Home TVTemporadas Crítica | Mulher-Gato (2002 – 2003) – 1ª Temporada

Crítica | Mulher-Gato (2002 – 2003) – 1ª Temporada

por Davi Lima
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Na época em que o canal aberto The WB Television Network não tinha se fundido com outro canal da rede televisiva CBS, essa que transmitiu a primeira temporada de Supergirl para testes de segurança, antes de se oficializar no universo DC de heróis do canal CW, surgia a série Birds of Prey, nomeada Mulher-Gato quando foi transmitida no Brasil pelo canal SBT. O mundo da televisão, muito levado por tendências e testes de audiência, fez com que a série produzida pela showrunner Laeta Kalogridis (Alita: Anjo de Combate, Ilha do Medo, Altered Carbon) fosse do alto índice de audiência de estreia ao cancelamento prematuro em 13 episódios. Foi seguindo a onda da série Smallville, de 2001, que em 2002 decidiram explorar o universo do Batman e a criada New Gotham para a narrativa adaptada das HQs noventistas das Aves de Rapina

Barbara Gordon (Dina Meyer), Helena Kyle (Ashley Scott) e Dinah Lance (Rachel Skarsten), as protagonistas mulheres como espírito revolucionário e alto nível de sororidade que discursavam contra o preconceito e o machismo com ares metafóricos, envolvendo meta humanos e casos da semana com homens aproveitadores de mulheres, além de muita sensualidade no estilo anos 2000, fora tudo o que envolve o universo feminino e de heróis como centro dramático. Toda a história se pauta no evento trágico de uma Batgirl paraplégica por causa do Coringa, uma Caçadora filha bastarda de Batman e órfã da Mulher-Gato e uma jovem aventureira dotada de telepatia, filha abandonada por Canário Negro. Todas unidas por um montante de tragédia, dúvidas de identidade e lutando para cada uma se compreender na conversa matinal ou vespertina na secreta torre do relógio. 

Com uma estrutura procedural e com mudanças de tom para algo menos denso no piloto da série em relação ao original, fora os termos datados gritantes dos sobretudos pretos e efeitos especiais, é uma produção que dificilmente é apreciada por suas qualidades artísticas televisivas, mas pela nostalgia, ou pela recente onda de crossovers televisivos que a CW desenvolveu com The Flash, Arrow, Supergirl e Legends of Tomorrow. Mas na verdade o cancelamento da série diz muito mais do que um desapreço qualitativo generalizado, expressa seu valor bem mais que a nostalgia incluída na experiência temporal que qualquer espectador pode ter.

No efeito do tempo, a partir de um presente que torna o feminismo mainstream em suas produções e o ativismo social por aceitação do estranho, ou de inclusão da liberdade sexual, dentro das marcas mercadológicas, a série Mulher-Gato traz à tona o caráter noventista que perdurou até meados dos anos 2000 como moda revolucionária. Esse era um tempo em que havia um preceito outsider como aceitação de uma liberdade progressista, em que a inclusão era feita pela descoberta, sem nada majoritário como projeto social. As roupas pretas, roupas mais apertadas, sem uso de sutiã, cabelos curtos, rock como trilha para qualquer animação de ação ou que representasse alguma contracultura que ampliava horizontes da pluralidade do ser humano, ou da mulher, com gostos muito diversos. 

Isso tem uma representação temporal, mas tanto deu ênfase à cidade de New Gotham onde a série se passa como colocou esse estilo como parte do universo da série, algo que permite um ambiente mais afrontoso como a personagem Caçadora demonstra ser. Não há uso de máscara para ela ser uma vigilante, valoriza-se o estilo de roupa para lutar, entre outros comentários de Helena Kyle, que coloca para alguns a ideia de uma série de mulheres para mulheres, assim como quebra essa dimensão machista em vista que a personagem se posiciona assim pela sua ambiguidade mental, filha de uma vilã com um herói, e toda a moral quanto a não matar e combater o crime, como Barbara Gordon, vulgo Oráculo, sempre a ensina.

Assim, sugere-se um discurso de liberdade para mulheres dentro da série que permeia a forma televisiva de se produzir, com uma certa ousadia em meio a cenas de ação consideradas toscas, efeitos especiais e discursos representativos quanto aos meta humanos. Junto a isso, há um exercício de se ver pela posição feminina, em que a tensão sexual entre Helena e o policial Jesse Reese (Shemar Moore), um romance inter-racial, evidencia o corpo dele, além de colocar as três personagens em um certo episódio para cuidar de um bebê que envelhece rápido, e valoriza os sentimentos delas enfocadamente para seus relacionamentos amorosos. Por isso que é uma produção proporcionalmente ousada para seu meio de TV aberta, pois não apenas se porta temporalmente com a cultura de seu tempo como persevera em sua honestidade que os anos 90 ensinaram a não categorizar. A cadeirante Oráculo tem seu romance com um professor, Helena como vigilante não apenas namora um policial como se porta como meta humana, não aceitando ser chamada de estranha por ele, e Dinah como jovem que quer crescer em seus poderes. Tudo isso envolto nessa moda da série que pesa aos olhos modernos, porém simboliza toda a estrutura de mulheres tomarem a iniciativa ou descobrirem romances homossexuais na escola. 

Não é apenas uma série com vislumbres de série policial, como uma espécie de derivado de Batman. De fato, muito se fala de aspectos “batimescos”, a presença de Alfred Pennyworth (Ian Abercrombie) como narrador da introdução, fora a presença de vilões do Batman que são relatados e exaltados. Mas quando se pensa no episódio Nature of the Beast, dirigido pelo famoso Shawn Levy, percebe-se algo mais próprio sobre feminilidade envolvida no ambiente violento de Gotham. Nesse episódio há uma crescente dramática e objetiva de desenvolvimento de Dinah Lance, quanto a seus poderes e planos fotográficos frontais em plano holandês (dando aquela entortada no eixo horizontal da câmera), que demonstra sua felicidade jovial de enfrentar bandidos. 

