Crítica | Mr. Robot – 4X04: 404 Not Found

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  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Para mim, 404 Not Found será o episódio que causará maiores divergências em relação a esta temporada, principalmente porque se trata de algo completamente distinto — em termos de abordagem — daquilo que tivemos no show até o momento. E mesmo que o título do episódio já prepare o espectador para o que ele (não) vai encontrar aqui, é inevitável que muita gente pense que as informações não conectadas do capítulo sejam apenas material aleatório, o que o classificaria, nesse tipo de análise, como um filler, algo que está muito, muito longe de ser verdade. Mas vamos por partes.

No conjunto técnico, 404 Not Found é uma das coisas mais bonitas que eu já vi na TV. Vocês já devem saber que filmar à noite é muito mais difícil, porque exige um extremo rigor da direção de fotografia e também da direção para guiar os atores pelo cenário de modo que a luz siga fazendo o seu trabalho dramático e que a elegância da cena permaneça intacta. Aqui, temos um ambiente totalmente noturno e, dentro dele, escolhas ainda mais difíceis: planos de viagem de carro, caminha no meio de uma floresta e por uma estrada deserta. O trabalho com a intensidade de luz e os filtros de cor aqui (dos mais calorosos, ligados às luzes quentes de natal, aos mais secos e frios, normalmente com grande contraste ou filtro azul e verde) é algo para se aplaudir de pé, com uma direção sem tropeços, guiando sutilmente os personagens por um terreno que todos sabemos ser o mais hostil possível.

E aí entra a temática do episódio. Não, os temas apresentados aqui não fazem a história — aquela que vinha sendo construída nos três episódios anteriores — andar a passos largos. Apenas a sequência final de 404 Not Found traz algo que realmente significa um andamento dramático. Ocorre que todo o restante foi uma preparação, ou melhor, a marcação de um território para algo que todos sabemos que está chegando. Eu não quero entrar em detalhes dissecados sobre tudo porque esse texto é uma crítica e não um Entenda Melhor. Mas notem que as cenas na casa de Dominique DiPierro, por exemplo, representam uma dualidade de ação que fica difícil acreditar apenas como sendo um sonho, ainda mais um sonho aparentemente sem consequências, algo que sabemos que Sam Esmail jamais faria na série. Esse bloco está intercalado com a hilária e ao mesmo tempo tensa e tocante viagem de Darlene com Tobias, o Papai Noel bêbado brilhantemente interpretado por Jon Glaser e que ajuda a reafirmar a evolução da personagem do início da série até o momento.

E por fim, o principal bloco do episódio, que começa com o dilema apresentado no final de 403 Forbidden, mas aqui entra no buraco dos “não encontrados”. O papel de Tyrell Wellick é colocado em xeque, e sua não-morte + o seu encontro com algo misterioso, à la maleta de Marsellus Wallace, traz muito mais perguntas do que respostas para o espectador. A grande questão aqui é que para mim, tudo o que foi apresentado é perfeitamente cabível dentro do ritmo e visão geral da temporada até esse momento, como se estivesse preparando terreno para um esperado ponto de virada, o que é óbvio pela forma como o episódio termina. Não temos respostas imediatas para nada, mas 404 Not Found certamente elevou a busca de Elliot a um nível diferente, trazendo à tona algo mais pessoal, íntimo e até patético às vezes, colocando a humanidade, os medos e os desejos de todos os personagens na linha de frente, enquanto o perigo pulsava e irradiava em algum lugar lá fora. Um episódio de Mr. Robot com pitadas de Twin Peaks. Que coisa mais linda.

Mr. Robot – 404 Not Found (EUA, 27 de outubro de 2019)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Kyle Bradstreet
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Martin Wallström, Grace Gummer, Christian Slater, Jon Glaser, Roberta Colindrez, Susan Barnes Walker
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.