Crítica | Motoboys – Vida Loca

Em determinado ponto avançado dos depoimentos de Motoboys – Vida Loca, um dos entrevistados alega que a moto é um “mal necessário”, algo rebatido logo adiante, por outro participante, ao reforçar que se é um “mal”, jamais deve ser pensado como necessário. Se deixarmos de lado os significados das expressões de linguagem, compreenderemos que as motos exercem influência no processo de modificação do trânsito nos grandes centros urbanos, comportando-se como um meio de transporte do entre-lugar, isto é, algo que apresenta elementos favoráveis e desfavoráveis equilibradamente divididos entre si.

Tendo o capacete como um dos itens básicos de segurança, as motos começaram a surgir no mercado como opção para deslocamento em 1820 na Escócia, passeando depois pela Alemanha, China, França, Índia, etc. Em cada local ganhou a sua particularidade até chegar aos moldes contemporâneos. Utilizada para trânsito individual e mais livre que os automóveis, as motos representam a liberdade de movimentação em grandes centos urbanos cada vez mais caóticos.

Produzido em 2003, Motoboys – Vida Louca segue o formato clássico dos que opinam de maneira favorável e contrária ao trajeto das motos no trânsito das metrópoles brasileiras. Visualmente não é uma experiência fabulosa, mas aborda um tema necessário e que apesar de ter sido lançado há quase 20 anos, ainda está muito atual e pertinente. Com direção de fotografia de Cristiano Wiggers, o filme é iluminado por alguns borrões e momentos de forte contraste entre os tons claros e escuros, elemento tão narrativos quanto a trilha produzida pelo Instituto, bem como os sons mixados pelo departamento de Márcio Rodrigues.

Os relatos são bem variados. Serginho Groissman, apresentador da Rede Globo, conta que São Paulo não é uma cidade que permite ao cidadão o “direito à pressa” e conta ao espectador uma experiência de congestionamento que o fez saltar do carro da produção e subir numa moto para dar conta de uma pauta importante. Paulo Mendes, especialista em Arquitetura e Urbanismo, aponta que os motoboys representam uma metáfora para as loucuras do trânsito contemporâneo, depoimento de nível leve se comparado ao que o psicanalista entrevistado reforça sobre o estado doentio dos pilotos de moto após seis meses de atuação no trânsito das cidades turbinadas. Em seu ponto de vista, relativamente afetado demais, ele informa que as motos representam a instabilidade e a vingança, indivíduos representantes da agressão em seu “estado puro”.

Dentre os demais relatos, temos o médico do pronto-socorro que denuncia não apenas o aumento dos números de acidentes, mas também os seus níveis de gravidade. Os flagrantes gritam para o espectador a dura realidade destes “aventureiros”. A então prefeita Marta Suplicy é desmascarada quando o diretor a acompanha numa ação de rua e pergunta os motivos dela não retornar ao seu ofício de solicitação para entrevista sobre a questão em São Paulo. Um pequeno acidente de trânsito é acompanhado pela equipe de produção, sem resolução em cena, apenas com o motoqueiro acidentado a reclamar com a possível motorista que utilizava o celular e havia esquecido de ligar a seta para a comunicação própria do trânsito.

Tratado como um dos representantes da violência urbana em São Paulo, o motoboy, personagem da vida cotidiana que é considerado por alguns como parte importante do mecanismo que engendra a economia, ganha um olhar crítico que dialoga bem com seus pontos positivos e negativos, sem assumir uma postura tendenciosa ao equilibrar as abordagens de cada depoimento, haja vista a edição bem conduzida de Marcello Camello, bem “certinha”.

Dirigido por Caio Ortz, sob orientação do roteiro de Giuliano Cedroni, Motoboys – Vida Louca é um documentário que apresenta o seu tema por meio de uma linguagem que faz referências aos games, tanto nos aspectos visuais quanto sonoros, além de ter o cuidado em construir os seus personagens de maneira eficiente. A estética “suja” e noturna pode não agradar aos interessados apenas no entretenimento, mas consegue dar conta das discussões temáticas a que se propõe, abordagem reflexiva importante para os debates sobre Gestão para o Trânsito na contemporaneidade.

Motoboys – Vida Loca (Brasil – 2017)
Direção: Caio Ortz
Roteiro: Giuliano Cedroni
Elenco: Maurício Januzzi, Gilberto Demestein, Marcos Tibiriça, Renato Botelho, Renata Winkler, Bernardo Tanis, Marcia Marzocchi, Heródoto Barbeiro
Duração: 55 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.