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Crítica | Mulheres, Sempre Mulheres

por Guilherme Rodrigues
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Um dado interessante sobre Mulheres, Sempre Mulheres: ele foi lançado com uma grande responsabilidade nas costas, a de ajudar o estúdio RKO, o mesmo que lançou Cidadão Kane, a sair do vermelho. O filme dirigido por Arthur Lubin seria o primeiro de uma série de outros para ajudar a companhia a ficar de pé, mas acabou sendo um dos últimos filmes produzidos pela RKO e um fracasso de bilheteria.

Assistindo a Mulheres, Sempre Mulheres, a impressão que fica é que colocar tal peso no longa foi um grande erro. Não por ele ser uma produção especialmente desastrosa, mas sim por ser bem mediano, o que em certos casos é até pior do que um fracasso completo. A protagonista é Rose Gillray (Ginger Rogers), uma vendedora de espartilhos viajante no final do século 19 que encontra dificuldade em conquistar seu próprio espaço no cenário de vendas, um ambiente predominantemente masculino. Mas ela encontra sua chance de se destacar ao ver que uma grande empresa de ferro está com dificuldades de vender arame farpado no Texas, pois os fazendeiros acreditam que o instrumento irá machucar o gado. Gillray parte para o estado com a responsabilidade de mudar a imagem do arame e se firmar como vendedora, mas acabará encontrando muito mais do que isso.

É curioso observar as similaridades deste com o filme prévio de Lubin, O Suplício de Lady Godiva, que também era a história de uma mulher “se metendo” em um cenário predominantemente masculino, Godiva em intrigas e guerras da corte, e Gillray nas vendas. Mas enquanto Godiva conseguia fazer com que o filme convergisse ao seu redor, tanto por meio da mise en scene quanto por seus atos, mesmo aparecendo relativamente pouco para um longa que carrega seu nome, Gillray é um tanto mais apagada e acaba por não sustentar tão bem o filme, mesmo sendo mais presente durante a história. Se havia um esforço para destacar Godiva, aqui a vendedora possui uma parceira idêntica visualmente e engraçadinha que nem ela, a modelo Molly Wade (Carol Channing).

Mas mesmo com uma protagonista não tão em evidência, a narrativa se contorce para torná-la uma figura desejada por todos, mesmo com personagens que não façam muito sentido. Por exemplo, no início do filme, a protagonista interage com o dono da empresa de ferro que deseja entrar no mercado texano, é um momento breve, que serve somente para dar o pontapé a história. Mas o tal empresário retorna lá pelo terceiro ato, completamente apaixonado por Gillray e resolve o obstáculo que ela encara no momento. Na verdade, para um filme que tem uma mulher como protagonista, é dado pouca agência a ela, com a trama sendo mais movimentada pelos homens e seus interesses.

O que torna Mulheres, Sempre Mulheres minimamente interessante é que ele, de certo modo, é um espelho dos acontecimentos do mundo real. Do mesmo modo que Gillray foi encarregada de conseguir um enorme sucesso para uma empresa, a produção também tinha essa responsabilidade. Deu certo na ficção, no mundo real, nem tanto. Isso, e a presença do jovem Clint Eastwood no papel de um tímido militar, conferem ao longa o status de mera curiosidade da história do cinema, e não muito mais que isso.

Mulheres, Sempre Mulheres (The First Traveling Saleslady) — EUA, 1956
Direção: Arthur Lubin
Roteiro: Devery Freeman, Stephen Longstreet.
Elenco: Ginger Rogers, Carol Channing, Barry Nelson, David Brian, James Arness, Clint Eastwood.
Duração: 92 minutos

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