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Crítica | Mulher Maravilha: Renascimento

por Luiz Santiago
225 views (a partir de agosto de 2020)

O caminho até aqui:

Diana não está feliz. Sua felicidade e sua confiança estão abaladas desde que a “semente da discórdia” lhe foi plantada na reta final de A Guerra Darkseid. E quando digo que esta semente ‘foi plantada’, não estou falando de sugestão mágica ou qualquer tipo de influência mental sobre a Princesa. Apenas lhe foram ditas algumas coisas; sugeridas supostas verdades sobre a sociedade das amazonas, sobre Themyscira e sobre o verdadeiro papel [oculto] dos homens naquele lugar, informações que a partir de Universo DC: Renascimento marcaram um amplo conflito de identidade da Semideusa. Ela está duvidando de tudo.

O roteiro de Greg Rucka traz as melhores qualidades da personagem, mas desta feita, em um momento de intensa crise. O texto prepara esse caminho de forma rápida e eficiente, retomando o que é essencial em um mínimo de páginas possíveis e aderindo ao projeto do Renascimento sem delongas. Estão equilibrados elementos do passado com o presente da personagem, mas a trama não perde tempo com digressões, já que este não é o objetivo da edição e nem do projeto. Desta forma, vislumbramos um grande número de novidades para a Princesa Embaixadora, lembrando de detalhes essenciais do passado, mais uma lição para o roteiro bisonho e filler de Superman: Renascimento: é possível retomar um cânone de forma rápida, dando espaço para o que realmente deve ser destacado em primeiras edições e criando novos caminhos, não repisando longa e desnecessariamente trilhas que o público receberia melhor se fossem calcadas com objetividade.

O que é verdade e o que é mentira?

O que é verdade e o que é mentira?

A primeira coisa a ser levada em consideração é o tom da história, que no início marca uma reflexão humana, de tempero feminista. Diana está ajudando a desmembrar um local de prostituição onde se mantinham escravas sexuais no subúrbio de Paris. Sendo o tráfico de mulheres para fins de prostituição um dos problemas já quase esquecidos mas não menos intensos do que era antes na Europa, a colocação de Rucka para a ação da heroína foi a mais interessante possível. Percebam que todo o ato é uma luta para a libertação de mulheres mantidas em uma determinada condição que não partiu de uma escolha própria. Mentiras, ameaças e situações de uma vida que não se escolheu. Em poucas páginas, vemos a ligação entre o mundo externo das mulheres libertadas do prostíbulo e as reflexões pessoais de Diana quanto à sua origem, sua terra natal, sua mãe, sua missão e lugar no mundo.

Nos últimos anos, o tom mais sombrio e pessimista que marcou os filmes da DC Comics chegou aos quadrinhos de maneira ampla. Não que antes não existisse esse ar existencialista, fatalista e questionador dos personagens. Os quadrinhos de meados para final dos anos 80 estão repletos disso. Mas o posicionamento agora é outro, mais forte e de maior alcance. Não só com inserção de elementos de nossa realidade, sem floreios, mas também com desconstruções importantes para heróis que há décadas estão no imaginário popular.

O que Greg Rucka faz aqui percorre essa estrada. Mas ele não faz uma desconstrução vazia e forçada. A Mulher Maravilha que se questiona e que está atrás de uma verdade inconveniente, não faz nada oposto àquilo que se esperava da Mulher Maravilha até o momento mantida na ignorância — não há descaracterização de personagem aqui. Ela é honesta o bastante, heroína o bastante para enfrentar as mentiras da sociedade que lhe deu origem e pela primeira vez em sua vida, coloca em xeque os laços divinos que ligam-na ao Olimpo. É de se entender o por quê ela está enraivecida e dizendo com firmeza que algumas coisas “não importam mais”. A realidade que ela pensava existir não é exatamente uma realidade. Qualquer um teria um pequeno colapso ao descobrir isso.

Estranha em sua própria casa: há algo de podre no Reino de

Estranha em sua própria casa: há algo de podre no Reino de Themyscira.

