Crítica | Mulheres em Nova York

estrelas 3,5

Fassbinder foi, durante algum tempo, taxado de “diretor de filmes para guetos”. Talvez ele ainda seja visto assim por alguns espectadores, mas sua amplitude temática e as formas de tratamento para grupos e ideologias que se dispôs a filmar já é reconhecida e analisada em sua diversidade e novos olhares propostos. Se tomarmos apenas os seus filmes teatrais, veremos que “gueto” é a última coisa que se pode atribuir à filmografia do famoso anarquista da fantasia.

Das máscaras institucionais em O Café, à força da mulher em diferentes cenários e com distintas motivações pessoais e de conjunto nos filmes A Liberdade de Bremer (1972), Nora Helmer (1974) e Como Um Pássaro Sobre o Fio (1975), vemos o diretor apresentar uma grande variedade de ideias e grupos sociais, o que de imediato contesta a acusação despropositada sobre o seu suposto ‘conteúdo viciado’. Mulheres em Nova York (1977) vem engrossar ainda mais essa diversidade, mostrando um lado que até então o diretor não havia abordado: a ideologia da família nuclear e todos os seus braços e extremos de execução, contando com religião, sociedade, machismo e intolerância.

Baseado na peça The Women (1936), de Clare Boothe Luce, o filme foi uma produção para a televisão alemã que contou com toda a elegância de Fassbinder na direção, além de sets deliciosamente exagerados (um kitsch que coube muito bem ao contexto da peça), além de apresentar um tratamento bastante plural, ora irônico, ora histérico, ora cínico, que lembra um pouco a versão de George Cukor para a mesma peça (As Mulheres, 1939) e se diferencia imensamente de outras adaptações como a de David Miller, O Belo Sexo (1956) e a de Diane English, Mulheres – O Sexo Forte (2008).

Fassbinder cria um ambiente onde as mulheres são submergidas pelos costumes e imposições sociais sem ao menos se darem o trabalho de questionar essa posição. Através do desenho dos cenários, o espetador pode claramente se sentir dentro de um “ninho de socialites”. Cada ato nos revela uma surpresa cênica, alguns deles trazendo um aquário de peixes ou uma grande vidraça que parece um ‘aquário de mulheres’, metáfora visual que abraça por completo a temática da peça e ajuda a construir o lado crítico do filme, que pode ser mais difícil de ser compreendido por espectadores pouco acostumados com ironias, especialmente dentro do cinema fassbinderiano.

O elenco feminino e as excelentes interpretações de Eva Mattes (Edith), Margit Carstensen (Sylvia), Christa Berndl (Mary) e Barbara Sukowa (Crystal) tornam o texto ainda mais gracioso. Mesmo que o ritmo do longa se arraste um pouco a partir do sétimo bloco (a obra é dividida em 12 partes, a maioria com transições pictóricas à la Edward Hopper), temos um bom andamento geral. O final é menos potente e mais patético do que o espectador poderia esperar, mas ele não é ruim, apenas aquém das expectativas.

Assim como em Nora Helmer ou Roleta Chinesa, o verdadeiro destaque aqui é a direção. O desenho de produção também tem um papel especial, mas a direção é o ponto alto. Fassbinder faz experimentos maravilhosos com o movimento da câmera, utilizando o espaço de maneira dinâmica e estabelecendo um bom diálogo com o elenco e o palco-tela, adaptando a peça para um ambiente que lhe é bastante propício sem tirar o caráter cinematográfico ou televisivo da produção.

Ao colocar mulheres acostumadas e entregues ao julgo machista e aos padrões sociais que lhes forçam a cartilha do “casar, ter filhos, aceitar a traição do marido e tratá-lo como um deus, porque ele é o centro das atenções” Fassbinder não deixa de ser o cineasta questionador de sempre. Aparentemente ele faz um filme passivo frente à situação. Mas isto é só a aparência, também uma característica da peça. Há muito mais abaixo da superfície de Mulheres em Nova York. Basta saber olhar.

Mulheres em Nova York (Frauen in New York) — Alemanha Ocidental, 1977
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Clare Boothe Luce (peça) Nora Gray (tradução)
Elenco: Eva Mattes, Angela Schmid, Margit Carstensen, Christa Berndl, Gisela Uhlen, Irm Hermann, Anne-Marie Kuster, Barbara Sukowa, Heide Grübl, Doris Schade, Andrea Grosske
Duração: 111 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.