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Crítica | Mudança de Hábito (1992)

por Laisa Lima
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No imaginário popular, um convento é sinônimo de santidade. A atitude de se devotar à religião e direcionar sua vida para algo sacro, mantém pairando a ideia de que quem lá habita é, necessariamente, um puritano. No entanto, há controvérsias. É possível, sim, uma noviça querer ser livre utilizando a música à seu favor, como fez a Maria de Julie Andrews em A Noviça Rebelde (1965). É possível também que freiras tenham e demonstrem seus desejos sexuais, desmistificando a frivolidade supostamente presente nelas. Pier Paolo Pasolini alertou isso em Decameron (1971). Então por que não considerar o pensamento de que uma ex-cantora de bar protegida pela polícia pode ser uma “irmã”? Mudança de Hábito (Emile Ardolino, 1992) está aí para, definitivamente, romper com os antigos hábitos por meio da mudança de um ambiente santo para um real.

No lugar de culpada por toda esta transformação, está Deloris (Whoopi Goldberg), uma artista que se vê inconformada com sua carreira e com seu relacionamento, já que Vince LaRocca (Harvey Keitel) não quer assumi-la como namorada. Contudo, LaRocca se revela um mafioso e a protagonista presencia um assassinato cometido pelo mesmo, o que faz com que ela o denuncie. Visto a periculosidade que o homem promove, Deloris, a mando judicial e protetivo, é enviada para um convento onde as regras não lhe convém nem lhe agradam. As freiras, igualmente relutantes, a recebem por fins de obrigação com a feitura do bem e da caridade, o que não impede que seus preconceitos velados para com alguém que exibe maneiras de se portar distintas das ensinadas ali, sejam percebidos. Como não há meios de contornar a situação, a mulher depara-se com uma encruzilhada: ou se adequa àquela realidade, ou a chance de permanecer viva é quase nula. A escolha pela preservação de sua vida pareceu mais conveniente.

Por mais que o fator chave para o suceder do longa-metragem esteja em cima de uma trama policial e seus antagonistas ofereçam um alto nível de risco para a personagem principal, o tom poucas vezes se deixa levar pela seriedade do sustento da premissa. Os perigos para além do convento são reforçadores da estadia forçada de Deloris e aparecem sempre que a cantora duvida de sua opção, mas não são suficientes para intensificar o medo dos criminosos no público. O que fortifica os dilemas da cantora sobre permanecer e adaptar-se aos costumes do local, por isso, implica em componentes internos, tais quais a Madre Superiora (Maggie Smith). Extremamente rígida, ela se põe em um status de “carrasca” em determinadas oportunidades, visto sua vontade de enquadrar Deloris no perfil de sua instituição. Porém, o desmantelamento das concepções da freira não surpreendem a ponto de encará-lo como um obstáculo. O que acontece é apenas o seguimento natural para a verdadeira “mudança de hábito”, dado o empedramento das ideias fixadas nas moças do convento, principalmente nas mais antigas lá.   

Logo, a meta de Mudança de Hábito não se esgueira em situações demasiadamente elaboradas, fazendo a graça nascer do simples. O intuito de não ser uma obra pesada é notado não só no ato de suavizar certas ações, como a caça dos bandidos por Deloris, mas também no gradativo esquecimento das ameaças em volta da personagem, que dá lugar ao divertimento em ver as peripécias de uma mulher moderna, sincera e bem resolvida, em uma atmosfera cheia de amarras. Whoopi é totalmente responsável pelo sentimento de genuinidade proveniente de sua protagonista, que engrandece sua personalidade à medida em que é capaz de se moldar em todas as ocasiões, sem perder suas especificidades. As coadjuvantes, em sua maioria, residentes do convento, auxiliam no afastamento do estereótipo casto e puro em que compreendem as freiras, as aproximando de seres humanos mundanos. Irmã Mary Patrick (Kathy Najimy) e Irmã Mary Lazarus (Mary Wickes) são exemplos de indivíduos que buscavam a libertação de seu “eu”, proporcionado pela revolução de Deloris. 

Sem nenhum choque maior, a despretensão passada pela narrativa de Deloris se estende até todos os recursos da obra, que conta com uma trilha sonora piegas, principalmente em cenas de ação, e com a falta de estilizações, tanto na imagem quanto na inventividade de uma trama mais elaborada. O foco do espectador poderia ter sido melhor distribuído entre o que se vê e o que se fantasia que irá acontecer se a obviedade e as conclusões rápidas não estivessem tão evidentes, retirando uma complexidade talvez necessária para a total compreensão da experiência de um filme. Em contrapartida, a leveza da condução de uma película claramente descompromissada com discussões intelectuais e aprendizados de forte impacto, compõe acontecimentos de um puro entretenimento fácil de se consumir. Quando Deloris resgata o coral, atribuindo a ele um motivo de alegria para as freiras, um dos incidentes mais representativos do que é o filme, ocorre.

Mudança de Hábito toma para si o posto de um longa-metragem estilo “sessão da tarde”: despojado, leve de se assistir, com um conteúdo divertido e sem maiores extravagâncias, e com um aprendizado social sutil, isento de polêmicas e reflexões que se instalam na mente por horas a fio. A história de Deloris junto das irmãs exalta a facilidade com que se pode modificar ultrapassadas regras e princípios, basta querer. O respeito à individualidade de cada um é uma questão de instrução em determinados meios, porém a obra mostra que é possível, ainda mais se puder discernir o que é do ser humano e o que é inerente à fé. A argumentação aqui, por consequência, pode ir mais a fundo: a temência a Deus é necessariamente uma sentença de abstinência e reclusão? Ou há chance de remodelar tais concepções em prol de uma vida mais alegre? Será que, ainda hoje, os conventos carecem de uma Deloris Van Cartier para se renovarem?  

Mudança de Hábito (Sister Act) — EUA, 1992
Direção: Emile Ardolino
Roteiro: Paul Rudnick
Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Kathy Najimy, Wendy Makkena, Mary Wickes, Bill Nunn, Robert Miranda, Richard Portnow, Ellen Albertini Dow, Carmem Zapata, Jenifer Lewis, Pat Crawford, Prudence Wright Holmes.
Duração: 100 min.

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