Crítica | Mr. Robot – 4X09: 409 Conflict

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Tá, mas e agora?

409 Conflict traz praticamente a Series Finale de Mr. Robot um mês antes de ela realmente acontecer! Ou melhor… traz algo que parece a Series Finale um mês antes de ela realmente acontecer, e isso só prova o quanto Sam Esmail não está muito preocupado em terminar o seu show com a resolução de um grande plano, mas com algo que vai além dele. E a esta altura do campeonato eu realmente não tenho mais estrutura emocional para assistir a essa série sem ter meu coração disparado a cada cinco minutos. Socorro!

O ritmo deste nono capítulo é tão bem conduzido que o episódio de quase 50 minutos termina e a gente tem a impressão de que começou a assistir dez minutos antes! É raro, como todos vocês sabem, que produções audiovisuais consigam esse efeito dentro de cenários muito complexos. Porque quando falamos de dramas mais ou menos ou puramente simples, a condução orgânica e aparentemente rápida do tempo é mais mais tranquila de se conceber. Não é menos impactante ou gostosa de acompanhar, mas é mais fácil perceber a sua construção quando se para para analisá-la. Todavia, “simplicidade” não é uma palavra que atribuímos a Mr. Robot, não é mesmo? E definitivamente não é a palavra que usaríamos para definir 409 Conflict, um capítulo que coloca a F Society mais uma vez em cena e brincando com antigos métodos, fazendo o castelo de cartas do Deus Group cair após uma exposição rápida e certeira pela TV.

Darlene tem um importantíssimo papel de ação aqui, ficando dessa vez com todo o trabalho de campo enquanto Elliot — e em parte do tempo, Mr. Robot — pensava e guiava o hackeamento através de outras vias. A ligação entre os dois irmãos é segurada na parte emocional pelo roteiro de Kyle Bradstreet (que nesta temporada já assinou outro soberbo episódio, 404 Not Found) e aqui há total dedicação dos dois ao trabalho. Por mais que Darlene tente acessar Elliot de alguma forma, perguntando como ele está, o personagem muda de assunto, silencia. Isso força ambos os atores a pensar meios de expressar sentimentos através de olhares e linguagem corporal, gerando mais uma vez performances aplaudíveis, mesmo em um enredo que não exige grande exaustão física ou mesmo emotiva.

A fotografia aqui sustenta o padrão de tons amarelos/laranjas em destaque na maioria das cenas, mas existe o contraste para o ambiente branco e quase minimalista da sala onde Phillip Price encontra-se com o Ministro Zhang, sendo esta a minha sequência favorita de tudo o que tivemos neste incrível episódio. A escalada emocional aqui é de um nível quase cômico, com a troca de poder e controle passando das mãos de um para outro à medida que o jogo é guiado por Elliot e Darlene. A tensão aqui existe em todo o tempo, mas o roteiro é escrito de tal forma que estamos mais dispostos a humanizar as questões do que vê-las simplesmente à distância revolucionária de luta contra o sistema feita pelo hack.

Agora não existe mais o 1% do 1% dos mais ricos e poderosos do mundo. E o que isso significa? Sem querer dar carteirada, mas já dando, nem eu que tenho formação em História, Geografia e Sociologia consigo estruturar assim, num recorte conjuntural e rápido da sociedade contemporânea, o que poderia ser do mundo real se isso acontecesse. Quando a primeira luta sistemática de Elliot aconteceu, estava mais fácil enxergar os caminhos econômicos que isto poderia ter, pela amplitude do projeto e pela ausência de um plano de substituição para geração de riqueza, emprego e estabilidade financeira nacionais, o que colocou os mais pobres na miséria e fez apenas cócegas nos mais ricos, como acontece em qualquer crise (todos se lembram da crise global em 2008, não?). Aqui, porém, é diferente. É mais interessante e é completamente imprevisível em termos de resultados. Além de tudo o mais que está acontecendo na série, o aspecto socioeconômico de pano de fundo desde o início volta a ser um elemento que nos traz perguntas e expectativas.

Como adição à já alta fogueira, temos esse “ato” ou personalidade de Elliot que Mr. Robot discute com outras duas personalidades. A intriga já foi plantada no começo da temporada e ganha pouco a pouco um espaço na reconstrução do protagonista. Eis aqui outra coisa que não consigo imaginar o que pode ser. Estamos na última temporada da série e Sam Esmail ainda consegue nos deixar intrigados por segredos relacionados ao personagem principal… É gênio que fala, não é? Cumprida a grande jornada da saga até aqui, a única coisa que nos falta é paciência para esperar o que o showrunner tem a nos oferecer na reta final que começa no próximo episódio. Uma coisa é certa, ainda tem mistério demais para nos segurar e nos abalar até o definitivo Finale. Haja coração.

Mr. Robot – 409 Conflict (EUA, 1º de dezembro de 2019)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Kyle Bradstreet
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, Michael Cristofer, BD Wong, Christian Slater, Evan Whitten, Vaishnavi Sharma, Jing Xu, Paul Douglas Anderson, Ashley Skye Hutchinson, Nikolai Tsankov, Bill Tatum, Gio Castellano, Laurie Segall, Alexander Saliba
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.