Crítica | Mothra, a Deusa Selvagem (1961)

PLANO CRITICO MOTHRA A DEUSA KAIJU

Quando se para para pensar na qualidade dos filmes de monstro da Toho ou na visão geral dos Kaiju japoneses, não é sempre que temos obras como Mothra, a Deusa Selvagem (1961) ou King Kong vs. Godzilla (1962), filmes que a despeito de suas falhas e do absurdo do gênero no qual se enquadram, possuem uma inesperada qualidade de produção, dando ao drama dos monstros destruindo cidades e aterrorizando humanos um outro significado além daquele de apenas causar terror.

Mothra foi o primeiro kaiju onde o monstro da vez não foi morto no final e isso já diz bastante coisa a respeito da criatura, que diferente dos mega-bichos do cinema japonês até o momento, tinha uma espécie de “motivo nobre” para fazer o que estava fazendo. Baseado no livro serializado The Luminous Fairies and Mothra, o longa começa com o navio Daini-Gen’you-Maru enfrentando uma tempestade no Pacífico Sul, o que leva parte da tripulação sobrevivente a se abrigar em uma ilha rochosa e presumivelmente inabitada, pertencente à nação fictícia de Rolisica, que ali realizava testes nucleares. Novamente temos o princípio atômico visto em Godzilla e Rodan, mas aqui o texto de Shin’ichi Sekizawa dá nuances bastante diferentes para a questão.

A junção de nomes e visão de mundo que o “cinema de monstro” do Japão nos trazia desde o início da década de 1950 ganha, nos anos 60, requintes de interesse social e entretenimento, uma espécie de “política à distância”, como o nome da nação de Rolisica (um misto de EUA e URSS) e até da cidade que Mosura ataca na parte final do longa, New Kirk City, com ambientações inspiradas em Manhattan e com população que lembra à da Europa Ocidental. O processo de filmagem em Tohoscope e a coloração em Eastmancolor fazem com que o contraste de cor e o destaque dado aos objetos de vidro ou brilhantes pela direção de arte saltem aos nossos olhos, costurando a metrópole destruída com a Ilha natal do kaiju que saiu, ainda em forma de larva, para salvar “as amendoins” cantoras que estavam aprisionadas e forçadas a trabalhar em um show de variedades do milionário inescrupuloso Clark Nelson.

Espectadores mais animados poderão trazer diversas camadas de interpretação à tona e o filme permite esse tipo de variedade de interpretação, considerando parte dos conceitos vistos em King Kong (1933), clássico com o qual Mothra tem uma grandiosa semelhança de estrutura narrativa, inclusive na dualidade entre “fera e bela” (aqui, duas belas) e a relação afetuosa e respeitosa que o animal tem para com o seu objeto de busca e resgate. O caráter da fera aqui, porém, tem um motor épico, porque ela é movida em parte por um instinto e em parte por telepatia, algo que a guia até as duas pequeninas sequestradas da ilha. A verdadeira missão da mariposa gigante, que além de ter um design muito bonito ganhou uma excelente concepção ao longo da história, do seu período de saída do ovo, de vida como larva, de entrada no casulo (que parece uma casca de amendoim) e nova saída como a verdadeira Mothra, é uma das coisas mais bem estruturadas do roteiro.

Os efeitos utilizando tela azul incomodam sempre que aparecem, especialmente em planos médios e closes, algo que a montagem poderia ter remediado e a própria direção poderia ter seguido por caminhos diferentes. Isso, porém, não é algo que atrapalha a obra por completo. A forma boba de mostrar os vilões, a colocação de uma criança para fins cômicos (ou para um estranho elemento heroico) e a toda a construção do jornalista “Buldogue” ou “Sen-chan” (Furankî Sakai) atrapalham bem mais o desenvolvimento da película do que os efeitos limitados. Mesmo que ainda seja possível ver as cordas manipulando Mosura em diversos estágios e que as cenas de destruição da cidade em miniatura não sejam assim tão bem dirigidas (mesmo a qualidade de Rodan sendo inferior, o trabalho com miniaturas ali foi bem mais interessante), o resultado final de Mothra, a Deusa Selvagem é confortavelmente acima da média e garante uma boa diversão para o espectador. Vida longa à super-mariposa!

Mothra, a Deusa Selvagem (Mosura) — Japão, 1961
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Shin’ichi Sekizawa (baseado na obra de Shin’ichirô Nakamura, Takehiko Fukunaga, Yoshie Hotta)
Elenco: Furankî Sakai, Hiroshi Koizumi, Kyôko Kagawa, Yumi Itô, Emi Itô, Jerry Itô, Ken Uehara, Akihiko Hirata, Kenji Sahara, Seizaburô Kawazu, Takashi Shimura, Yoshio Kosugi, Yoshifumi Tajima, Ren Yamamoto, Haruya Katô, Shôichi Hirose
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.