A arte de Matthew Clark e Liam Sharp possui traços que suavizam — de maneira quase cartunesca — as representações faciais dos personagens e seguem o mesmo modelo para tornar todo o cenário um lugar convidativo, grande ironia para o tema em pauta na edição. O tralho da dupla é bom, mas alcança verdadeiro destaque na reta final, quando Diana resolve fazer uma viagem, dando início à investigação de algumas pistas recebidas. Neste momento, toda a rede de intrigas que até então era apenas uma forte sugestão para ela, se tornou verdade consumada. A grande questão é: por quê e o quê estão tentando esconder (o que quer que seja) dela? O que me agradou bastante foi o toque de dualidades de sentimento através das cores de Jeremy Colwell e Laura Martin, que investem em cores frias para o cenário ao longo da edição (azul e tons de cinza) e ao final nos apresenta um crepúsculo róseo-avermelhado, estranhamente convidativo (aqui, não só através da excelente arte, mas também das cores) e que se revela mais uma grande mentira, mostrada na forma de uma má recepção.

Diana tem agora uma grande certeza: ela estará atrás da verdade, custe o que custar. E nós, do lado de cá, ficamos curiosos para ver aonde vai dar esta busca.

Mulher Maravilha: Renascimento é uma história sobre verdade e mentira. Como ponto negativo, podemos dizer que há uma pequena dispersão do roteiro na sobreposição de realidades que vemos através do solilóquio da protagonista, mas nada que seja grave ou atrapalhe fortemente o enredo. A história é boa o bastante para se segurar no alto e também para plantar em nossa cabeça perguntas sobre os mistérios deste mundo das amazonas. Bastante propício, não é mesmo? Diana e nós acabamos de sair da Caverna. As antigas guerreiras e suas mentiras que nos aguardem.

Mulher Maravilha: Renascimento (Wonder Woman: Rebirth) — EUA, 8 de junho de 2016
Roteiro: Greg Rucka
Arte: Matthew Clark, Liam Sharp
Arte-final: Sean Parsons, Liam Sharp
Cores: Jeremy Colwell, Laura Martin
Letras: Jodi Wynne
Capas: Liam Sharp, Laura Martin
24 páginas

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34 comentários

Bruno 10 de junho de 2016 - 21:43

Eu ainda não li esse one-shot, mas a MM é a minha heroína favorita e fico feliz em saber que ela está em boas mães novamente. Rucka fez uma passagem ótima anteriormente, não impecável, mas ainda assim de ótimo nível, trabalhando com elementos mitológicos e com o papel da Diana no mundo do patriarcado. Por isso tenho certeza que nessa volta ele será no mínimo muito bom, dada a sua experiência com a personagem e toda a sua bagagem como escritor e roteirista de quadrinhos.

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Bruno 10 de junho de 2016 - 21:43

Eu ainda não li esse one-shot, mas a MM é a minha heroína favorita e fico feliz em saber que ela está em boas mães novamente. Rucka fez uma passagem ótima anteriormente, não impecável, mas ainda assim de ótimo nível, trabalhando com elementos mitológicos e com o papel da Diana no mundo do patriarcado. Por isso tenho certeza que nessa volta ele será no mínimo muito bom, dada a sua experiência com a personagem e toda a sua bagagem como escritor e roteirista de quadrinhos.

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Luiz Santiago 11 de junho de 2016 - 04:53

Ele normalmente faz trabalhos interessantes com personagens de mitologia ampla. É um escritor que sabe aproveitar e respeitar bem grandes cânones. Se a regular seguir este ritmo, será sensacional.

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Luiz Santiago 11 de junho de 2016 - 04:53

Ele normalmente faz trabalhos interessantes com personagens de mitologia ampla. É um escritor que sabe aproveitar e respeitar bem grandes cânones. Se a regular seguir este ritmo, será sensacional.

Responder
Bruno 11 de junho de 2016 - 17:05

E Rucka sabe escrever mulheres como poucos roteiristas homens…

Responder
Luiz Santiago 11 de junho de 2016 - 19:31

Isso é verdade.

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Luiz Santiago 11 de junho de 2016 - 19:31

Isso é verdade.

Responder
Bruno 11 de junho de 2016 - 17:05

E Rucka sabe escrever mulheres como poucos roteiristas homens…

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Tiago Lima 11 de junho de 2016 - 19:58

@@disqus_JUyBBpDbfh:disqus , que bacana te ver por aqui. Man, você precisa ler para comentarmos logo esta one-shot.

Responder
Tiago Lima 11 de junho de 2016 - 19:58

@@disqus_JUyBBpDbfh:disqus , que bacana te ver por aqui. Man, você precisa ler para comentarmos logo esta one-shot.

Responder
Bruno 11 de junho de 2016 - 22:53

Eu tava querendo ler a run da Meredith Finch antes… Na verdade eu ainda não li nada do Rrebirth, só matérias e reviews.

