Home FilmesCríticas Crítica | Mulan (2020)

Crítica | Mulan (2020)

por Iann Jeliel
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Os filmes da Disney geralmente correspondem ao contexto em que foram feitos, porque sua lógica criativa depende diretamente das ordens que o mercado cobra. Esse fato não é necessariamente algo ruim. A empresa, ao longo do tempo, principalmente nos anos 90 – na dita “Era da Renascença” – correspondia a essas necessidades sem prejudicar o lado criativo. Pelo contrário, ela estava sendo correspondida justamente pela qualificação de cada nova animação. Ao longo do tempo, várias delas – incluindo Mulan – criaram uma casca icônica, clássica, com uma legião tremenda de admiradores de todas as idades, que na última década – tomada pelo sentimento nostálgico – se tornaram uma demanda imensa para a Disney embarcar sequencialmente na revitalização dessas animações, só que no formato de live-action.

A promessa criativa por trás proposta começou até promissora, chamando diretores autorais como Tim Burton, para dar uma visão nova e moderna a esses clássicos, remodelando alguns ideais ultrapassados – como Malévola faz com A Bela Adormecida – de um modo que ainda conseguisse agradar o fiel público de admiradores dos originais, num contexto mercadológico que cobra por posicionamentos representativos. Apesar de criativamente não terem surgido bons filmes dessa primeira leva de live-actions, a massa abraçou a ideia com força, e então a Disney perceberia que não precisava nem se preocupar com esse caráter autoral: as pessoas realmente queriam a nostalgia fácil. Poder ver seus clássicos de infância novamente nas telonas com os atores que admiram nessa nova geração. E isso ficou comprovado com A Bela e a Fera, pois bastava envelopar de cabo a rabo toda a narrativa da animação em carne humana e digital e a galinha dos ovos de ouro estava encontrada – mais uma não é, fora a Pixar, Marvel e Star Wars na conta.

Esse conforto foi se acumulando cada vez mais em filmes mais protocolares, a ponto de chegar em um O Rei Leão da vida, que nem se dava ao luxo de recontar as histórias encantadoras, mas sim “repassá-las”, seguindo uma check list de artifícios que precisam estar no filme para que o sentimento de nostalgia pudesse ser correspondido para o “fã”. E só. Um exemplo de como essa política preguiçosa de agrado ao fã – e, logo, também ao mercado – foi dominando os pensamentos da empresa acima do lado criativo, quando Star Wars em Os Últimos Jedi, decidiu trazer inovações ao universo e uma voz de nova autoridade a ele, a rejeição de PARCELA do público foi suficiente para fazer a empresa recuar e recrutar J.J Abrams para “corrigir” e fazer a saga seguir um caminho de agrado geral aos “fãs”. Assim surgiu A Ascensão Skywalker, que, na melhor das analises, é um filme “fácil” e divertidinho; na pior, corresponde exatamente a O Rei Leão, um filme que não conta sua história, mas a repassa seguindo tudo que o “fã” quer.

Infelizmente, fiz todo esse rodeio para dizer que o live-action de Mulan se encaixa exatamente no mesmo conceito: um “filme” sem qualquer decisão criativa que não esteja ligada a uma intenção corporativa covarde e protocolar para fazer as médias com o maior número de público possível. Portanto, para ser justo com o filme, destrincharemos os pormenores seguindo a intenção de cada item da check list – e não é preciso ser muito esperto para evidenciar que o primeiro deles é o agrado ao publico chinês. Veja só, falo agrado no sentido mais forçado possível; aquele agrado enfiado goela abaixo mesmo. Porque bastava o filme seguir com sua ideia de ser mais respeitoso com a lenda original (que falo mais no texto do live-action chinês de 2009), que esse agrado viria automaticamente, mas, claro, isso não podia acontecer porque existem outros pontos a serem encaixados nesse cenário. Pensando nele, isoladamente, temos dois grandes elementos: o chi e a tradição familiar.

A China – pasmem – ainda é um país conservador, por isso todo esse conto de Mulan se torna uma lenda por lá, já que mulheres – segundo o que diz o próprio filme centenas de vezes – devem se calar, ficar em casa e ser submissas ao casamento para formação de uma família liderada e sustentada por “homens-alfa”, que defenderam sua família em batalha. Já o Chi, na mitologia chinesa, é uma energia vital, que criou e permeia todo o universo, atuando como uma ponte entre a realidade material concreta e a espiritual energética. Vejamos, o filme de 1998 não apresenta diretamente esses conceitos mitológicos dentro do lúdico da animação. Eles fazem parte da composição harmônica do universo, para que as decisões que tornariam a personagem lenda não fossem submetidas a um mero acaso do destino. No contexto de tradicionalismo, a ausência de Chi explicitamente traria o discurso de liberdade feminina à história, algo proposto por todas as princesas da era da renascença da Disney.

Esse é um dos elementos que faz parte da acusação dos chineses sobre a ocidentalização de sua história, algo que os incomodava, logo, os conceitos mitológicos precisavam ser expostos e o tradicionalismo, de alguma forma, mantido, para proceder esse agrado. Imaginando essa situação na animação, dá para enxergar o caso amoroso de Mulan e Shang – que numa revisitada passa a sensação de insegurança – como um modo de desviar espertamente desse caminho. O casamento ainda era um princípio buscado, mas agora, num sentido de não-obrigação. Aí entra outra parcela do problema desse live-action. Esta possui dois lados: (1) a cobrança por originalidade vinda de tantos envelopamentos consecutivos e (2) os resquícios da necessidade de deixar a nostalgia para o público que tanto ama a animação não se sentir traído.

