Home FilmesCríticas Crítica | Mulher-Maravilha 1984 (Com Spoilers)

Crítica | Mulher-Maravilha 1984 (Com Spoilers)

por Iann Jeliel
4897 views (a partir de agosto de 2020)

  • Obviamente, há SPOILERS, caso não tenha visto o filme, leia aqui a crítica sem spoilers.

Antes de falar de Mulher-Maravilha 1984, é preciso relembrar a trajetória da DC até aqui enquanto universo cinematográfico. Começou mais contido, embora já grandioso com O Homem de Aço, que estabelecia na estética Zack Snyder, puxada do realismo sombrio de Christopher Nolan na trilogia Batman, sua base dramatúrgica de organização ao universo compartilhado. O filme, na época, dividiu opiniões especialmente pelo tratamento dado ao herói, que nessa vibe sombria acabou sendo descaracterizado de sua personalidade escoteira e representativa de esperança. Particularmente, via ali um herói em construção ainda, sendo o assassinato de Zod um divisor de águas para um possível aprendizado, que infelizmente não chegou no subsequente Batman VS Superman. Esse que dividiu opiniões por outros motivos, enquanto uns amaram pelo risco que ele se dispôs ao tentar organizar um universo inteiro de heróis em um único filme, que ainda colocaria seus dois maiores pilares para brigar, sendo que um nem havia sido introduzido ainda, outros odiaram por ele justamente sacrificar tudo no anseio de alcançar a Marvel Studios o mais depressa possível e no caminho tomar diversas escolhas equivocadas.

Independentemente de gostar ou não do filme, fato é que BvS deixou o DCU exposto e completamente refém dessa estética, que não só não parecia não ter mais como evoluir, dentro de uma progressão coerente do universo a partir dali, como também dificultava o processo de retroceder e tentar corrigir erros a partir de uma organização mais padronizada, com histórias de origem isoladas. A primeira vítima – e diria única – nesse caso foi o primeiro Mulher-Maravilha, que apesar de ter sido o filme melhor recebido até então do universo, possui problemas gravíssimos de afirmação sobre o que é a personagem, da mesma forma que Superman teve em Homem de Aço, mas que ali fazia parte de uma base que poderia, enquanto a amazona já havia sido introduzida no apagar das luzes em Batman VS Superman, ou seja, colocada ali para ser algo oficial. O grande problema ali era a superdependência de um Steve Trevor que deveria ser apenas um coadjuvante ou par romântico e acabou sendo a principal motivação para a personagem querer ser heroína.

Ora, se a DC queria passar a Marvel, a oportunidade vinda com Mulher-Maravilha de trazer primeiro uma heroína em tela de um grande blockbuster acabou indo pelo ralo no momento em que Diana Prince só passa a acreditar no amor dos humanos por ficar “apaixonadinha” por uma figura masculina que naquele filme a todo momento foi sua voz da razão, o fator que a tirou de Themysira, a pessoa que a fez perceber o quão errado foi quando matou o suposto Ares a sangue-frio, o homem que se sacrificou para só assim ela ter forças para derrotar o vilão na batalha final. Em termos de simbologia, tais decisões vindas de um texto assinado por três homens (incluindo Zack Snyder) não só diminuem o peso da Mulher-Maravilha enquanto representação de feminilidade forte como também descaracterizam sua questão heroica, movida, assim como Batman armamentista e o Superman depressivo desse universo Snyder, pela vingança, bater de volta, onde não existe conflito dessa responsabilidade de ser basicamente um semideus em meio aos humanos, “tem que matar o mal mesmo”.

Partindo desse pressuposto, preocupou-me deveras a participação de Steve Trevor nesta continuação, especialmente considerando de novo seu papel fundamental na trama. Contudo, logo no início do filme, que estabelece seu retorno através de uma ilusão de óptica da mente de Diana após conceder seu desejo no artefato mágico, macguffin do filme, já fica muito claro um início para um arco de desapego e a transmutação desse drama de Steve a um teor mais pessoal da personagem em si, sem influência ao que tange sua representação heroica. Essa separação fica clara na obviedade com que Patty Jenkins filma sua protagonista nas sequências de ação. A primeira do shopping, em particular, reforça seu caráter simbólico e representativo em como as crianças a olham e não soa forçada pela mudança de estética oitentista assumida e por se tratar de crianças, que trazem um ar de ingenuidade à cena e martelam o início de uma desconstrução de erros daquela personalidade sombria da personagem, quando em nenhum momento ela machuca para valer os assaltantes.

