Crítica | Most Dangerous Game (2020)

O conto The Most Dangerous Game (também conhecido como The Hounds of Zaroff e publicado no Brasil como O Jogo Mais Perigoso, apenas Zaroff e uma combinação dos dois títulos), que Richard Connell publicou originalmente em 1924, já ganhou diversas adaptações nas mais diversas mídias a começar por Zaroff, o Caçador de Vidas, de 1932. Se puxarmos pela mente, mesmo que o título ou a inspiração na obra de Connell sequer seja mencionada, a premissa de humanos caçando humanos em um jogo mortal está presente em filmes mais recentes como O Sobrevivente e a franquia Jogos Vorazes, baseados também em livros.

E a razão é muito simples: por mais repugnante que o conceito possa ser, ele é inegavelmente fascinante e não costuma dar muito trabalho para gerar bons filmes e livros, ainda que não necessariamente profundos ou complexos. Esse é o caso de Most Dangerous Game, uma das mais maiores apostas de estreia do Quibi, serviço de streaming que oferece “filmes em capítulos”, como o marketing gosta de chamar o que essencialmente são minisséries, bancado por Jeffrey Katzenberg.

O caçado da vez é Dodge Tynes (Liam Hemsworth) um homem casado e esperando um filho que não só está quebrado financeiramente, como é diagnosticado com câncer terminal. Sem escolha e querendo deixar sua família confortável, ele é “encantado” pela oferta indecente feita por Miles Sellers (Christoph Waltz): uma caçada urbana de 24 horas em que, a cada hora em que a caça sobrevive, somas cada vez mais vultosas são depositadas em sua conta. Com regras como a proibição do uso de armas de fogo (por qualquer um dos envolvidos), a necessidade de usar um celular que a cada hora revela, por 15 segundos, a localização exata da vítima e a obrigação de ela ficar circunscrita à cidade de Detroit, a minissérie é um simples, mas bem concatenado e executado thriller de ação que se refestela com as caracterizações clichê, só que divertidas, dos assassinos, um Waltz fazendo seu ótimo papel de sempre e o Hemsworth indigno apanhando como boi ladrão dentro de uma estrutura cheia de reviravoltas que, apesar de plenamente previsíveis, são inegavelmente eficientes.

As filmagens em locação em centro urbano e o uso apenas de instrumentos cortantes funcionam bem para manter a minissérie imersiva sem que seja necessário recorrer a efeitos especiais muito elaborados, apenas a bons momentos de luta das mais variadas naturezas que ganham boas e realistas coreografias, sem nenhum ato particularmente super-heroico considerando que Dodge, apesar de ser um homem em ótima forma física, não é um ex-Marine ou qualquer outra coisa parecida que lhe dê uma vantagem específica nesse jogo de sobrevivência. Com isso, a direção de Phil Abraham, que tem carreira sólida na televisão, tendo dirigido episódios de, dentre outras, Mad Men, Demolidor, Orange is the New Black e Jack Ryan, mostra-se precisa para manter o ritmo de ação e suspense constante depois que os três mini-episódios iniciais servem de introdução pré-caçada para toda a premissa básica sobre Dodge e, claro, sobre a oferta de Miles.

Como um bom, mas descompromissado livro, Most Dangerous Game é irresistível e praticamente impossível de assistir sem ser tudo de uma tacada só. Com uma produção caprichada, um elenco sólido que ajuda a fazer do irmão do Thor um herói de ação de seu próprio jeito, além de abrir a possibilidade para continuações no formato de antologia, a produção própria do Quibi começa a realmente mostrar a que veio no jogo caro e extremamente competitivo das plataformas de streaming.

Most Dangerous Game (EUA, de 06 a 22 de abril de 2020)
Criação: Nick Santora, Josh Harmon, Scott Elder
Direção: Phil Abraham
Roteiro: Nick Santora
Elenco: Liam Hemsworth, Christoph Waltz, Sarah Gadon, Zach Cherry, Chris Webster, Billy Burke, Jimmy Akingbola, Natasha Liu Bordizzo
Duração: 118 min. (em 15 mini-episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.