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Crítica | Mulher-Maravilha (Sem Spoilers)

por Iann Jeliel
233 (a partir de agosto de 2020)

Mulher-Maravilha

    • Leiam, aqui, a crítica com spoilers e, aqui, todo nosso material sobre a Mulher-Maravilha.

Mulher-Maravilha vem com uma tarefa ingrata de tentar resgatar a credibilidade de um universo compartilhado que apostou todas as fichas de ser construído integralmente por um só filme – no caso, em Batman vs Superman: A Origem da Justiça – e não deu muito certo, pelo menos, pensando na organização de um projeto cinematográfico como a sua concorrente, sendo que no intervalo entre ele e o Homem de Aço, de três anos de diferença, dava para ter feito um planejamento base que sustentasse a grande aposta megalomaníaca de Zack Snyder para além do caráter naturalmente divisivo de opiniões a respeito do projeto, incluindo aí, um filme solo da amazona que poderia ter chegado bem antes.

Inclusive, me surpreende o fato de mesmo com o atraso, a DC parta na frente em filmes protagonizados por heroínas fortes – mancada da Marvel em não ter feito um da Viúva Negra ainda –, com a prerrogativa de começar com a maior delas já aceita com o público, afinal, o carisma único de Gal Gadot foi uma das melhores coisas no meio do caos de coisas inseridas no meio do que era para ter sido o duelo gladiador mais empolgante do cinema de heróis e durou só alguns minutos. Enfim, isso é águas passadas, ou nem tanto… A falta de uma base organizada gera consequências graves a Mulher-Maravilha, já o responsabilizando de entregar pelo menos uma unanimidade qualitativa ao DCUE. A afirmação, mercadologicamente, era necessária diante do embate entre as franquias adaptadoras de quadrinhos, a qual a DC sabe, que está muito atrás.

É perigoso ela nessa altura do campeonato ter de recuar, para conseguir avançar numa linha mínima de coerência, no caso, apresentando seus personagens para além de cameos,  gerando uma insegurança que reflete em inúmeras incongruências na resultante da obra. Ao mesmo tempo que a história tenta ser intimista, certamente mais contida num recorte de núcleo focado nos dilemas morais envolvendo Diana e sua sensibilidade com a descoberta do que é a humanidade através de um cenário de guerra, o filme não abandona totalmente o complexo de grandiosidade snyderiano, do olhar gladiador mitológico endeusificado sobre heroína, numa mistura problematicamente sentida na “obrigação” moral que naturalmente carrega um primeiro um primeiro filme de super-heroína protagonizada por uma realmente relevante. Até existe essa intenção de dar a representatividade adequada a personagem a fim de conectá-la com o público-alvo feminino, sendo a cena das trincheiras o ápice assertivo dessa tentativa, graças ao olhar consciente da direção de Patty Jenkis, na forma como glorificada os movimentos da personagem na ação em câmera lenta, mas maior do que isso, é a visão conservadora de um roteiro escrito por três homens – um deles, o Snyder –, dessa poderosa mulher precisar ser guiada e educada por uma figura masculina de testosterona “acima da média”.

Chega a ser constrangedor, para não dizer de mal gosto, que toda a cena envolvendo o desenvolvimento da relação dos dois, tente puxar uma piadinha de conotação sexual, disfarçada numa comédia, tipicamente marvetizada, ou seja, está ali só por estar e deixar o filme mais divertidinho, em um humor de estranhamento, criado por situações sociais artificiais de hábitos “machistas” colocadas em contraste com uma suposta inocência pueril da personagem. De inocente, o que essa Mulher-Maravilha tem de sobra, no entanto, o roteiro de seu filme não tem em nada, pois conscientemente ele vai criando desviando focos do que genuinamente importa para a formação da heroína como símbolo, no caso, a compreensão da complexidade não maniqueísta da humanidade entre o bom ou mal, centralizando o processo de aprendizado em entrelace ao romance vivido entre ela e Steve (Chris Pine). Desse modo, todas as ações do sidekick acabam, direta e indiretamente, influenciando para a sua criação, um fato contraditório a toda responsabilidade social do filme.

Esse “roubo “de protagonismo do Steve, é consequência do parâmetro econômico do contexto extra filme, afinal, o objetivo era agradar o feminino e não polemizar para o masculino, desse modo, propondo uma união equivalente de importância entre os gêneros na duração da história. Mas que outro filme protagonizado por um herói, ou melhor, super-herói, em filme de origem, teve seu par romântico humano e feminino tão relevante em ações decisivas da narrativa, quanto o Steve neste? Subliminarmente a “necessidade” de fazer isso somente aqui, reflete uma insegurança tremenda dos roteiristas de não deixar a mulher carregar o filme dela nas costas, ou uma tara deles em imaginar no Steve, como seria bom um homem tendo uma mulher tão forte e pura como ela, ao seu lado e apaixonada.

Não dá para falar em detalhes por conta que essa é uma crítica sem spoilers, mas os eventos ocorridos no terceiro ato são inacreditáveis. Aliás, ato final que se perde completamente na proposta reservada, virando aquela overdose cavalar de CGI malfeita com uma ação também malfeita e totalmente sem noção da falta de coerência que sua grandiloquência atinge, além de só acontecer por que o filme escolhe inverter o processo dramático que vinha instaurado até o momento. Se aquela revelação era para ser uma reviravolta, creio que fica ainda pior. A única surpresa desta virada é o quanto o filme consegue descer ladeira abaixo após ela, num final que para piorar, retífica novamente esta visão sombria e pessimista do Snyder sobre os deuses entre humanos da Liga da Justiça, que na junção dos filmes, mais passaram o mal exemplo matando, do que o bom exemplo, salvando e sendo o teórico símbolo de esperança para a humanidade melhorar.

Mesmo dois atos iniciais funcionais, embora, precise dizer, nada brilhantes e bastante convencionais nas estruturas batidas do gênero, a hipocrisia de discursos e contradições referentes a escolha de abordagem nas próprias ideias, tornam Mulher-Maravilha outro erro numa coletânea sem perspectiva de boas mudanças para a DC no cinema, se tratando de universo compartilhado. Ainda que entenda o apelo de várias meninas/mulheres podendo ir aos cinemas vestida como a amazona, um mérito representativo por si só, inquestionável e de deveras importância para a indústria, mas que o motivo por trás, se analisado friamente, tem procedência a aquilo pelo qual elas tanto combatem.

Mulher-Maravilha (Wonder Woman | EUA, 2017)
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg, Zack Snyder, Jason Fuchs
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Saïd Taghmaoui, Ewen Bremner, Eugene Brave Rock, Lucy Davis, Elena Anaya, Lilly Aspell, Lisa Loven Kongsli, Ann Wolfe, Ann Ogbomo, Emily Carey, James Cosmo, Wolf Kahler, Alexander Mercury, Martin Bishop, Flora Nicholson
Duração: 141 minutos.

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