Crítica | Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

“Minha história deveria ter terminado ali, silenciado e derrotado?”

Contém leves spoilers.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi é um projeto com sua relevância para o tema que discute, mesmo que marcada em meio ao mais moderno e impactante Corra!. O grande símbolo que permeia o longa é o contraste. Durante a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, Hap Jackson (Rob Morgan) e Florence Jackson (Mary J. Blige), casados, atualmente moram como arrendatários em uma fazenda, que acaba de ser comprada por Henry McAllan (Jason Clarke). Ou seja, são duas as famílias protagonistas de Mudbound, uma negra e outra branca. E é a partir desse contexto que o filme construirá sua caracterização da época em questão, mostrar suas desigualdades e afins. O passado precisa ser retomado no presente como uma memória dos equívocos que não podem ser repetidos – e também uma certeza de que ainda existem resquícios.

Dirigido pela cineasta Dee Rees com enorme cuidado, Mudbound impacta ao saber construir sua tensão sem precisar redundar os choques tão inexoráveis às injustiças. Irá abordar a questão, em primeira instância, sob um viés mais “romântico”, menos pesado, mas tão impactante quanto. Uma violência corporal não é uma constante da obra, apesar de parte inerente do conjunto. Jonathan Banks, transportando-nos ao racismo mais descarado, que se concretiza, portanto, com sangue e carne, então incorpora perfeitamente um execrável idoso que repugna a existência de negros. Nos é transmitido um senso de injustiça imensamente provocante, um tanto incômodo, que cresce à medida que a narrativa progride, entre os seus percalços tão díspares e, posteriormente, solucionados por maneiras bastante contrárias. Pois um ápice será atingido? Esteja certo que sim. 

Tal desenvolvimento, reconstruindo uma premissa enganosa, remete a uma ideia trazida pelo próprio roteiro de desconstrução do sentimento do público pelo personagem. O velho racista, já na abertura do filme, é revelado morto, sendo enterrado pelos seus filhos. Mas os que pensaram que aquela morte seria transposta como uma infelicidade, uma tristeza que acometeu à família, se enganaram fortemente. As pistas principais estão na própria ironia do velho estar sendo enterrado na cova de um escravo, e, mais obviamente, nos olhares trocados pelos McAllan, mais para frente, quando a família Jackson aproxima-se em uma carroça. Essa é uma situação muito mais desconfortável quanto a que fora presumida, porque é, na verdade, entrelaçada por toxicidades prévias a mais, que encontram-se para serem reveladas, com o enredo da obra, para o espectador.

Dee guarda, ao colocar Jaime McAllan (Garrett Hedlund) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell) para irem à guerra, uma visão interessante às semelhanças. Isso nos conduz ao cerne argumentativo do projeto. O enfoque de Rees encontra-se, ao invés de nas causas – pequenas sequências de guerra surgem como ilustração -, nas consequências ao confronto armado. A presença do estresse pós-traumático, paralelamente com as dificuldades dos garotos em se ajustarem novamente à vida civil, caracterizam-se como motes que se encaminham à aproximação entre os dois. Os infortúnios que ocorrerão a essa amizade “proibida”, portanto, munirão o espectador de angústia, em consequência da veracidade que ambos os atores transmitem em seus arcos – esse é um longa que se justifica dramaticamente, ultrapassando a própria natureza cruel dessas cenas em questão.

Mudbound encontrará um engrandecimento também pelas minúcias que apresentará, margeando um trabalho consideravelmente rico de contextualização e de problematização do passado. Carey Mulligan, vivendo outra coadjuvante importante, acerta nas vezes que relaciona-se com Florence Jackson, por exemplo. Contrastes existem, até mesmo na questão da mulher em um espaço tão masculino. E as questões na vida rural estadunidense, que costumam ser escanteadas, também são presentes na narrativa, movimentando tramas particulares. Um acidente com Hap  – em ótima performance de Rob Morgan – traz um conjugado de problemas, muito além de uma simples perna quebrada. Há mais temores: a morte de animais e a inconsistência das chuvas, ao mesmo tempo, são problemáticas menores, mas que exprimem reais significados para o dia-a-dia daquela família.

O prosseguimento do enredo traz outras visões complementares. Mary J. Bigle, por exemplo, encarna uma mulher que precisa surpassar os seus “deveres comuns” – o espaço feminino na época -, assumindo, em resposta ao acaso, responsabilidades a mais, que necessidades extraordinárias a impôs. Resgata uma coragem e sempre com cabeça erguida. Já no que se refere ao âmago de Henry McAllan, Jaime, o seu irmão, é essencial para a construção de um triângulo amoroso que vai ganhando credibilidade. O personagem é aos poucos assimilado pelo público: de um jovem sedutor a um homem de caráter, cheio de problemas, porém, detentor de um bom coração. Por outro lado, Henry só não consegue ser tão odiável quanto o seu pai por não expor o seu despotismo de modo escrachado, mais próximo, portanto, a uma figura quietamente agressiva.

O projeto ganha verdadeiras nuances identitárias ao assumir voice-overs como meio constante às explorações psicológicas dos personagens. Os pensamentos podem até se repetir, mas nunca soam artificiais. Igualmente, a montagem de Mako Kamitsuna é extremamente eficaz, caminhando por entre estas situações sem quebrar o ritmo da obra. O roteiro, contudo, sofre com coesão, visto que existe um segmento, envolvendo o assassinato de um personagem que fora expulso por Henry da sua fazenda, que poderia ter sido descartado. Ê desconexo do restante da trama. Um outro ponto também incomoda: embora seja gratificante uma conclusão mais suave, menos permeada pelo sofrimento já presenciado pelo público, o término perde um desgaste notado anteriormente, indo abruptamente das desgraças para um momento da vida dos Jackson que não é muito sincero.

Mesmo retornando a um olhar sobre o passado, ao invés de questionar objetivamente o nosso presente, Lágrimas Sobre o Mississipi permanece sendo belíssimo em sua composição – a cinematografia contribui. Como diz a canção Mighty River, “como um rio fluindo através do tempo, deixe limpar a dor de ontem.” Esquecer, entretanto, nunca. Duas décadas depois desses acontecimentos fictícios, Martin Luther King Jr. acreditaria que “até mesmo o Mississipi, um estado que transpira com o calor da injustiça, com o calor da opressão, seria transformado em um oásis de liberdade e justiça.” Esse é um sonho que já existia no peito dos que não se calaram diante do errado, dos que resistiram diante da coerção, dos que buscaram uma nação melhor, e que ainda buscam, na esperança de que as lágrimas que ainda escorrem sobre a lama do Mississipi cessem.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi (Mudbound) — EUA, 2017
Direção:
 Dee Rees
Roteiro: Dee Rees, Virgil Williams
Elenco: Carey Mulligan, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jonathan Banks, Garrett Hedlund, Kelvin Harrison Jr, Claudio Laniado, Kennedy Derosin
Duração: 134 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.