Responder
Luiz Santiago 12 de junho de 2016 - 07:15

Leia assim que tiver a oportunidade. Essa fase tem se mostrado uma boa surpresa.

Responder
Luiz Santiago 12 de junho de 2016 - 07:15

Leia assim que tiver a oportunidade. Essa fase tem se mostrado uma boa surpresa.

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Bruno 11 de junho de 2016 - 22:53

Eu tava querendo ler a run da Meredith Finch antes… Na verdade eu ainda não li nada do Rrebirth, só matérias e reviews.

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JGPRIME25 10 de junho de 2016 - 20:28

Minha favorita até agora

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:03

É uma história sensacional mesmo. O mistério deixado no final é incrível!

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:03

É uma história sensacional mesmo. O mistério deixado no final é incrível!

Responder
JGPRIME25 10 de junho de 2016 - 20:28

Minha favorita até agora

Responder
Tiago Lima 10 de junho de 2016 - 19:28

Grande Hera, que bom que esta one-shot não me decepcionou.

@LuizSantiago estamos com percepções parecidas neste Renascimento da DC, com apenas uma divergência em Batman (visto que achei a one-shot dele fraquinha). Assim, eu temia pelo futuro da Mulher-Maravilha.

Gostei bastante desse enredo, que traz uma abordagem mais reflexiva da personagem ( como você mesmo apontou ) e ao mesmo tempo feminista, tornando a abordagem mais próxima de nossa realidade e questionamentos atuais. E neste aspecto permita-me divagar um pouco:

É extremamente rico o texto ( ou melhor, o sub-texto ), quando a personagem se questiona sobre o nome “Mulher Maravilha”, visto que antes havia a impressão que o título em si significasse respeito e admiração, mas não mais. E este questionamento em si é muito interessante pois vem de uma indagação atual do quão sexualizado ( ou superficial ) o nome Mulher Maravilha possa soar para alguns indivíduos. E neste aspecto, como leitor, nos tornamos a própria Mulher Maravilha ao indagar se recebemos este nome por sermos uma mulher considerada bonita e sensual. E se fossemos uma mulher feia, mas com as mesmas habilidades e carácter, será que seriamos maravilhosas aos olhos da sociedade?

Lembro que houve um certo burburinho entre os leitores quando surgiu uma versão da Mulher Maravilha com calças na reformulação do uniforme, que logo foi abandonada pela editora.

É um texto simples, de 4 palavras, mas que traz uma carga enorme, se assim o leitor se permitir.

E para finalizar, de todos, até agora, o roteiro é o que mais esta próximo da premissa maior deste Renascimento, que é o roubo de 10 anos dos heróis. Diana sabe que algo não esta certo, e irá atrás dessa verdade. Seja ela qual for. E nós iremos atrás. Evoé!

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:06

Eu fiquei com muita vontade de desvendar esse universo desde que a ideia de uma “mentira” tinha sido plantada lá em Guerra Darkseid. Daí chegamos aqui e foi simplesmente épico ver como eles resolveram o problema. Estou feliz que não tenha me decepcionado…

E cara, excelente adição à reflexão esta que você trouxe aqui.

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:06

Eu fiquei com muita vontade de desvendar esse universo desde que a ideia de uma “mentira” tinha sido plantada lá em Guerra Darkseid. Daí chegamos aqui e foi simplesmente épico ver como eles resolveram o problema. Estou feliz que não tenha me decepcionado…

E cara, excelente adição à reflexão esta que você trouxe aqui.

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Tiago Lima 10 de junho de 2016 - 19:28

Grande Hera, que bom que esta one-shot não me decepcionou.

@LuizSantiago estamos com percepções parecidas neste Renascimento da DC, com apenas uma divergência em Batman (visto que achei a one-shot dele fraquinha). Assim, eu temia pelo futuro da Mulher-Maravilha.

Gostei bastante desse enredo, que traz uma abordagem mais reflexiva da personagem ( como você mesmo apontou ) e ao mesmo tempo feminista, tornando a abordagem mais próxima de nossa realidade e questionamentos atuais. E neste aspecto permita-me divagar um pouco:

É extremamente rico o texto ( ou melhor, o sub-texto ), quando a personagem se questiona sobre o nome “Mulher Maravilha”, visto que antes havia a impressão que o título em si significasse respeito e admiração, mas não mais. E este questionamento em si é muito interessante pois vem de uma indagação atual do quão sexualizado ( ou superficial ) o nome Mulher Maravilha possa soar para alguns indivíduos. E neste aspecto, como leitor, nos tornamos a própria Mulher Maravilha ao indagar se recebemos este nome por sermos uma mulher considerada bonita e sensual. E se fossemos uma mulher feia, mas com as mesmas habilidades e carácter, será que seriamos maravilhosas aos olhos da sociedade?

