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Crítica | Mozart in the Jungle – 1ª Temporada

por Lucas Nascimento
287 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4

Isso é apenas uma opinião pessoal, mas acredito que não exista uma forma de música mais majestosa e trabalhosa do que a música clássica. Ainda que longe da popularidade do rock, pop, eletrônica ou até mesmo do Jazz, as grandes orquestras sinfônicas representam a sofisticação e perfeição da criação musical. Daí, cria-se uma imagem imponente e respeitosa daqueles que audaciosamente embarcam para fazer parte desse conjunto difícil e exigente. É aí que Mozart in the Jungle vem para desconstruir essa imagem.

Sob a tagline de “Sexo, drogas e Música Clássica”, a série original da Amazon parte justamente para encontrar a sujeira por trás de uma Arte tão… limpa e respeitosa. Sob a alcunha de Alex Timbers, Roman Coppola, Jason Schwarztman e Paul Weitz (servindo como roteiristas e diretores para diversos episódios), a série nos situa na Orquestra Filarmônica de Nova York, onde o veterano maestro Thomas Pembridge (Malcom McDowell) anuncia sua aposentadoria após um longo período na regência. A organização da instituição aposta em um novo estilo com a chegada de Rodrigo De Souza (Gael Garcia Bernal), cujas práticas imediatamente entram em conflito com as normas mais “conservadoras” da Orquestra.

Do outro lado da fila, temos a jovem Hailey Rutledge (Lola Kirke), obcecada em garantir um lugar na Orquestra como oboísta, ao mesmo tempo em que lida com sua colega de quarto excêntrica Lizzie (Hannah Dune) e um namoro enrolado com o dançarino Alex (Peter Vack).

Com enxutos 25 minutos de duração aproximada para cada um de seus 10 episódios, Mozart in the Jungle é uma experiência rápida e divertida, envolvendo o espectador rapidamente em seu universo gritantemente original. Logo no piloto já somos surpreendidos por encontrar uma festa adolescente onde DJs remixam composições de Bizet e alguns de seus participantes divertem-se em um jogo de shot que resulta em uma desafiadora performance de seu instrumento. Ou quando a voluptuosa Cynthia (Saffran Burrows) explicita os diferentes tipos de relações sexuais que já teve com músicos, rendendo uma hilária montagem na qual vemos as diferentes “performances” de cada um, de acordo com seu instrumento de escolha.

Assim a série nos leva a outro lado desse ramo. Por trás dos palcos, acompanhamos personagens traficando e usando drogas ilícitas, músicos tendo casos com praticamente todo mundo e por aí vai. Mas nunca perdemos o foco da música ou o do senso de humor discreto da série, que troca piadas laugh out loud por interações incomuns com personagens ou situações bizarras — como o tarado do oboé, genial. A direção de Paul Weitz e dos demais obedece a uma estética elegante e que preenche a tela com seus tons de cores quentes e barrocos, chegando até mesmo a remeter ao trabalho de fotografia em Whiplash: Em Busca da Perfeição.

O que nos leva aos personagens centrais. Lola Kirke poderia muito bem cair na velha e bem sucedida fórmula do “jovem ambicioso e implacável que vai tocar bateria até sangrar”, mas opta por uma abordagem mais natural e dócil para Hayley. É uma jovem esforçada e talentosa, mas a série não nos fará testemunhar um assassinato ou crises de identidade histéricas. Já o Rodrigo de Gael Garcia Bernal é facilmente a figura mais chamativa da série. Na pele do “visionário excêntrico”, Bernal faz de Rodrigo um regente sábio, mas tremendamente perdido em suas ambições egocêntricas e o medo do fracasso. A relação de respeito deste com Thomas é contraposta pela grande inveja deste pelo novato, faceta que Malcom McDowell trabalha com muito afinco.

Não é uma temporada perfeita, claro. Algumas relações de personagens acabam pautadas em clichês (especialmente entre o maestro Thomas e Cynthia), enquanto seletas linhas narrativas acabam soando inconclusivas ou inúteis; como quando Rodrigo passa por uma bizarra sessão de hipnose ou uma conversa alucinógena com Wolfgang Amadeus Mozart em pessoa (ainda que esta seja bem divertida de se ver). Todo o arco com sua explosiva esposa Ana Maria (a hipnotizante Nora Arnezeder) também deixa a desejar, mas fica claro que é algo que veremos melhor desenvolvido em futuras temporadas.

Ao oferecer uma visão que desconstrói uma imagem limpa e divina de uma Orquestra de música clássica, Mozart in the Jungle se destaca como uma das séries mais originais da safra recente. Ainda que precise melhorar em termos, seu universo rico é um para o qual estou ansioso para retornar.

Mozart in the Jungle: 1ª Temporada (EUA, 2014)

Showrunners: Alex Timbers, Roman Coppola, Jason Schwarztman e Paul Weitz
Direção: Paul Weitz, Bart Freundlich, Daisy von Scherler Mayer, Tricia Brock, Adam Brooks, Roman Coppola, Daryl Wein
Roteiro: Alex Timbers, Roman Coppola, Jason Schwarztman, Paul Weitz, Adam Brooks, Mark Steilen, Kate Gersten, David I. Stern, John Strauss
Elenco: Lola Kirke, Gael Garcia Bernal, Malcom McDowell, Hannah Dune, Peter Vack, Saffran Burrows, Bernadette Peters, Debra Monk, Nora Arnezeder, Jason Schwartzman.

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5 comentários

Claudinei Rocha 27 de março de 2020 - 00:40

Excelente crítica, meu caro. Eis me aqui, em 2020, em plena quarentena by Covid-19, maratonando a série inteira. A primeira temporada foi muito boa. Alguns deslizes, mas o contexto geral foi maravilhoso. Destaque principal para o episódio 6, em que é possível ver de maneira muito clara o sangue Copola nos enquadamentos de camera, nos movimentos, diálogos, enfim.

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Ricardo da Mata 25 de fevereiro de 2016 - 19:57

A única análise possível: série artificial e caricatural que não tem nada que ver com o mundo da música erudita. Pura tolice modernosa.

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Ricardo da Mata 25 de fevereiro de 2016 - 19:57

A única análise possível: série artificial e caricatural que não tem nada que ver com o mundo da música erudita. Pura tolice modernosa.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 15 de janeiro de 2016 - 06:41

Excelente crítica, Profeta de Baal! 😀
Cara, teve momentos nessa temporada que eu quase jogo todo o meu café fora, de tantas risadas repentinas e coisas geniais que aparecem. Esse universo da música clássica realmente merecia uma variante na TV e veio com pompa e circunstância.

Concordo plenamente com você nos pontos que a série precisa melhorar. No caso da visão alucinógena com Mozart, mesmo achando inútil, como você, eu achei a sequência extremamente bem dirigida e com uma fodástica direção de arte. Não tem utilidade prática para o andamento da série mas não é algo ruim de se ver não, muito pelo contrário.

O relacionamento de Rodrigo com Ana Maria com certeza será melhor estendido na temporada seguinte. É uma relação que embora tenha ficado meio solta aqui, precisava desse chão para seguir. Vamos ver o que vem pela frente.

E cara, se puder, ouça todo o concerto para violino (em ré menor op. 47) do Sibelius que tem um trecho tocado no final da temporada. Tem no youtube. É sensacional.

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Lucas Nascimento 15 de janeiro de 2016 - 08:53

Valeu cara!

Sim sim, o delírio com Mozart é uma das cenas mais divertidas. Anseio muito por mais Ana Maria no futuro!! Vou dar uma olhada (escutada) sim.

Abrax!

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