Crítica | Mr. Robot – 4X05: 405 Method Not Allowed

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

It’s cool dude, we don’t have to talk.

Saímos da procura de “algo que não estava lá” em 4X04: 404 Not Found para algo que “até pode estar, mas a forma que você está tentando ter acesso a isto, não é válida. Tente de outro jeito“, em 405 Method Not Allowed. E as diferenças entre esses dois episódios não param por aí. No capítulo anterior, a intenção do roteiro era criar um cenário de aprofundamento de laços entre os personagens, considerando segredos guardados e fazendo com que confessassem coisas que não fariam em outro ambiente, ou seja, fora do limite a que foram expostos ali. No presente caso, esses personagens são colocados no limite da ação, acompanhados pela direção de Sam Esmail no pico de seu brilhantismo, a ponto de segurar o episódio inteiro com apenas duas linhas de diálogo.

Quando abdica de um roteiro formal para um episódio (e apesar de haver alguns bons precedentes disso na TV, esta não é nem de longe uma abordagem comum), um diretor precisa ser bom o bastante para manter inteligível toda a jornada dos personagens e ainda fazer com que o episódio faça sentido para a série como um todo, não apenas para si. Nesse jogo duplo é que mora o perigo. Um perigo que 405 consegue facilmente transpor, dividindo a abordagem em atos onde os personagens possuem uma tarefa mundana ou muito séria para cumprir, mas em ambos os casos, a câmera faz a abordagem para eles dentro da perspectiva do medo. O suspense é a palavra de ordem aqui. E é através dele que um plano cobiçado por Elliot e Darlene é colocado em prática.

A trilha sonora, como era de se esperar, tem o segundo papel mais importante numa obra audiovisual sem diálogos. É verdade que temos diversas mensagens de texto e onomatopeias ao longo do capítulo, mas nenhuma dessas coisas constituem uma marca puramente descritiva ou verdadeiramente profunda sobre o que acontece, e o diretor faz com que sejam utilizadas apenas em momento específicos, tanto no bloco dos irmãos hackers quanto no bloco de Krista e Dom. Por todo o episódio há uma linha épica a partir da orquestra, mas em vários momentos, o que acompanhamos são canções natalinas e, no início, os pentagramas iniciais do Ode à Alegria, no 4º Movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven.

Lembremos que todo o episódio se passa no dia 25 de Dezembro de 2015, entre as 7h22 e as 12h37. E sim, a cadência do projeto inteiro funciona como um relógio suíço, como um rio fluindo placidamente, como se estivéssemos acompanhando algo extremamente descritivo, quando na verdade não há indicações narrativas basilares, apenas o poder da imagem e do ritmo em ação. E a coisa é tão bem feita, que demora um pouco até que a gente realmente acorde e perceba: “ué, mas só teve uma frase até agora, dita por Darlene no início do episódio… Meu Deus do céu, o que está acontecendo?“.

Esmail não cansa de nos impressionar e seus experimentos e inovações são sempre bem arquitetados para fazerem jus à temática do episódio e entregar mistérios através de mensageiros (ou seja, de técnicas) diferentes. O verborrágico capítulo onde nada se encontrava, ambientado exclusivamente numa noite, dá lugar a um episódio sem diálogos onde todo mundo encontra alguma coisa, e tudo isso durante o amanhecer e o pico do Sol. Uma aventura que une sublime composição narrativa, grande lógica sequencial (a montagem aqui é coisa de outro mundo) e inteligente alternância entre pura tensão, ação, suspense e problemas para serem resolvidos. Uma das melhores peças de TV desta década, sem sombra de dúvidas.

It’s time we talk.

Mr. Robot – 405 Method Not Allowed (EUA, 3 de novembro de 2019)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Michael Cristofer, Grace Gummer, Elliot Villar, Ashlie Atkinson, Christian Slater, Young M.A., Dominic Colón, Calvin Dutton, Liz Larsen, Gloria Reuben, Gabriela Lopez Hernandez, Preston Edwards, James DeFilippi
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.