Crítica | Mr. Robot – 4X12 e 13: Series Finale

  • Há SPOILERS deste episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Depois de eXit, nós não sabíamos de mais nada. Parecia que Sam Esmail havia deixado de lado o drama puramente psicológico ou tecnológico/político de lado para abraçar a ficção científica, o que me deixou (e pelo que vi nos comentários, também a maior parte de vocês) preocupado, mesmo com a confiança em relação ao que o showrunner poderia fazer no encerramento da série. Mas a verdade com que iniciei este parágrafo não mudou. Nós realmente não sabíamos de mais nada. O nível de qualidade, complexidade e imprevisibilidade que esta série chegou nos impediu de estabelecer um caminho mais ou menos “certo” sobre o que viria a seguir. Estávamos diante de uma surpresa total, prestes a descobrir um outro mundo. E foi justamente isso que fizemos nos dois capítulos que compuseram o final de Mr. Robot, ambos exibidos no domingo, 22 de dezembro de 2019. Nós descobrimos um outro mundo.

Confesso que é difícil para mim manter as rédeas apenas como crítico ao falar sobre o final dessa série, de modo que este texto estará mais para uma crônica com cara de crítica do que uma crítica de fato. Aqui, eu me emocionei, vibrei, tive medo, fiquei surpreso e terminei feliz, mas em lágrimas, olhando para os créditos finais passarem e realmente aplaudindo, falando “é isso aí!” e xingando de alegria para a TV ligada, com minha cachorra Vodka ao meu lado acordando e olhando pra mim com cara de “a loucura atacou de novo, foi?“. Series Finale foi uma dupla de episódios com teor metalinguístico que, ao mesmo tempo, celebrou a série de forma coerente e muito bonita e conseguiu encerrar com louvor um drama que parecia ter mudado completamente de direção, mas na verdade era só a forma de olhar a coisa. Nós simplesmente não sabíamos para o que estávamos olhando e estes dois capítulos tiveram a função de nos mostrar o ambiente do verdadeiro Elliot, aprisionado pelo Elliot criado em seu subconsciente, um jovem que, a despeito do que estava fazendo com a mentalidade que tinha o controle de sua vida, agia pelo bem: ele queria um futuro melhor para a versão completa dele mesmo.

Eu não sei se é a temporada de fim de ano, se eu estou mais sensível do que o normal ou se é esse encerramento do programa mesmo, mas confesso que tudo aqui me pegou de uma forma que é difícil expressar. Sam Esmail não está mais preocupado em explicar as problemáticas internas, os meandros sociais e, mais uma vez, as consequências dos atos de Elliot e Darlene. Os pontos certos aqui são deixados para a nossa interpretação ou direcionamento pessoal, e eles vão desde o grande colosso derrubado em seu ato final — o projeto de Whiterose, que eu ainda acho que era verdadeiro e que poderia abrir a possibilidade que ela acreditava. “Pena” que foi destruído… — até o que aconteceria com Dom quando ela chegasse ao seu destino ou com os outros personagens que cercaram os Alderson nessa série. Assim como na vida (e creio que não existirá um único espectador que não vá entender isso) as pessoas vem e vão, e algumas seguem por caminhos que mesmo com toda a tecnologia e possibilidades de contato a gente simplesmente… as perde de vista. Mas aqui até isso é colocado em um estágio onde o que vem a seguir pode ser qualquer coisa. O encerramento dado na série é para um arco grande, inteiramente ligado a Elliot como pessoa e a Elliot como ativista. Uma boa parte das coisas à sua volta ainda está pode vir, mas infelizmente não saberemos como isso vai acontecer ou como o verdadeiro Elliot irá recebê-las.

O pouco que vimos do verdadeiro Elliot fez com que eu me apaixonasse pelo cara, e olha, Rami Malek está de parabéns no trabalho que ele faz com essas versões do personagem. Aquela sequência das duas personalidades na mesa da sala é simplesmente incrível, com o ator mostrando expressões faciais tão distintas, que a gente realmente consegue ver que se trata de ‘outra pessoa’ ali. Sem contar no ritmo da fala, na maneira como cada Elliot inicia e termina as frases, no tipo de força que dão para sílabas específicas, no movimento das mãos e a forma como olham para o seu interlocutor, algo que a direção de Sam Esmail captura de maneira impecável. Daí para frente, a viagem é um prato cheio para análises psicológicas/psicanalíticas e pouco a pouco entramos numa espiral de autoanálise, de autodescoberta para, no fim, ver um verdadeiro ato de liberdade acontecendo diante dos nossos olhos.

Mr. Robot manteve-se fiel à sua essência até o final, e a série inteira foi a jornada de preparação do mundo para que o nosso protagonista pudesse estar em um lugar melhor, depois de uma vida tão amargurada e desgraçada… A série termina com uma mensagem de esperança, mas não ignora as perdas, não ignora o egoísmo e os erros cometidos pelas pessoas. Todavia, o autor escolhe olhar para frente e trazer o verdadeiro Eu do protagonista à tona, agindo como uma espécie de pagamento inestimável para esse jovem tão complexo: ele enfim tem a oportunidade de ser ele mesmo. Que jeito mais lindo de finalizar um show! Que linda viagem foi essa que fizemos aqui! Muito obrigado por tudo, Sam Esmail! Goodbye, friend.

Mr. Robot – Series Finale (EUA, 22 de dezembro de 2019)
Direção: Sam Esmail
Roteiro: Sam Esmail
Elenco: Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday, Michael Iacono, Liz Larsen,Margaret Scura,Carly Chaikin, Evan Whitten, Martin Wallström, Michael Cristofer, Grace Gummer, Gloria Reuben
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.