Crítica | Mulher Pública (Vida Fácil)

estrelas 3

Adaptado de uma peça de Noël Coward, Mulher Pública foi o filme de encerramento do contrato de Hitchcock com a Gainsborough Pictures, um melodrama que trazia mais uma vez um personagem ingênuo — tal qual o de Ivor Novello em Decadência – e os tormentos causados por suas escolhas em um momento delicado de sua vida.

Isabel Jeans dá vida à desafortunada Larita, uma mulher amarga que ao passar por um conturbado casamento e um escandaloso divórcio, foge para uma temporada na Riviera Francesa, onde conhece o jovem que acredita ser o salvador de sua vida. Ao casar-se com ele, enfrenta a desaprovação da família do noivo e é atormentada pelos eventos de seu passado, chegando novamente a uma situação de divórcio e o que pode ser considerado um “fundo do poço” emocional. A última frase da protagonista dita aos jornalistas (Shoot! There’s nothing left to kill!), mesmo sendo declaradamente odiada por Hitchcock, tem um apelo final ideal para a personagem e fecha a trama com uma oportuna deixa sobre o seu futuro.

Apesar do infortúnio inicial, Larita tem uma caminhada mais feliz do que a de Roddy, em Downhill, porém o desfecho da história para os dois personagens é completamente oposto. Enquanto um definha psicológica e fisicamente, para, no fim, acabar amparado nos braços da família; a outra mantém uma vida austera e, a despeito da visível angústia, busca a felicidade em outro lugar e possivelmente em outras pessoas, mas termina o filme sozinha e com a alma mortificada.

O melodrama é construído a duras penas em um roteiro que não se ajuda muito, especialmente em seu desenvolvimento. Não vejo muitos furos dramáticos no início da história e tampouco em seu final, mas o ritmo dos acontecimentos no meio da fita, engrossados pelo marasmo do segundo casamento de Larita, são um convite ao bocejo e ao sono. O que acaba salvando toda a narrativa são os momentos mistos de ironia, sarcasmo e enfrentamento entre a protagonista e sua sogra, cunhadas e segundo marido.

A vida em família e a não aceitação do cônjuge do filho pela mãe não são conflitos familiares novos ou complexos a ponto de chamarem a atenção do espectador. Salvo elementos sociais típicos do Reino Unido nos anos 1920, há pouca ousadia e pouco trabalho de desenvolvimento na história como um todo. É claro que o desalento na reta final e o modo como as coisas são encadeadas trazem a conhecida sensação de expectativa, algo típico de um filme de Hitchcock, mas trata-se de um momento muito curto do filme. Não fossem as experimentações técnicas do diretor (aqui centradas mais nas primeiras cenas) e nos já citados momentos de embate entre Larita e sua nova família, a obra teria uma qualidade bem menor.

Mulher Pública não é um filme ruim. É evidente que há muitos problemas em sua construção, mas se equilibrarmos tudo o que a fita nos mostra, temos no mínimo uma obra medíocre, no sentido original da palavra. Hitchcock falha em alguns momentos de sua direção, mas não desperdiça o tempo do espectador por completo. Mesmo que não seja uma obra favorita dos fãs, o filme mostra uma espécie de ciclo temático do período silencioso do diretor, além de uma busca para encontrar caminhos diferentes ao narrar uma história, o que não tardaria muito a chegar à assinatura do cineasta.

  • Crítica originalmente publicada em 14 de novembro de 2013. Revisada para republicação em 17/09/19, como parte de uma versão definitiva do Especial Alfred Hitchcock aqui no Plano Crítico.

Vida Fácil / Mulher Pública (Easy Virtue) – UK, 1928
Direção: Alfred HItchcock
Roteiro: Noel Coward, Eliot Stannard
Elenco: Isabel Jeans, Franklin Dyall, Eric Bransby Williams, Ian Hunter, Robin Irvine, Violet Farebrother, Frank Elliott, Dacia Deane, Dorothy Boyd
Duração: 80 minutos

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.