Crítica | Mr. Mercedes – 2ª Temporada

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Após uma excelente 1ª Temporada, que adaptou com elegância o primeiro romance da Trilogia Bill Hodges, Mr. Mercedes opta em seu 2ª ano por ignorar o segundo livro e usar como base para a trama o livro Fim de Turno, o final da trilogia. Embora estranha à primeira vista, a decisão faz sentido, já que a série pode dar continuidade ao duelo entre Bill Hodges (Brendan Gleeson) e o psicopata Brady Hartsfield (Harry Treadaway), enquanto na literatura, Stephen King optou por colocar esse duelo em espera no segundo livro, ao por Hodges em uma aventura desvinculada do assassino. Mas se o show mantém o público confortável ao manter o seu principal vilão, por outro lado, gera estranheza ao incluir elementos de ficção científica e paranormalidade inexistentes na série até então.

Na trama da temporada um ano se passou desde que Bill, com a ajuda de Holly Gibney (Justine Lupe) impediu que Brady cometesse um novo massacre. Enquanto Hodges e Holly abriram uma agência de investigação particular, Hartsfield continua em estado vegetativo (após ser violentamente atingido na cabeça por Holly no final da temporada anterior), recebendo apenas as visitas de Bill, que mantém o assassino sob constante vigilância. Mas quando o neurocirurgião Felix Babineau (Jack Huston), influenciado pela esposa Cora (Tessa Ferrer), uma implacável chefe de marketing de uma empresa farmacêutica, resolve testar drogas experimentais em Brady para tirá-lo de seu estado catatônico, a consciência do maníaco desperta — ainda que externamente ele mantenha o estado vegetativo. Agora, vivendo em um cenário psíquico e desenvolvendo a habilidade de controlar as mentes mais fracas que se aproximam de seu corpo, Brady dá início a uma nova onda de mortes.

Nesta nova temporada, a série adota mais fortemente os signos do terror, vide as gráficas cirurgias cerebrais a que Babimeaus submete Brady, e os pesadelos que Bill passa a ter com o assassino. Mas o programa continua a ter como fio condutor a rivalidade co-dependente entre Hodges e Brady, ainda que essa dinâmica comece a ser problematizada pelo detetive. Parte da jornada de Hodges nesta temporada é a busca por uma vida que não seja definida por seu conflito com o Mr. Mercedes, já que por mais que Brady esteja aparentemente fora de combate, Bill não consegue dar o caso por encerrado, o que gera preocupações em seus amigos, Holly e Ida (Holland Taylor) em especial. Brady, por sua vez, ressurge mais cruel, pois ao não precisar mais ocultar a sua natureza psicótica, pode abraçar sem restrições a maldade e o sadismo que lhe são característicos. Desse modo, torna-se interessante que a trama carregue elementos fantásticos ao retratar o assassino mais como um monstro do que como um ser humano, ainda que continue a trabalhar as vulnerabilidades do personagem através das aparições de projeções de suas vítimas mais próximas, como sua mãe e irmão, que surgem dentro de sua mente.

A direção da série serve-se bem das possibilidades que os poderes telepáticas do vilão proporcionam para criar sequências de tensão e terror em diferentes níveis, enquanto a direção de arte é inventiva na criação do cenário mental que Brady ocupa, que surge como uma versão surreal do porão de sua casa visto na 1ª Temporada, com direito ao famigerado Mercedes ensanguentado. A edição também ganha maior destaque nesta temporada, especialmente pelas sequências que intercalam as ações de Brady em seu mundo mental com as consequências no mundo externo, com o momento em que Bill é atacado em sua casa pelo gigantesco Al (Mike Starr) no sétimo episódio sendo o grande destaque. E claro, a trilha sonora do programa continua um show à parte, com uma seleção musical que contando com Blues, Jazz e Rock, ilustram com perfeição os conflitos de seus personagens, o que pode ser percebido desde a nova sequência de abertura.