É legal que isso é feito sem negar a personalidade anterior, e nesse sentido Gal Gadot foi muito bem conduzida por Jenkins, dando o tom certo para a breguice caricatural ser coerente com a simpatia sisuda da anterior. Essa representatividade construída de maneira mais direta dá margem para criação da Mulher-Leopardo a partir de espelhamentos diretos ao egocentrismo de Diana, expostos no momento em que Steve volta. Enquanto Diana ignora seus holofotes, cega pelo desejo de viver seu amor novamente, Barbara é sua antítese, desejando ter atenção independentemente de seu caráter, às vezes assediador, e dentro dessas vezes desejando ter a força para poder reagir sozinha, tal como Diana que a salva justamente de um deles na rua. O gatilho dessa cena leva Barbara a desejar ser igual a ela pelo artefato mágico, e quando isso se concretiza, a atenção que ela queria vem, o poder de reagir vem, mas o egoísmo do próprio desejo também vem.

Basicamente, a transformação de Barbara em Mulher-Leopardo – muito bem conduzida por Kristen Wiig – é a distorção do debate feminista alçado no anterior explicitado para Diana se corrigir em sua nova aventura com Steve. A caminhada de Barbara às sombras a fará enxergar a própria cegueira egocêntrica de viver uma mentira. Desse modo, a sequência inicial do treinamento de Diana enquanto pequena vai ganhando sentido, é a temática do filme estabelecida ali, não se pode querer atalhos, é preciso aceitar a verdade e de algum modo se adaptar a ela para seguir em frente. É sobre isso o arco e é por isso que Steve volta, mas não necessariamente ele precisa ser completamente escanteado por isso. O romance aqui é bem mais singelo, Chris Pine parece outro personagem às vezes porque de fato ele é, uma ilusão da idealização particular de Diana, o que acaba tornando a relação ali bem mais fofa do que a real, que tinha pretextos até sexistas por parte de Steve, que no texto do anterior tinha seu humor limitado a piadinhas de conotação sexual totalmente desencaixadas. Aquele ar de ingenuidade era para estabelecer essa fantasia de modo síncrono e funciona muito bem para deixá-lo, enfim, como coadjuvante da história.

As boas memórias são separadas para aprendizados específicos, como o aprender a voar da Mulher-Maravilha que veio de Steve gostar tanto de pilotar, trazendo uma cena lindíssima do ponto de vista simbólico, porque representa essa libertação de tomar as próprias decisões. Há quem diga que ele tem bastante influência de novo na decisão de Diana em renunciar a seu desejo no terceiro ato, mas a construção dessa decisão é mais singela e conjunta, não torna essa influência como primordial, à frente do seu discernimento da situação, que sim, veio à força, foi necessário ela perder os poderes e deixar a caótica do Maxwell Lord tomar conta do mundo para ela entender, mas ela entende no momento certo, de forma bem humana, e guia o fechamento do seu arco em uma solução também bem humana, com a especialidade de possuir poderes de semideuses, tal como o laço da verdade, para colocar a força dessa verdade em evidência à humanidade que passará a enxergar sua representatividade em âmbito maior, não só como mulher poderosa, mas como heroína.

