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Crítica | Moxie: Quando as Garotas vão à Luta

por Laisa Lima
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Quando as garotas vão à luta, não vão à passeio. Desde o que foi mostrado em As Sufragistas (2015), ou seja, uma revolução coletiva e mais evidente, até uma reviravolta interna em seu próprio destino, como fez a personagem com o mesmo nome da obra, Lady Bird (2017), cada passo em direção ao progresso da libertação do sexo feminino é significativo. Não é fácil caminhar – diga-se de passagem, não a passos largos – quando se tem toda uma sociedade com pensamentos já enrijecidos como empecilho. Contudo, é possível. E a arte apresenta-se como instrumento dessa ultrapassagem, afinal nada no mundo artístico é um tabu permanente, que não pode ser questionado. Visando a base da mudança, a nova geração, Moxie: Quando as Garotas vão à Luta (Amy Poehler, 2021) planta o espírito da revolta naquela que é a maior responsável pelo futuro feminino.

A primeira a entrar em combate é Vivian (Hadley Robinson), uma jovem tímida e observadora o suficiente para perceber o sexismo em sua escola. Tendo como estopim ter permanecido novamente na posição de “garota mais obediente” do colégio em um ranking elaborado unicamente por meninos, a adolescente vê a necessidade de uma reformulação na hierarquia e nos ideais do local. Com um zine intitulado de Moxie e uma identidade anônima, Vivian começa a disseminar sua visão sobre as regras de convivência antiquadas seguidas pelas meninas no ambiente escolar, e consegue uma legião de adeptas. Como comandantes desta reforma, está um grupo de garotas com particularidades distintas, porém unidas pelo propósito de fazer prevalecer a junção do sexo feminino. Tendo um maior destaque, Lucy (Alycia Pascual-Peña), a aluna nova, foge do molde de aceitar sem questionar e guia a desconstrução, a partir de sua própria personalidade, desta mesma fórmula de pensamento, inspirando Vivian a seguir com seu objetivo.

Lucy não figura como principal referência para a protagonista, já que este lugar é ocupado por sua mãe Lisa (Amy Poehler),ex-participante do movimento Riot Grrrl, criado na década de 1980 para fortalecer o cenário inabitado do punk rock feito por mulheres. Apesar de ter passado pela experiência da maternidade, a agora enfermeira não deixou esvair os preceitos libertários circulados na época, os transmitindo para a filha, mesmo que ela não possua – até então – uma rebeldia mais latente. Corroborando com a temática do filme, a trilha sonora punk, obviamente na versão do sexo feminino, configura a crescente ousadia no ato de Vivian, metaforicamente consagrado com o frequente aparecimento da música Rebel Girl, da banda Bikini Kill, um dos marcos do manifesto. Logo, é entendido a grandiosidade da atitude da jovem em indagar o porquê de certos padrões e provocar uma transformação, mesmo que tímida no início.

Embora faça alusão a uma resposta ao patriarcado não apenas social e não apenas enquadrada em um pequeno alcance, tal qual o Riot Grrrl, a ação das jovens no colégio não envolve questões para além dos portões acadêmicos, como o vínculo político no tópico da desigualdade de gênero. Contudo, o feminismo aparece ilustrado, didático e de fácil compreensão, dado a dificuldade na não aderência a ele ao serem normalizados eventos revoltantes e considerados como desrespeitosos a qualquer indivíduo, como o constante assédio de um jogador de futebol americano do último ano, popular e venerado na escola, com Lucy. Independentemente de ser bem resolvida e modernizada em suas ideologias, a jovem, assim como outras em ocasiões semelhantes, não recebe nenhum tipo de suporte de quem mais deveria repudiar casos deste nível de gravidade: os adultos com autoridade.

