Crítica | Mulher de Tóquio

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Com Mulher de Tóquio (1933) Yasujiro Ozu realiza um melodrama que, em parte, deixa ecoar elementos de seus filmes anteriores (a questão estudantil, tão cara a ele nas primeiras comédias que dirigiu) e em parte fertiliza o solo trágico — ou pelo menos melancólico — onde fundamentava a sua filmografia. Podemos dizer que a tristeza familiar apresentada pelo cineasta pela primeira vez, de maneira sólida, em A Mulher Daquela Noite (1930) chega aqui em uma formação familiar menor e com um final trágico, além de uma clara intenção em manipular as emoções do público, marca de todo bom diretor que resolve fazer um bom melodrama.

Rodado em nove dias, num período de agenda livre do diretor (que logo começaria as filmagens de A Delinquente) e da produtora Shochiku Eiga, Mulher de Tóquio é claramente um experimento. O filme foi o mais curto de Ozu em três anos e toda a objetividade na exposição da trama principal parece um tantinho reticente, denotando um roteiro “seguro até certo ponto” para contar algumas coisas, mas “com o pé atrás” ao retratar outras. Isso se delineia com o andamento ágil e bem ritmado da fita, que segue por um caminho um pouco diferente do que era habitual ao diretor e estabelece situações chamativas e socialmente constrangedoras para, no final, tornar isso um lancinante problema familiar, com trágicas consequências.

O roteiro, de Tadao Ikeda e Kôgo Noda é baseado num romance fictício chamado Vinte e Seis Horas, do escritor Ernst Schwartz (pseudônimo de Ozu, assim como James Maki). O sacrifício e as relações em tempos difíceis engordam o ponto central da narrativa, que passa de um contato harmonioso e amoroso entre os irmãos Ryoichi (Ureo Egawa) e Chikako (Yoshiko Okada) e chega a um mal-disfarçado escândalo quando o universitário descobre que sua irmã só consegue mantê-lo na Universidade porque completa o salário de datilógrafa com o de prostituta em um clube noturno. A honra, bastião da cultura familiar japonesa, é colocada nesse filme como algo melhor que a vida, fazendo da luta de Ryoichi um momento de grande dor para todo mundo ao seu redor — e também para o público, que aqui simpatiza com todos os personagens.

A direção de atores tem um papel essencial na transmissão dos grandes sentimentos, com planos e ângulos que destacam o sofrimento, a vergonha e a raiva em diferentes situações. Como o diretor se permite apenas a raros momentos de felicidade (dentre os quais, a reprodução do segmento de Ernst Lubitsch — a quem Ozu admirava e já tinha feito uma homenagem, em A Bela e a Barba — no coletivo Se Eu Tivesse um Milhão, de 1932), os atores fazem o máximo que podem para mostrar um cotidiano normal, sem forçar a diferença entre os pontos luminosos e tristes do roteiro, conseguindo um resultado perfeito para o propósito do filme.

A armadilha da obra está nos benefícios e malefícios que uma película curta e com temática dura pode ter, ou seja, ao mesmo tempo que podemos elogiá-la pela maneira objetiva com que trata a questão em jogo, sentimos falta de um olhar um tantinho mais aprofundado para essas mesmas questões. Em Mulher de Tóquio, o cineasta mostra um lado familiar que esperaríamos vir de Mizoguchi, seja pela dor, seja pelos dilemas pessoais. Um filme-teste que ainda geraria frutos melodramáticos ou enredos aproximados a isso na filmografia de Yasujiro Ozu.

Mulher de Tóquio (Tôkyô no onna) — Japão, 1933
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Tadao Ikeda, Kôgo Noda (baseado na obra de Yasujiro Ozu)
Elenco: Yoshiko Okada, Ureo Egawa, Kinuyo Tanaka, Shin’yô Nara, Chishû Ryû
Duração: 47 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.