Crítica | Mulher Solteira Procura

O cineasta alemão Barbet Schroeder já havia conquistado o público e a crítica com alguns bons filmes, dentre eles, o premiado O Reverso da Fortuna, antes do lançamento de Mulher Solteira Procura, uma narrativa psicologicamente assustadora sobre a capacidade de um ser humano em tentar ser parte da vida de outro, numa invasão de território sem a devida autorização do “invadido” E ainda pior: sem noção alguma dos estragos e das vidas que serão eliminadas neste processo, tendo em vista alcançar os seus objetivos.

Com cenas de masturbação, voyeurismo e uma mulher transtornada que vai de um extremo ao outro, Mulher Solteira Procura se desenvolve com um suspense de primeira linha, enigmático, tenso e sem a preocupação em ser perfeito ou acertar em todos os aspectos estéticos. Ao versar sobre individualismo, isolacionismo e a paranoia da desconfiança típica da convivência nos grandes centros urbanos, o filme baseado no romance SWF Seeks Home, de John Lutz, com roteiro de Don Roos, dramaturgo que estudou Psicologia em Sorbonne e sabe aprofundar psicologicamente os seus personagens, sem necessariamente recorrer ao modelo Syd Field de narrar, algo que talvez seja o motivo de parte das críticas negativas oriundas de profissionais acostumados com os padrões.

Ao longo dos 107 minutos, Mulher Solteira Procura nos apresenta Allison Jones (Bridget Fonda), uma jovem bem sucedida profissionalmente, mas que na seara amorosa, vive um conflito com o namorado infiel, Sam Rawson (Steve Weber). Ao declamar a separação, Alisson faz um anúncio no jornal, interessada em dividir o apartamento com uma mulher que preferencialmente não fume e se adeque aos demais detalhes do perfil.

Assim, surge Hedra Carlson (Jennifer Jason Leigh), uma tímida e delicada moça que vai ganhar a simpatia de Allison, mulher que vive constantemente sob a tensão do cargo de técnica de softwares no ambiente de trabalho. A amizade entre as duas cresce vertiginosamente, a ponto de se tornarem quase “inseparáveis”. Desconfiada de tudo e de todos depois que descobre que havia sido traída pelo namorado, Alisson acaba relaxando e nem sequer imagina os planos mentalmente perturbadores de sua mais nova amiga. A confiança, no entanto, começa a ficar abalada depois que a nova companheira reage mal ao retorno de Sam na vida de Allison. O casal reata e isso enfurece Hedra, pois ela acredita que isso atrapalhará a vida feliz entre as duas, bem como torna Allison menos “feminista” e “libertária”.

Será assim que a narrativa nos apresentará as mudanças e os novos conflitos que se estabelecem. No clima claustrofóbico do apartamento, captado pela direção de fotografia de Luciano Tovoli, eficiente ao trabalhar bem as cenas internas, Mulher Solteira Procura adentra na loucura da sua antagonista e compra as suas ideias mais absurdas. Hedra começa a se vestir como Alisson, corta o cabelo igual e utiliza, sem autorização, as suas roupas. O que mais ela planejará? Roubar o namorado da amiga? Uma cena envolvendo um sapato alto vai revelar que Hedra é mais desiquilibrada do que possamos imaginar.

Ao perceber a estranheza, Alisson investiga a “louca” que colocou em seu apartamento e descobre um passado sombrio envolvendo a perda da irmã gêmea e outros delitos que comprovam o desequilíbrio de Hedra. É quando a narrativa trafega da tensão psicológica e caminha pela violência física, com um rastro de sangue desolador, associado ao suspense calculado matematicamente pela direção charmosa de Schroeder.

Bem sucedida profissionalmente, Alisson revela a sua condição de não “assujeitamento” quando abre a brecha para a entrada de Hedra no apartamento. A chegada do “arauto” da morte é possível graças ao seu ideal libertário de se livrar do homem que a magoou. Fruto das imprecisões e incertezas inerentes aos seres humanos, Allison resolve dar uma segunda chance ao namorado, colocando-o em seu devido lugar, num recomeço ditado por suas regras. A sua amiga, no entanto, não entendeu desta forma, marcando para sempre a vida de todos os envolvidos que conseguiram sobreviver para contar a história macabra e insana.

Mulher Solteira Procura — (Single White Female) Estados Unidos, 1992.
Direção: Barbet Schroeder
Roteiro:  Don Roos, John Lutz
Elenco:  Bridget Fonda, Christiana Capetillo, Frances Bay, Jennifer Jason Leigh, Jessica Lundy, Michele Farr, Peter Friedman, Stephen Tobolowsky, Steven Weber, Tara Karsian
Duração: 107 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.