Crítica | Morte Suspeita de uma Adolescente

Os principais trabalhos de Sergio Martino com dramas de investigação policial e assassinatos realizados antes de Morte Suspeita de uma Adolescente podem tranquilamente ser classificados como gialli, um termo que não cabe confortavelmente a esta sua produção de 1975, mais uma vez escrita em parceria com Ernesto Gastaldi. Morte Suspeita de uma Adolescente. Plano Crítico

Os principais trabalhos de Sergio Martino com dramas de investigação policial e assassinatos realizados antes de Morte Suspeita de uma Adolescente podem tranquilamente ser classificados como gialli, um termo que não cabe confortavelmente a esta sua produção de 1975, mais uma vez escrita em parceria com Ernesto Gastaldi. O giallo anterior de Martino havia sido Torso (1973), obra na qual o diretor plantaria definitivamente as sementes do assassino mascarado, tendo esse aspecto trabalhado de forma notável no enredo, não apenas utilizado como um recurso de ocultação do criminoso, como muitas vezes já tivéramos no cinema, talvez com boa dose de influência literária gótica.

Morte Suspeita é um curioso híbrido entre giallopoliziottesco, guardando elementos interessantes de ambos os subgêneros e focando fortemente na ação, influência inegável de experiências imediatamente anteriores do diretor, principalmente em Milano Trema: La Polizia Vuole Giustizia (1973) e outros dois longas lançados em 1975, o primeiro em janeiro (La Città Gioca D’azzardo) e o segundo em abril (La Polizia Accusa: Il Servizio Segreto Uccide) — lembrando que Morte Suspeita chegaria às telonas em agosto daquele mesmo ano. Na obra, uma jovem prostituta é encontrada brutalmente assassinada em uma espelunca, e este crime passa a ser investigado pelo diferentão Detetive Paolo Germi (Claudio Cassinelli), que nos lembra bastante o Detetive de Os Assassinos só Matam aos Sábados (1970), não só no comportamento, mas também no tipo de crime que investiga no filme.

Aqui, porém, o crime se desdobra em um número muito maior de consequências e tem como fonte principal alguém com dinheiro o bastante para se ver livre de todo tipo de investigação, além de poder “calar” tranquilamente aqueles que se puserem em seu caminho. Assim, o caráter investigativo não está apenas ligado a uma máfia de tráfico sexual ou em uma atividade sexual feita por adolescentes, lembrando um pouco, nesse caso, O Que Vocês Fizeram Com Solange?. O plot não despreza o assassinato, é verdade, mas nem a sua ocorrência nem o seu autor (apesar de guardarem todas as caraterísticas do giallo) são o centro das atenções.

Muita gente reclama de uma “grande confusão” no roteiro a partir da segunda metade da fita, mas confesso que não vejo confusão alguma. O que existe são problemas na montagem (principalmente quando as coisas começam a se resolver e o tempo interno de cada ação e a passagem de uma para outra atordoa ou irrita o espectador), tornando o filme progressivamente mais problemático à medida que se aproxima de seu grande momento de revelação. Algumas cenas, nesse aspecto, dividem opiniões, sendo a principal delas a longa e estapafúrdia perseguição de carro. Apesar de fazer sentido para a narrativa, nada justifica tanto tempo gasto naquela sequência, cabendo uma porção de bobagens humorísticas que não são tão engraçadas e estragam aquele momento da obra por quebrar parte da tensão criada pela perseguição. Isso quase acontece em outra cena também, a do tiroteio na montanha russa, mas apesar de um início aleatório, é um momento do filme muito bem conduzido e com uma continuidade coerente com o todo.

Esse contato entre o assassino que persegue suas vítimas e as mata violentamente e outros tipos de crime é uma posição muito bem defendida pelo roteiro, tendo no final uma dose de sarcasmo e realismo que denuncia os caminhos da Justiça do país (no caso, a Itália, mas é algo que podemos aplicar a qualquer nação), a corrupção dentro da polícia e a maneira como crimes num microcosmo familiar (o abuso sexual, a pedofilia e a posterior chantagem da vítima via denúncia) fecham um elo com crimes em escala maior, mostrando estruturas inteiras ligadas ao sexo com menores, prostituição, drogas, roubo e assassinatos.

Por fazer um certo flerte de classe, o filme dá espaço para esses assuntos virem à tona com boa carga crítica, costurando-os com um alívio cômico posteriormente jogado para a tragédia, uma piada interna bem sustentada (os óculos do Detetive, que sempre quebram), uma trilha sonora às vezes descritiva demais e uma grande movimentação de personagens. O fato de ser um híbrido de gêneros espalha consideravelmente a atenção dos dramas internos e certamente prejudica o aprofundamento de alguns personagens, mas a diversão vinda pelo lado da ação, a comédia secundária (a despeito de seus maus momentos) e a tensão causada pelos assassinatos e perseguições são uma boa garantia de uma sessão válida. Um filme com um tema forte, trabalhado com diferentes tons dramáticos e com crimes e dificuldade de investigação ou prisão dos criminosos que vemos repetir-se ainda hoje, com milícias inteiras assumindo o comando de áreas do Estado (quando não o Estado inteiro) e controlando os mecanismos do sistema que talvez pudessem interromper suas atividades. A parte da expressão popular onde, perante a lei, algo são “mais iguais” que outros.

Morte Suspeita de uma Adolescente (Morte sospetta di una minorenne) — Itália, 1975
Direção: Sergio Martino
Roteiro: Sergio Martino, Ernesto Gastaldi
Elenco: Claudio Cassinelli, Mel Ferrer, Lia Tanzi, Gianfranco Barra, Patrizia Castaldi, Adolfo Caruso, Jenny Tamburi, Massimo Girotti, Carlo Alighiero, Franco Alpestre, Fiammetta Baralla, Barbara Magnolfi, Aldo Massasso, Roberto Posse, Carlotta Wittig, Ettore Arena, Franco Diogene, Dino Emanuelli, Alessandra Vazzoler
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.