Por isso digo que esse discurso feminista mais óbvio do filme não traz problemas de superficialidade narrativa, porque ele está calculado nessa universalização do heroísmo como essência da personagem. Em determinado momento ela salva crianças muçulmanas, uma cena que se fosse conduzida de uma outra forma, poderia soar como patriotismo escoteiro barato como já aconteceu algumas vezes com a heroína em outras mídias, mas não é, porque é apenas uma parte dessa construção, tal como a cena do shopping, de um símbolo de discurso em conjunto. Faltou somente um fechamento de Barbara para concluir o raciocínio em sua plenitude no lado feminino da coisa, fica um buraco em saber o que aconteceu com ela após a batalha, e com o visto, basicamente ela não renunciou a seu egocentrismo revanchista, o que se tratando de simbologia por espelhamento com Mulher-Maravilha abre margens duvidosas. Lógico, não dá para salvar todo mundo, e com uma continuação bem confirmada, é bem possível que ela retorne, e desta vez, crie uma personalidade como vilã,  não somente como antagonista.

Particularmente, acredito que o melhor passo seria uma redenção por esse filme mesmo, visto que o CGI da personagem teve que ser rigorosamente escondido para não ser totalmente artificial à la Cats do Tom Hooper. A batalha final de novo encontra o mesmo problema de superescuridão e uma condução pouco plástica da ação, algo em que claramente Patty Jenkins tem sérias limitações desde o primeiro, com excesso de câmera lenta e cortes em momentos equivocados, dificultando a compreensão geográfica da batalha. Felizmente, não é tão horrível quanto o anterior por haver fatores emocionais envolvidos de bastante força, e não ser aquela escuridão Snyder, cinza, sombria, quase exploitation de tão dark e pessimista, é somente uma escuridão para disfarçar a computação gráfica. E acho interessante a incoerência dessa escolha considerando a estética oitentista, que ao longo de todo o filme não faz questão de esconder a artificialidade cafona dos movimentos flutuantes dos bonecos digitais de Gal Gadot. Então, assim como essas sequências se tornam críveis dentro do clima brega oitentista, creio eu que mostrar mais da Mulher-Leopardo e da Mulher-Maravilha de armadura amazona à la Cavaleiros do Zodíaco na cena final também seria crível e tornaria a sequência mais divertida.

Há quem diga que isso vem de uma elevação de seriedade do terço final, mas honestamente não vejo assim, e é só olhar para Max Lord de Pedro Pascal para perceber que a grandiloquência é crescente justamente no aumento desses exageros sem vergonha de sua cafonice. Aliás, o ator está excelente como esse vilão extremamente caricato, mas que possui motivações relevantes e um arco dramático acentuado e rigorosamente trabalhado através de um desenvolvimento de simbolismos, ao invés de um desenvolvimento concreto de sua persona. É o arco tradicional de paternidade num corpo de um empresário megalomaníaco, também motivado por um egoísmo que o aproxima da Mulher-Leopardo para a união e justifica seu conectivo com a Mulher-Maravilha no final para libertação desse egoísmo antes de trazer uma tragédia para seu filho. Mesmo sem qualquer desenvolvimento mais acentuado, a relação simbólica na presença de crianças durante o filme todo no já falado senso de inocência consegue deixar esse arco bastante crível a ponto de ser bem emocionante, principalmente pela entrega aberta de Pascal ao papel e ao filme, em de fato assumir seu discurso de empatia utópica graças ao heroísmo.

Mulher-Maravilha 1984 tal como Aquaman e Aves de Rapina sacrificaram expansões do já bagunçado universo para reencontrar a essência perdida de seus personagens. Embora a esta altura do campeonato não tenha mais como negar o que aconteceu, ou seja, dificilmente a cronologia irá se ajustar – especialmente considerando a existência desse maldito Snydercut de Liga da Justiça –, o corrigir de erros nessas aventuras isoladas, pouco a pouco vão ressignificando o universo DC também a sua verdadeira essência, que consta da atemporalidade de questões humanistas revividas por deuses. Se os paralelos oitentistas do filme trazem discussões tão atuais é porque a Mulher-Maravilha, tal como qualquer outro grande herói da DC, cumpre seu papel nessa jornada temporal da humanidade buscando sua humanização.

Mulher-Maravilha 1984 (Wonder Woman 1984 | EUA, 2020)
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Patty Jenkins, Geoff Johns, Dave Callaham
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Robin Wright, Connie Nielsen, Lilly Aspell, Natasha Rothwell, Amr Waked
Duração: 151 minutos

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais