Crítica | Mr. Robot – 4X11: eXit

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Por mais que rigorosamente não possamos dizer que os fatos de eXit sejam novos na série — ao menos em teoria — esses mesmos fatos mostram o quanto de coragem e o quanto de loucura Sam Esmail ainda tem guardadas em seu poço de coragem e loucura. A uma semana do encerramento do programa (o penúltimo e o último episódio serão exibidos no mesmo dia), o showrunner dá um grande giro na chave dramática da temporada e até mesmo da série, “mudando de assunto e gênero” e nos trazendo não uma viagem no tempo, mas uma viagem dimensional. Como se a gente já não estivesse enlouquecendo o bastante.

Para tanto, dois setores técnicos pavimentaram muito bem o caminho. De um lado, a direção de fotografia escancara os contrastes para o espectador. Aqui, até o mais desatento consegue perceber a brincadeira entre cor e incidência de luz que o fotógrafo realiza, sempre com os mesmos personagens. Essa demonstração visual acaba alcançando um nível ainda maior quando chegamos à dimensão do Elliot na Direção Executiva da All Safe, prestes a se casar com Angela e fazer um contrato da vida com a F Corp. A incidência de luz, o contraste de cores e as dores de cabeça do personagem me fazem crer que o projeto de Whiterose conseguiria transferir a consciência dos indivíduos para uma outra versão dele mesmo, num outra dimensão. Isso explica a confusão mental, a troca de nomes e essa estranha percepção que Elliot 2 está sentindo.

Do outro lado, temos mais um setor técnico trabalhando de maneira ainda mais escancarada: a trilha sonora. Não só as canções escolhidas, mas a edição de som nesse episódio são um verdadeiro primor. Cada ação de Elliot é acompanhada por uma faixa que traz algum significado correlato (a trilha assume o papel de narradora) e através dela somos guiados até um mini-ato seguinte. Dentro dessa proposta, a direção de Esmail adotou uma linha bem sacana de composição dos quadros, fazendo com que cada mudança de cenário (mesmo de um cômodo para outro) mudasse ao mesmo tempo a intensidade e a cor da fotografia, interrompesse a música anterior e compeçasse outra em pouco tempo, e trouxesse um novo tipo de problema ou situação de conflito. Trata-se de um episódio extremamente ágil, mas condensado em sua fluidez, de modo que vemos zilhões de coisas acontecendo, mas o ritmo não é frenético, o que nos dá uma impressão de falsa normalidade, engrandecendo ainda mais o que o texto tem para nos mostrar.

Cada cena de conjunto desse episódio é um primor em si, com Christian Slater muito intenso e impressionante e Rami Malek e BD Wong absolutamente sublimes. A cena dos dois juntos, na sala preparada com as memórias de infância de Elliot fez com que eu me arrepiasse, tamanha a qualidade dos dois atores em cena, a força filosófica e política dos diálogos e as consequências que toda a sequência traz. eXit é a realização de uma promessa e uma mudança de tema na reta final da série feita com extrema qualidade mas que, confesso, me preocupa um pouco. Imaginando que cada um dos episódios finais tenha 1h de duração, estaremos diante de um tempo relativamente curto para fazer com que tudo isso se encaixe de uma vez por todas na linha central do drama — não apenas como consequência, mas como contexto, entendem? — e essa nova realidade dimensional também ganhe o seu próprio desenvolvimento/estabelecimento. Uma tarefa e tanto, convenhamos, mas por tudo o que já tivemos nessa série, penso ser bastante seguro confiarmos que Sam Esmail nos trará um digno ponto final. Pelo menos nessa versão do show, nesta Terra…

Mr. Robot – 4X11: eXit (EUA, 16 de dezembro de 2019)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Carly Chaikin, BD Wong, Christian Slater, Evan Whitten, Vaishnavi Sharma, Portia Doubleday, Martin Wallström, Ben Rappaport, Aaron Takahashi, Stephen Lin, Sridhar Maruvada, Graham Wolfe
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.