Parte da irracionalidade apresentada na obra se origina de cabeças ou masculinas ou já maduras. É árdua a tarefa de modular noções pré-estabelecidas, sem sequer uma dúvida, e o longa-metragem exalta isso personificando quem não procura mudar. No colégio, as figuras masculinas seguem esta fórmula, exaltadas mesmo levando em consideração suas atitudes imorais, relevando somente Seth (Nico Hiraga), crush de Vivian. Fazendo um bom trabalho ao implantar indagações no público sobre a natureza do garoto, o filme não idealiza os comportamentos dos adolescentes do sexo masculino, e é propositalmente focado nos mais tacanhos para assim engrandecer o movimento. 

Ao mesmo tempo que Moxie faz da desesperança com a realidade em torno da mente dos mais acostumados com o privilégio, o longa-metragem mostra que ainda há salvação. Por intermédio das distinções entre as meninas do círculo que permite que o zine seja tão disseminado, é possível reconhecer o quão atingível é o movimento feminista e como ele é recebido por cada ser humano, visto sua criação, sua cultura, seus hábitos, etc., díspares. A menina mais popular da escola é afetada pelos estereótipos superficiais, a de temperamento mais introvertido sofre por reprimir sua sexualidade, outra é vítima de uma cultura pouco maleável, e até quem exala uma blindagem contra o preconceito, a exemplo de Lucy, é vítima da limitação coletiva. O protagonismo é distribuído entre quem tem a história destacada no momento, fazendo da aliança entre as jovens, crível, mas tornando a verdadeira personagem principal, menos evidente.

A abordagem simplificada de determinados assuntos, passando por temáticas que, para não ficarem vagas, era de suma importância um desenvolvimento elaborado, apressa o ritmo do filme. Como acontece em alguns eventos da obra, pontos graves (até criminosos), têm suas resoluções em apenas algumas falas. A causalidade que leva a uma ação também, às vezes, não é explicada de maneira a assimilar o processo para tal, gerando indagações até na ascendência e decadência da rebeldia de Vivian. O motivo para o fato foi agravado em mínimas aparições e sua conclusão foi “mais do mesmo”. É provável a consequente lembrança do espectador de que o que é visto, não tem a pretensão de sair do substancial. A diretora, Amy Poehler, volta-se para clichês adolescentes e para um segmento de filme juvenil, levando uma certa irrealidade a propostas não tão suaves e possuidoras de um apelo dramático que requeria uma maior intensidade.   

O carisma dos personagens de Moxie: Quando as Garotas Vão à Luta auxilia o filme a ser agradável, mesmo se tratando de um fator desagradável. Entretanto, esse incômodo dá o gás primordial para o avanço e reconhecimento da motivação do trabalho de Poehler, que perpassa conceitos como equidade entre os sexos e repudia crimes antes velados, como o abuso sexual. Tudo por meio de um didatismo digno de um longa-metragem que tem a aspiração de ser leve e para todos, não só para quem deseja uma linguagem mais profunda. Decorrentemente, a seriedade em acontecimentos naturalmente sérios são vistos por uma óptica otimista, na qual para tudo há uma solução imediata, mesmo na vida real não sendo assim. Por ser uma espécie de feminismo para leigos, iniciantes ou curiosos sobre a temática, o filme, ainda levando em consideração a utopia enfatizada, dá a entender que existe um percurso para chegar na condição da obra. No entanto, se a força feminina não diminuiu até agora, é certo que aguentará o quanto for preciso para que o lugar das mulheres finalmente seja onde elas quiserem.

Moxie: Quando as Garotas vão à Luta (Moxie –  EUA, 2021)
Direção: Amy Poehler
Roteiro: Tamara Chestna, Dylan Meyer
Elenco: Amy Poehler, Josie Todah, Josephine Langford, Marcia Gay Harden, Patrick Schwarzenegger, Clark Gregg, Sydney Park, Nico Hiraga, Sabrina Haskett, Hadley Robinson, Lauren Tsai, Alycia Pascual-Peña
Duração: 112 min.

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