Pois bem, o que o filme entende como novidade é apenas a substituição de peças, sem nem pensar direito quais eram a suas funções. Mushu sai para a narrativa entrar, teoricamente, na seriedade, já que a função narrativa dele era essencialmente dar voz a Eddie Murphy e ser o alívio cômico ocidental do filme. Tudo bem, ele é subtraído para retirar o “ocidentalismo”, mas a sua função era humorística, portanto, por que continuar com o humor? Para agradar minimamente a uma parcela do público nostálgico. Assim, a substituição por uma fênix é, literalmente, só para dizer ter algo novo agradável e, ao mesmo tempo, manter-se coerente com a intenção de respeito oriental. Um humor pastelão e deslocado na montagem extremamente apressada e no tom do filme, que busca seriedade, mesmo fingindo amadurecer o discurso do anterior sobre a liberdade feminina; quando na verdade o torna superficial.

Shang é substituído por um qualquer: menos robusto e de masculinamente elegante (o chamado boy ideal) e está no filme apenas para uma mini construção de tensão amorosa que não pode ser correspondida dentro dessa intenção séria, e assim, os dois viram incongruências na chegada da terceira via, a tradicional, que torna esse novo par romântico irreal e limita as intenções de amadurecer o discurso de liberdade feminina, por mirar numa atribuição de honra à família, não por vontade, mas por culpa. A “cereja do bolo” da incongruência está na vilã, estabelecida como feiticeira pela – já óbvia, a essa altura – subversão da interpretação de seu conceito, colocando-a apenas como aquela mulher marginalizada pela cultura e que se torna maléfica. Isso é até um princípio motivacional bom para a personagem, mas quando o espelhamos na jornada de Mulan, terminamos por colocá-la numa posição de aceitação servil, e fica evidente o que vai acontecer com a personagem assim que houver a virada esperada da protagonista.

Quando isso acontece, o filme desarma-se totalmente e trai a pouca lógica que tinha, tentando equilibrar tantos polos de agrado. A regra do Chi deixa de ser um elemento de valorização cultural e passa a ser um mote preguiçoso para uma jornada de herói clássica que desvirtua completamente a parte que tange modernizar o princípio de força feminina, porque Mulan não conseguiu o que conseguiu por méritos próprios, mas sim por ser “uma escolhida”. Pela preguiça de manter o conceito na base, e por estar lá para agradar o publico chinês, “o escolhido” poderia ser qualquer outro . Isso é culpa da falta de preparo criativo mesmo, e destrinchando outros setores, a falta de músicas, por exemplo, deixa lacunas imensas na narrativa, que é preenchida somente com exposição.

Creio que se assumisse o lado cartunesco, as músicas ajudariam a deixar os ensinamentos mais envolventes e, quem sabe, menos incoerentes no final. Mas não, a aposta era num clima de guerra. Então, quando chegam as cenas de guerra – a única parte em que a diretora Niki Caro tem real culpa – tudo é geograficamente ilógico e dramaticamente sem peso, pois não há desenvolvimento algum dos personagens nas elipses que poderiam ser preenchidas com as músicas, que poderia ter os desenvolvido. A título de exemplo, há uma cena onde a personagem está a quilômetros de distância de uma colina e precisa chegar lá o mais rápido possível. É um trajeto longo. Ela pega o cavalo. Corta. Ela já está no morro fazendo o que deveria. Em outra cena, mais para o final, ela precisa seguir um pássaro, enquanto o pássaro atravessa rapidamente os prédios, com ela escalando e pulando de um em um. O filme vende como se estivessem um na cola do outro.

Fora a total desvalorização das coreografias, com inúmeros, rápidos e bruscos cortes dentro de vários rodopios de câmera – à la James Wan – e câmeras lentas que tornam tudo incompreensível, ao mesmo tempo que perceptível de que não passa de uma emulação. Não há visceralidade, apesar da tentativa de impor uma emergência num clima que só finge ser fúnebre, mas no todo permanece num grau externamente inofensivo. Ou seja, sem consequências reais. Não parece ter nada em jogo (nem na animação isso acontece. Aliás aqui nem se trabalha a tensão dela ser descoberta como homem). O grande clímax que teoricamente se passa num espaço de maior concentração de pessoas, e que deveria usufruir pelo menos dos arquétipos de soldadinhos para passar a sensação de grandiosidade, isola magicamente todo mundo, para focar num embate insosso e sem qualquer tensão.

É aquela velha história: tente agradar todo mundo e acabe não agradando ninguém. O pior é que nesse caso não é nem uma tentativa desesperada ou inconsciente de atirar para todos os lados. É um projeto que tem noção do que quer, que é consciente das funções que tem de cumprir para o mercado chinês, para o mercado americano e até mesmo para o laboratório da crítica (fingindo tentar novidades) que querendo ou não ajuda a convencer mais pessoas a assistirem. Reforço, não é esse meu papel, mas coloco todas essas reflexões além dos problemas do filme, para ao menos acionar um alerta em quem lê sobre as noções de limite do produto criativo. Já é o terceiro blockbuster de peso, com marca e legado grandes da empresa, em sequência, que cai em terreno de quase um anti-cinema. Que pensa somente na necessidade de ter que “contar uma história de tal jeito”, em vez de “contá-la” primeiro. Um cenário preocupante, mas ironicamente castigado pela pandemia. Mulan talvez, nem merecesse estrear mesmo no teatro sagrado.

Mulan (Idem | EUA-Hong Kong, 2020)
Direção: Niki Caro
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Elizabeth Martin, Laura Hynek.
Elenco: Yifei Liu, Donnie Yen, Li Gong, Jet Li, Jason Scott Lee, Yoson An, Tzi Ma, Rosalind Chao, Xana Tang, Jun Yu, Chen Tang, Jimmy Wong
Duração: 115 min.

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