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Crítica | Mulher-Maravilha 1984 (Sem Spoilers)

por Davi Lima
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Diferente de outras obras que utilizam a década de 80 nos EUA como apelo nostálgico, este novo filme da Mulher-Maravilha coloca a contextualização oitentista como introdução de um conflito. 1984 não é apenas o título do famoso livro de George Orwell, como foi o ano da reeleição do presidente Ronald Reagan e a abertura econômica e política da União Soviética, quase o fim da Guerra Fria. Não que o novo filme da DC trate centralmente de política ou das discussões futuristas de George Orwell, mas dentro da história da cultura pop com o advento da MTV, os computadores pessoais da IBM e da Apple e a moda de roupas futuristas, juntamente com essas movimentações históricas internacionais, cria-se o mote perfeito para o discurso da heroína de Themyscira sobre a verdade ser mais poderosa que os desejos.

Independentemente da época, seja nas séries de TV de Lynda Carter em 1975 ou nesses filmes modernos, Diana Prince sempre foi um centro de aprendizado emocional, temporal e social. Assim, a escolha da diretora Patty Jenkins em sempre exercitar a memória da infância da protagonista com as amazonas é o tratamento didático e embelezado de centralizar os valores da Mulher-Maravilha que persistem no tempo, semelhante à filosofia grega para o estudo da História Antiga. A heroína, neste filme, como cientista da história, enfrenta exatamente o dilema amoroso da historiografia com a memória e o passado em conflito com o desejoso presente a se descobrir a verdade.

Nesse sentido, primariamente o ambiente dos anos 80 se torna apenas pano de fundo para uma narrativa reversa de Diana (Gal Gadot) com Steve Trevor (Chris Pine), em que agora ela apresenta a realidade cultural, as roupas, o trem e os aviões. Mas é além dessa questão primária de ambientação, pois no fervor estadunidense das propagandas televisivas sobre conseguir o que você quiser no mundo empresarial, tanto Steve Trevor como desejo do passado reflete o dilema amoroso de Diana precisar ser a heroína do presente sem atalhos temporais, como a estrutura na forma de contar a história neste segundo filme da Mulher-Maravilha realmente se assemelha aos filmes dos anos 80.

Desde o artifício de roteiro do macguffin – muito lembrável nos filmes da década de 80 como Caçadores da Arca Perdida, Os Goonies e De Volta para o Futuro que tinham desde o início um objeto como centro dramático da trama – até conveniências que avançam a história sem muita racionalização de sequências de atos na montagem, a experiência com o novo filme de Patty Jenkins parece de fato oitentista. Embora isso pareça uma dinâmica nostálgica, na verdade enfatiza o discurso de que Diana aprende com as amazonas sobre a verdade, a moral de não se ludibriar com atalhos e desejos que acabam por se tornar egoístas. Essa toada do filme se assemelha bastante ao primeiro filme de 2017, quando se culpabiliza a maldade da guerra apenas no vilão Ares e há uma verbalização da crença da heroína no amor. Porque, em geral, o espírito dos dois filmes se assemelham, no entanto neste novo não há seriedade ou senso austero embebido do visual do diretor Zack Snyder (Homem de Aço), e sim uma paixão da diretora pela liberdade de forma do entretenimento dos anos 80 para fundamentar o drama emocional de uma heroína que tem significado humanitário.

Desta forma, ao mesmo tempo em que é um filme que traz cores e novos ares – literais – para a Mulher-Maravilha voar, apaixonar-se de novo e se aventurar pelo Cairo, ao ponto de a composição sonora de Hans Zimmer ausentar bastante o rock que o compositor do primeiro filme, Rupert Gregson-Williams, preservou do tema apresentado em Batman v Superman, para Zimmer dar mais ênfase ao coral de mulheres e tons mais aventurescos/épicos, é uma sessão da tarde familiar com cenas de ação que fomentam mais o conflito do desejo de Diana do que o heroísmo. Mas sem dúvida, tocando nessa temática de heroísmo, quanto a salvar pessoas nas ruas e ter uma participação no ordinário urbano como nos filmes do Superman de Christopher Reeves e do Homem-Aranha de Tobey Maguire, é algo tão relevante nessa sequência de Mulher-Maravilha que é o ponto de engate para a relação com a antagonista Barbara Minerva (Kristen Wiig). O debate feminista e antimachista se coloca de maneira mais direta nos dramas de Barbara, inteirada no conflito moral de Diana quanto à maneira que ela pode ser melhor inclusa socialmente, na violência contra assediadores e na sororidade entre as personagens femininas. Mas até nisso Patty Jenkins trata de maneira diferenciada, pessoal, tendo em vista que o empoderamento feminino da protagonista não advém da independência masculina, e sim que a verdade sobre a força de Diana, desde criança em Themyscira até os anos 80 em Washington, EUA, é sua moral heróica que salva pessoas com o laço da verdade e luta com a tiara bumerangue.

Em geral, é um filme que não explica muito dos seus significados, progredindo sem muitos entraves lógicos, embora tenha um didatismo discursivo emocional de uma mulher heróica como símbolo e amazona. Há uma paixão que a diretora coloca nos momentos de Steve e Diana, e até mesmo num momento familiar dramático do vilão Maxwell Lord (Pedro Pascal), que fica apenas nas dimensões emocionais. Porque a verdade, todo anseio pela verdade, sem atalhos para desejos além do que cada ser humano pode pedir, relaciona-se com a vontade do coração. Mesmo que pareça brega e piegas, é nessa medida controversa que pessoas são convencidas na política por fake news e no filme acreditam em Maxwell Lord. A correlação do universo do filme dos anos 80 com o contemporâneo se torna crítica dentro dos parênteses que o estilo oitentista suporta, para que o mesmo efeito do passado que Diana sente seja semelhante ao do espectador sobre renunciar desejos em prol da verdade, o dogma das amazonas.

Por fim, Mulher-Maravilha 1984 até se delimita temporalmente de várias formas, seja em título, modelo cinematográfico ou engajamento cultural, mas a força feminina da super-heroína transcende, a seu modo, sua representatividade diante do tempo. A finalização deste filme se mostra como o símbolo humanitário que qualquer filme de super-herói deveria assumir, sem vergonha, assim como é muito humana na questão dos dilemas amorosos da protagonista. Seu amor por Steve Trevor a torna ainda mais empoderada, também, por amar tanto a um homem sem medo que nunca quer mudá-la; na verdade, ele a incita a voar, e esta simbologia entre eles também pode mudar homens na sociedade.

Parece ser a crença da diretora Patty Jenkins, que tem mais voz do que nunca nesta grande produção, e além de crer no amor, como dizia no filme anterior, acredita numa verdade inabalável que ajusta desejos e harmoniza seres humanos em empatia, até orando por arrependimento. Algo que pode até parecer utópico, idealizado e romântico demais… Mas não é esta a magia que a concreta Mulher-Maravilha, encarnada na atriz Gal Gadot – após Lynda Carter – representa em live-action além das HQs?

Mulher-Maravilha 1984 (Wonder Woman 1984) – EUA, 2020
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Patty Jenkins, Geoff Johns, Dave Callaham
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Robin Wright, Connie Nielsen, Lilly Aspell, Natasha Rothwell, Amr Waked
Duração: 151 minutos

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