E também existe o episódio Reunion, em que Helena volta à escola para enfrentar um colega machista e obcecado por ela, com poderes para assediá-la. Esse capítulo é escrito pelos roteiristas de Lost, Edward Kitsis e Adam Horowitz, que assim como na série da ilha, tratam o roteiro com qualidade na simplicidade e no mistério para descobrir quem é esse colega com quem a protagonista Helena sensivelmente se encontra em identidade ao voltar ao ambiente escolar. Mas o foco conclusivo é seu ato de contar seus segredos para o policial Reese, de quem ela gosta romanticamente, quebrando o caráter padrão da relação policial e vigilante e sempre colocando a Caçadora em posições em que ela precisa tomar iniciativa quanto a seus conflitos. Mesmo sem usar máscara, ela tem uma vida dupla que só ela pode decidir expressar a sua maneira, com toda a atuação da atriz Ashley Scott em close-up de sua face, definido pela direção de Chris Long para tornar emocionalmente centrado na personalidade dela.

Nesse nível de conflito que a série se coloca mercadologicamente “para mulheres” por seus temas tratados, quando na maioria das vezes essa categoria temática é depreciativa. Além disso, o desprendimento do público é associado a sua qualidade datada e à história pouco envolvente da narrativa. Entretanto, sua forma de contar a honestidade de mulheres em sororidade, que se ajudam, que derrotam a vilã e também doutora Harley Quinn (Mia Sara) num último episódio com várias cenas de ação e câmera lenta, ao som da música All The Things She Said, talvez seja o que não atraiu o público masculino, por exemplo, ou pessoas que não esperavam direções de episódios que priorizassem os dramas femininos com trejeito audiovisual que desse vocalização tanto para cenas de ação como para discurso de mulheres, para agrupamento entre elas, de maneira tão enfática.

Nisso que consta o poder modal dessa época Matrix em que a série se engaja, não é apenas estilo, é sobre a pluralidade do ser feminino em meio a Gotham de becos muito escuros e sempre com muita violência a qual essas mulheres combatem sem o Batman para ajudá-las. Cada personagem tem uma personalidade diferente, e até isso é muito colocado em trama, como Dinah sendo muito jovem e a atriz interpretar a empolgação high school com o ato de poder bater num ladrão sozinha ou ter raiva, indignação e curiosidade em constância. Já Barbara Gordon é a voz da razão, a maturidade a partir de seu trauma combatendo o crime, e que tenta não ser dependente apenas de seu trabalho como Oráculo, buscando ter seu romance sendo cadeirante. Junto a isso, Helena é impulsiva, a personagem mais complexa que é o centro de aprendizado de como a série se porta culturalmente e como mulheres podem se identificar com ela, normalmente em liberdade de ter características fortes para se expressar. Isso acaba sendo um conflito, assistir comparativamente a Smallville que tem ninguém mais ninguém menos que o jovem Superman como protagonista, enquanto há vezes em que a grande problemática do episódio é se Bárbara vai se sair bem no encontro amoroso com o professor, enquanto é superinteligente e precisa sempre estar na ativa para derrotar os vilões quimicamente poderosos. 

Embora não haja tantas mulheres na produção, em que aparecem roteiristas como Melissa Rosenberg e Nora Kay Foster, mas em maioria há diretores homens, mesmo que comandados pela showrunner Laeta, é uma série minimamente ousada para seu efeito imediato e o ambiente televisivo em expectativa pelo contexto “batimesco”, além das medidas protetivas que o piloto teve que mudar para algo menos dramático e tornar Helena Kyle mais calma, como em suas sessões com a psicóloga terem conversas com diálogos mais leves. Outro fator qualitativo seria a capacidade de encerrar arcos dramáticos efetivamente mesmo com o cancelamento em apenas 13 episódios, apressando a narrativa, mas entregando conclusões. Além disso, existe um apelo para efeitos especiais complicados já de cara na primeira temporada, cenas de lutas elaboradas e plásticas demais, mesmo que evidentemente fora da dimensão realista dos atores, e acima de tudo uma direção que não sexualiza os corpos femininos, apenas o que elas como personagens querem de fato sexualizar nas propostas narrativas dos episódios, ou com a liberdade de usarem suas roupas mais curtas na moda 2000.

Por fim, acaba sendo uma voz representativa feminina e mitologicamente engajada antes mesmo de Flash e Arrow serem a dinâmica séria e divertida da CW, quando Birds of Prey tinha tudo isso sem categorização emocional nas aventuras de um trio de mulheres, apresentadas pela música de introdução Revolution de Aimee Allen.

Agradecimento a minha irmã Libna, cinéfila e seriéfila, que me apresentou essa série na minha infância.

Mulher Gato – 1ª Temporada (Birds of Prey, EUA, 2002-2003)
Criação: Laeta Kalogridis
Direção: Chris Long, Brian Robbins, Shaw Levy, Craig Zisk, John T. Kretchmer, James Marshall, David Carson, Jim Charleston, Michael Katleman, Jeff Woolnough, Joe Napolitano, Robert J. Wilson
Roteiro: Adam Armus, Nora Kay Foster, Adam Horowitz, Edward Kitsis, Melissa Rosenberg, David H. Goodman, Hans Tobeason, Julie Auerbach
Elenco: Ashley Scott, Dina Meyer, Rachel Skarsten, Shemar Moore, Ian Abercrombie, Mia Sara, Shawn Christian, Rob Benedict, Brent Sexton
Duração: Aprox. 588 minutos (13 episódios + piloto original)

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