Apesar destas qualidades, esta 2ª Temporada possui falhas que acabam tornando-a um pouco irregular, começando pela presença de subtramas absolutamente dispensáveis, como a envolvendo Jerome (Jharrel Jerome) e seus problemas com Harvard, que não levam a lugar algum e pouco contribuem com o desenvolvimento do personagem. Outros arcos, como a relação entre o casal Babineau e o jogo de interesses em que seu casamento se transforma quando os experimentos com Brady saem do controle não só falham em captar o interesse do público, como são abandonados nos episódios finais, sem ganhar um desfecho apropriado.

A série faz uma opção interessante ao dedicar um tempo considerável para desenvolver as vítimas do controle mental de Brady: a enfermeira Sadie (Virginia Kull), e o auxiliar Al, já que ao testemunharmos como o vilão viola a vida dessas pessoas ao transformá-las em armas sem vontade, a ameaça em torno dele torna-se mais profunda e trágica. Entretanto, ao fazer isso, Mr. Mercedes acaba dando pouco espaço para personagens veteranos importantes. Holly, por exemplo, embora seja a grande parceira de Bill e surja mais madura do que na 1ª Temporada, acaba sendo não muito mais do que um suporte para o desenvolvimento de Bill, não tendo o seu próprio, apesar da ótima química de cena entre Gleeson e Lupe. Lou (Breeda Wool), por sua vez, já é melhor servida pela história, que vê a (antes confiante) personagem ser consumida pelo trauma de ser traída e quase morta a facadas por Brady (que ela acreditava ser o seu melhor amigo), em uma atuação intensa de Wool.

Tal como a temporada anterior, este 2º ano se desenvolve de forma relativamente lenta. Isso não é necessariamente um problema, bastando ver os ótimos episódios iniciais, que inserem os elementos fantásticos na série à medida em que Bill passa a desconfiar da atormentada enfermeira Sadie. Mas em seu segundo terço, a série parece se arrastar desnecessariamente, sem que nenhum personagem que não Hodges ganhe um desenvolvimento mais profundo para compensar o ritmo lento. Mas o maior pecado da temporada se encontra em seus episódios finais, quando a trama sofre uma virada radical, indo por um caminho que ignora tudo o que havia sido construído antes, resultando em um incômodo anticlímax. Ainda que o final conclua de forma adequada as histórias de Bill e Lou na temporada, o Plot apresentado nos dois episódios finais envolvendo o julgamento de um Brady desperto e supostamente curado de sua psicopatia soa deslocado.

A 2ª temporada de Mr. Mercedes merece créditos por ter a coragem de inserir elementos fantásticos totalmente estranhos ao Universo que havia sido construído até então, e ainda assim faze-los funcionar. A atmosfera soturna e intimista apresentada na 1ª Temporada continua presente e o elenco principal, liderado pelo brilhante Brendan Glesson, continua afiadíssimo. Entretanto, os novos personagens apresentados estão longe de ser tão carismáticos ou complexos quanto os vistos anteriormente, o ritmo da história torna-se cansativo em certo ponto e o desfecho, embora ousado, soa descolado do resto da trama. Apesar de nitidamente inferior ao ano de estreia, Mr. Mercedes ainda se mantém um drama policial instigante cujo acréscimo inusitado de elementos de terror paranormal apenas enriqueceram a rivalidade obsessiva entre Bill Hodges e o personagem título, rivalidade que continua a ser o coração da série.

Mr. Mercedes- 2ª Temporada. EUA, 22 de Agosto de 2018 a 24 de Outubro de 2018
Criadores: David E. Kelley e Jack Bender
Showrunner: David E. Kelley
Direção: Jack Bender, Peter Weller, Laura Innes.
Roteiro: Dennis Lehane, David E. Kelley, Mike Batistick, Samantha Stratton, Alexis Deane, Sophie Owens Bender, Brian Goluboff, Jonathan Shapiro.
Elenco: Brendan Gleeson, Harry Treadaway, Justine Lupe, Jharrel Jerome, Breeda Wool, Holland Taylor, Scott Lawrence, Jack Huston, Tessa Ferrer, Maximiliano Hernandez, Nancy Travis, Makayla Lysiak, Virginia Kull, Mike Starr.
Duração: 10 Episódios de aproximadamente 50 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.