Crítica | Motoqueiro Fantasma Cósmico

O tresloucado Motoqueiro Fantasma Cósmico surgiu na publicação solo de Thanos em 2018 e a Marvel Comics não perdeu tempo em soltar uma minissérie com o personagem e prometer reuni-lo aos Guardiões da Galáxia. Mas não é para menos, pois a junção do Justiceiro com o Motoqueiro Fantasma e com o conceito de Arauto de Galactus é uma criação inspirada pela completa doideira que é.

Mas calma. Aqueles que estiverem revirando os olhos pela editora transformar Frank Castle em mais uma criatura sem pé nem cabeça (afinal, lembrem-se de Frankencastle!) precisam saber que este Castle é da Terra-TRN666 e não do universo Marvel normal. Em outras palavras, esqueçam a mitologia do herói e mergulhem nessa versão “alternativa”, pois ela é muito, mas muito divertida mesmo.

Fazendo uma breve recapitulação, que não é nem um pouco necessária para compreender a minissérie, mas não custa fazer, o Motoqueiro Fantasma Cósmico surgiu depois que Frank Castle, ao morrer, faz um acordo com Mefisto para voltar como Motoqueiro Fantasma de forma a vingar-se de Thanos, que destruíra toda a vida na Terra. Sozinho, ele enlouquece (mais ainda) e, com a chegada de Galactus, ele se oferece como seu arauto, ganhando poderes cósmicos e os dois saem pelo universo caçando Thanos. No entanto, Thanos acaba atraindo Castle para seu lado. Da última vez que o vimos, Castle fora morto novamente, desta vez por Norrin Rad usando o Mjölnir.

Quando a minissérie começa, depois de um inspirado resumo gráfico da trajetória do anti-herói, descobrimos que, ao morrer, ele foi levado para Valhalla por Odin. Se você falou WTF? agora, é isso mesmo. Odin pegou a alma de Castle e levou-a a seu paraíso destinado aos guerreiros mais valorosos mortos em batalha. Se quiser mais explicações do que isso, mande um e-mail para Donny Cates ou tente falar diretamente com Odin. De minha parte, posso dizer de cara que eu comprei a ideia da mesma maneira que eu comprei todo o conceito do Motoqueiro Fantasma Cósmico. É zoeira, mas é zoeira das boas, bem no estilo Cates de escrever!

Mas é claro que Castle não está satisfeito por lá e Odin o devolve à vida com todos os seus super-poderes mais sua moto cósmica e para o lugar e momento temporal escolhidos por Castle: Titã pouco tempo depois do nascimento de Thanos. Afinal, o ex-Justiceiro quer resolver tudo da maneira mais simples possível, matando o mal roxo e queixudo pelo raiz. Chegando lá, porém, ele muda de ideia e decide ele mesmo educar Thaninhos para ele não ser um genocida quando crescer.

Parem tudo. O Justiceiro vai educar um bebê para ele não ser assassino???? Alguém dá um prêmio para o roteirista pela ideia estúpida mais brilhante já colocada em papel. Ela é tão sensacionalmente idiota que Cates faz questão absoluta de trazer o Vigia – em sua versão mais hilariamente irônica e sacana que já vi – para dizer isso com todas as letras para Castle que simplesmente não consegue ver problema algum nisso.

Assim, como o Lobo Solitário de Kazuo Koike, o Motoqueiro Fantasma Cósmico passa a levar o pequeno Thanos a tira-colo amarrado umbilicalmente a ele com delicadas correntes vermelhas. A partir desse ponto, Cates realmente abre as portas do Asilo Arkham narrativo e faz um festival de sandices divertidíssimas, como por exemplo trazer Cable (desenhado no estilo mega-deformado de Rob Liefeld) como o líder de uma versão futurista (em relação ao momento temporal da narrativa a partir da volta de Castle à vida) dos Guardiões da Galáxia, que conta com Howard, o Pato como o Fanático (Patático?), Rocket Racoon usando uma armadura feita de Groot (sim!!!), Capitã Marvel Kamala Khan com o escudo do Capitão América e Jubileu (sim, só a Jubileu normal mesmo). A pancadaria que segue – com Castle tentando não ser violento na frente do bebê – é surreal e longa. Mas funciona muito bem, pois Cates brilhantemente satiriza um dos mais utilizados e abusados recursos narrativos dos quadrinhos, a viagem no tempo.

E é impagável ver Galactus nessa mistura, além do próprio Thanos Justiceiro do futuro, que volta para salvar seu pai adotivo. Só lendo mesmo para acreditar a quantidade de coisas que Cates conseguiu colocar em apenas cinco edições de leitura fácil e gostosa, isso se o leitor realmente entrar no espírito da brincadeira.

Falando em espírito da brincadeira, Dylan Burnett, na arte, faz exatamente isso. Ele mergulha de coração aberto no que Cates quis fazer e usa traços exagerados, mas muito criativos para os personagens, além de popular as páginas com muitos detalhes de fundo que dão mais dimensão ao trabalho como um todo. As cores de Antonio Fabela, fortes, primárias e chamativas, também combinam perfeitamente com a festa intertemporal de Donny Cates e realçam o trabalho de Burnett.

Apesar de gostar do novo personagem mesclado da Marvel, tenho para mim que ele é de uma nota só e, como o chato do Deadpool, tem potencial de cansar muito rapidamente. Aqui, em uma minissérie de apenas cinco edições, ele funciona muito bem, pois é, diria, a medida certa de extrema pancadaria cósmica e comicidade no estilo Looney Tunes. Sua vindoura reunião com a nova versão dos Guardiões da Galáxia não é algo que estou ansioso para ler, mas vamos ver no que dá.

O que interessa mesmo é que Donny Cates, mais uma vez, acerta em cheio. Ele pega o personagem que criou em Thanos Vence e aposta todas as fichas nele sem freios e sem fronteiras, brincando para valer com todo o tipo de conceito clichê dos quadrinhos mainstream. A minissérie solo do Motoqueiro Fantasma Cósmico é diversão mais do que garantida.

Motoqueiro Fantasma Cósmico (Cosmic Ghost Rider, EUA – 2018)
Roteiro: Donny Cates
Arte: Dylan Burnett
Cores: Antonio Fabela
Letras: Clayton Cowles
Editoria: Jordan D. White
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho a novembro de 2018
Páginas: 112

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.