilidade pelos bandidos pode mesmo ser considerada como publicidade positiva.

Seja como for, Van Damme consegue dar conta do recado como o ex-bombeiro que funciona como o herói solitário que vai aos poucos infernizando a vida dos vilões. Ele não tem o mesmo talento para viver o “homem comum” que Bruce Willis mostrou ter em Duro de Matar e o roteiro de Gene Quintano não chega aos pés do de Jeb Stuart e Steven E. de Souza, mas o belga faz bom uso de seu carisma aqui, com a direção de Peter Hyams dando-lhe o espaço necessário, mas sem que o longa se fie em lutas marciais. Na verdade, há pouco da pancadaria usual de Van Damme, com o ponto alto sendo logo no início em que ele hilariamente luta na cozinha do estádio contra uma vilã fantasiada de mascote do time de Pittsburgh, com seus socos e chutes sendo amortecidos pelo… hummm… figurino…

O que ajuda muito o filme é ter o saudoso Powers Boothe como o chefão de toda a vilania. Ele empresta aquela qualidade de personagem maior que a vida ao seu Joshua Foss, mas sem resvalar em histrionismos ou artifícios maiores do que uma voz ameaçadora, postura relaxada como o literal dono da situação e uma demonstração de frieza e violência que chega a ser momentaneamente perturbador. A atriz mirim Whittni Wright, vivendo Emily, filha de Darren, traz o toque de doçura necessário para contrastar com a maldade de Foss, o que o diretor aproveita para construir tensão e aumentar as apostas em um cenário que é basicamente formado por uma sucessão convincente – ou quase – de clichês que, como já tive oportunidade de dizer diversas vezes em outras críticas, não é problema quando são bem usados, como é o caso aqui.

O roteiro, porém, derrapa em momentos em que ele muito claramente força a barra para que essa ou aquela situação ocorra, como é o caso do herói efetivamente jogar alguns minutos do jogo decisivo ou a facilidade absurda com que ele localiza as bombas plantadas pelo estádio e as desarma. Também não gosto da maneira complexa, mas ao mesmo tempo simplista com que Darren invade o camarote do vice-presidente, mas, em filmes como esse, é normalmente necessário uma dose maior de suspensão da descrença e o que o roteiro pede, aqui, não é completamente fora de esquadro.

O resultado é um mais do que sólido “Duro de Matar em um Estádio” que posiciona Van Damme mais uma vez como um herói de ação que não necessariamente precisa depender de golpes, chutes e espacates impressionantes e mostra que, mesmo sendo uma cópia quase servil de uma estrutura já bem estabelecida, pode divertir bastante se houver um um Peter Hyams da vida por trás das câmeras. Morte Súbita, obviamente, não chega perto da qualidade de sua maior inspiração, mas, dentre as ninhadas de cópias, ele é definitivamente um filhote que se destaca e merece reconhecimento.

Morte Súbita (Sudden Death – EUA, 1995)
Direção: Peter Hyams
Roteiro: Gene Quintano (Karen Elise Baldwin)
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Powers Boothe, Raymond J. Barry, Whittni Wright, Ross Malinger, Dorian Harewood,
Kate McNeil, Jennifer D. Bowser, Michael Gaston, Paul Mochnick, Audra Lindley, Brian Delate, Faith Minton, Jack Erdie
Duração: 110 min.

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