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Crítica | Mulan 2 – A Lenda Continua

por Iann Jeliel
439 views (a partir de agosto de 2020)

COM SPOILERS!

Diferente do que muitos imaginam, a maioria das continuações dos grandes clássicos da Disney – como Mogli, Aladdin, A Pequena Sereia, Cinderela, dentre vários outros – não fazem parte do pacote oficial das animações da produtora, sendo essas produzidas pelo seu estúdio secundário chamado DisneyToon. As únicas continuações feitas pela própria Disney de suas animações são Bernardo e Bianca: Na Terra dos Cangurus, Wi-fi Ralph e Frozen 2. Olhares infantis dificilmente percebiam, mas com outra mentalidade, era mais do que nítida a diferença qualitativa gráfica entre os filmes, muito pela questão orçamentária e também pela própria forma como a história se vendia, geralmente tratando de problemáticas simples e rotineiras com os personagens, funcionando mais como um grande especial de TV com eles inclusos do que de fato uma continuação que queria ampliar o universo do primeiro.

Mulan 2: A Lenda Continua se encaixa na tipificação, apesar de dentro do próprio estúdio, apresenta um salto considerável na qualidade animada, com uma aproximação plausível dos traços originais, embora sem o mesmo detalhismo, é plenamente driblável e faz parecer que se passa naquele mesmo mundo do anterior. Limitações dramáticas à parte, o discurso da protagonista também corrobora para isso, pelo menos a cena inicial demonstra com muita elegância o respeito e consciência do legado que a personalidade de Mulan teve para a nova geração. Ela vira uma espécie de professora de artes maciais para um grupo de meninas que olham para ela como um símbolo inspirador de autossuficiência. Infelizmente, o filme vai explorar pouco isso no decorrer e se concentrar no que faz boa parte dessas continuações: como será o casamento dela e Shang?

Isso acaba naturalmente gerando uma incongruência narrativa, uma vez que a trama do filme basicamente é uma missão em que os dois precisam levar três garotas para se casarem na província vizinha para formarem uma aliança entre reinos. No caminho, as três se apaixonam pelos serventes de Shang, e Mulan entraria novamente com essa voz de consciência autodependente para convencer as meninas a “seguirem seu coração”, ao invés da necessidade de se casarem por interesse. O problema é que isso prejudicaria o seu interesse, o seu casamento, que de alguma maneira se comportava como arranjado também, ou no mínimo, depende de terceiros, dada a desculpa desse filme que tem no conglomerado discursivo um levantamento pacifista antiguerra, mas a verdade é que seu orçamento não poderia prover cenas de batalha grandiosas como o primeiro. Então, incongruências surgem quando a guerra só é evitada quando se preservam princípios conservadores de matrimônio, um processo completamente oposto ao que o primeiro filme pregava.

Para encaminhar ainda mais a bagunça, Moshu precisa fazer com que Mulan e Shang se separem para continuar herdando seu lugar como um dos espíritos auxiliares da família. Então, por mais que fosse engraçado ver as tentativas falhas do dragãozinho de separar o casal e só mais aproximá-lo, quando a hora do problema precisa chegar, ela vem de um modo até sacana considerando a proximidade da relação entre o mascote e a protagonista. Além de não ser facilmente desculpável, principalmente devido ao susto da “morte” de Shang em sequência de quando Mulan descobre – óbvio que ele não iria morrer, mas só pelo risco já seria algo ainda mais difícil de lidar –, dá a impressão que o conflito foi surgido de um mal-entendido que poderia ser resolvido com uma linha de roteiro. O que é frustrante, porque acho até bons os princípios conflituosos do filme – considerando uma animação que abraça seu caráter secundário –, só que eles não sabem como se misturar e principalmente como sustentar dramaticamente as próprias decisões de risco, porque no fim tudo irá se resolver de modo simplório.

Portanto, creio que a escolha certa seria realmente ficar na zona de conforto e aproximar o filme mais no teor cômico, que é onde ele mais funciona. A solução final do Mushu é ótima nesse sentido, e é até um modo criativo de sair das armadilhas incongruentes em que o filme se coloca nessa dualidade entre tradicionalismo e intuição sentimental. No processo, Mulan acaba escanteada na própria história, depois de uma bela representação inicial, que como dito, perde-se no decorrer da história. A lenda de seu símbolo não continuou, e sim estagnou na felicidade própria, e seu individualismo que desequilibrou as morais culturais anteriormente, agora só é mesmo individual.

Mulan 2: A Lenda Continua (Mulan 2 | EUA, 2004)
Direção: Darrell Rooney, Lynne Southerland
Roteiro: Chris Parker, Michael Lucker, Roger S.H. Schulman
Elenco (Dublagem Original): Ming-Na Wen, BD Wong, Frank Welker, Freda Foh Shen, Gedde Watanabe, George Takei, Harvey Fierstein, Jerry Tondo, Jillian Henry, Lucy Liu, Sandra Oh
Duração: 79 minutos

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