Lembro que houve um certo burburinho entre os leitores quando surgiu uma versão da Mulher Maravilha com calças na reformulação do uniforme, que logo foi abandonada pela editora.

É um texto simples, de 4 palavras, mas que traz uma carga enorme, se assim o leitor se permitir.

E para finalizar, de todos, até agora, o roteiro é o que mais esta próximo da premissa maior deste Renascimento, que é o roubo de 10 anos dos heróis. Diana sabe que algo não esta certo, e irá atrás dessa verdade. Seja ela qual for. E nós iremos atrás. Evoé!

Responder
Thor Bulinado 10 de junho de 2016 - 15:42

Estou divido entre a do Arqueiro e a da Diana, mas vou ficar com a Diana pois ela realmente me tocou e me deixou cheio de dúvidas…
Aquele uniforme que ela começa a usar é o de Deus da guerra?

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:03

Isso, é do Ares, o deus Olímpico da Guerra.

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:03

Isso, é do Ares, o deus Olímpico da Guerra.

Responder
Thor Bulinado 10 de junho de 2016 - 15:42

Estou divido entre a do Arqueiro e a da Diana, mas vou ficar com a Diana pois ela realmente me tocou e me deixou cheio de dúvidas…
Aquele uniforme que ela começa a usar é o de Deus da guerra?

Responder
Saga de Gêmeos 10 de junho de 2016 - 14:55

Minha heroína favorita, amo ela e tudo o seu universo. A cada dia que passa minha ansiedade por seu filme solo só aumenta, principalmente depois dos elogios que Geoff fez a Patty, comparando-a ao Donner. Bom, deixando isso de lado, gostei bastante da historia, minha favorita do Rebirth até agora.
Excelente critica Luiz, conheci o Plano critico a pouco tempo e estou gostando bastante.

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:02

@disqus_z7rFY21mSP:disqus, seja sempre muitíssimo bem vindo aos comentários e às nossas críticas, seja para concordar ou discordar.
A minha favorita do projeto ainda é a do Arqueiro Verde, mas me surpreendi com essa maravilhosa aqui, viu! Me deixou mesmo curioso para descobrir essas mentiras.

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:02

@disqus_z7rFY21mSP:disqus, seja sempre muitíssimo bem vindo aos comentários e às nossas críticas, seja para concordar ou discordar.
A minha favorita do projeto ainda é a do Arqueiro Verde, mas me surpreendi com essa maravilhosa aqui, viu! Me deixou mesmo curioso para descobrir essas mentiras.

Responder
Saga de Gêmeos 10 de junho de 2016 - 14:55

Minha heroína favorita, amo ela e tudo o seu universo. A cada dia que passa minha ansiedade por seu filme solo só aumenta, principalmente depois dos elogios que Geoff fez a Patty, comparando-a ao Donner. Bom, deixando isso de lado, gostei bastante da historia, minha favorita do Rebirth até agora.
Excelente critica Luiz, conheci o Plano critico a pouco tempo e estou gostando bastante.

Responder
Herbie: O Único 10 de junho de 2016 - 14:33

gostei muito da fase da mulher maravilha do brian azzarello
queria que a dc continuasse os títulos liga da justiça dark, shazam e homem animal
falando nisso,vcs poderiam fazer uma critica dessa série da liga da justiça dark e o shazam do geoff johns?claro,no seu tempo,ainda mais que tem as críticas de rebirth

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:00

Pelo jeito vai ter Rebirth até o fim dos tempos! hahahaha

Responder
Luiz Santiago 10 de junho de 2016 - 21:00

Pelo jeito vai ter Rebirth até o fim dos tempos! hahahaha

Responder
Herbie: O Único 10 de junho de 2016 - 14:33

gostei muito da fase da mulher maravilha do brian azzarello
queria que a dc continuasse os títulos liga da justiça dark, shazam e homem animal
falando nisso,vcs poderiam fazer uma critica dessa série da liga da justiça dark e o shazam do geoff johns?claro,no seu tempo,ainda mais que tem as críticas de rebirth

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