Home TVTemporadas Crítica | Mundo Mistério – 1ª Temporada

Crítica | Mundo Mistério – 1ª Temporada

por Iann Jeliel
2482 views (a partir de agosto de 2020)

Youtube e cinema se chocaram algumas vezes. No Brasil, vários grandes criadores de conteúdo para a internet já se arriscaram no ramo cinematográfico, seja com experimentações mais descompromissadas – vibe Internet – O Filme, seja em outras que realmente buscavam atingir relevâncias dramáticas “artísticas” – vibe Entre Abelhas do Ian SBF. Entretanto, foi na TV, ou melhor, é agora no serviço de streaming da Netflix, que surgiu a mais ambiciosa produção vinda desse universo massivo do entretenimento, e ela só poderia vir do cara que entre os grandes, no mínimo, foi o que nunca se mostrou até hoje confortável com a limitação formulaica dos conteúdos comuns em sua plataforma de origem.

O canal de Felipe Castanhari começou como apenas fonte simples de revisitação a obras nostálgicas particulares, deu um passo além e se foi se tornando uma grande e acessível vitrine para a democratização de conteúdo educativo para conhecimentos gerais, especialmente voltados à história, ciência e fundamentação política. Há quem diga que o interlocutor perde méritos de fala por essencialmente não ter formação acadêmica em nenhuma das áreas mencionadas, contudo, seu talento não está exatamente no conhecimento master das temáticas que aborda, mas sim em como ele consegue transmitir, em uma didática acessível, os principais levantamentos do tema, servindo de gatilho para o espectador buscar conhecer mais sobre o assunto. Para aqueles que não têm interesse em buscar mais, conseguem sair de um de seus vídeos com as informações cruciais em mente, tendo uma mínima noção sobre o tema.

Em suma, Castanhari é um grande showman, comunicador e dedicado profissional nas suas criações, sempre auxiliadas bastante pela sua formação como design gráfico, utilizando os benefícios de animações e montagens para estabelecer de forma ainda mais acessível o diálogo com o interlocutor. Sua série Mundo Mistério carrega todas as suas propostas e inventividade dialética dentro de um escopo grandioso, selecionando temáticas das mais complexas, como viagem no tempo e inteligência artificial, até às mais banais, como a origem da amizade entre humanos e cachorros ou possibilidades realistas de um apocalipse zumbi, tratando essas temáticas de um modo objetivo e da forma mais completa possível.

Em termos de conteúdo, a série não é uma experimentação como outros projetos envolvendo youtubers, mas sim a confirmação de toda uma dedicação e método definido ao longo de anos, encontrando a máxima da sua segurança dentro de um investimento considerável e liberdade autoral de criação quase absoluta. Contudo, se é completo em termos conteudistas, existe as escolhas questionáveis na forma, especialmente nas decisões de venda interna como entretenimento que se misturou com descompromisso. Não cheguei a ver seus outros projetos, como o Guia Politicamente Incorreto do History Channel, ou Onde Estão os Alienígenas? do Now, para afirmar ser uma problemática nova, mas considerando que sim, a série propõe uma narrativa particular em cada episódio junto a um micro universo de personagens que serão os responsáveis em transmitir o conteúdo. É uma decisão segura, mas talvez não tenha sido a ideal, embora não seja difícil decifrar suas intenções.

Betinho, personagem de Bruno Miranda, é um zelador. Ele representa o público-alvo de Castanhari, o cidadão comum brasileiro que não tem tanto conhecimento nos assuntos tratados, além das básicas perguntas e “memes” em torno de conceitos gerais. Perguntas, que vão levando as interações e viram diálogos diretos com o público, como num vídeo comum e documental de Castanhari, o narrador e apresentador. Através das explicações, Bruno vai se desarmando, embora ainda não se retire em nenhum capítulo do seu aspecto de alívio cômico, confirmando a intenção do realizador em querer trazer o conhecimento como complementador e não modificador de personalidade do público, embora em cada temática ele deixe bem claro qual o seu posicionamento diante daquilo. Isso fica nítido com a personagem de Dra. Tay, da Lilian Regina, mulher negra e fonte geralmente das maiores dúvidas, tiradas sem a menor sutileza com um fechamento de raciocínio social-representativo.

Não me incomodo com a falta de sutileza no discurso da personagem, nem com as intenções cômicas do outro, só com o encaixe deles dentro do método das explicações que, em suma, é o principal mote da série. Em vários episódios as cenas com esses personagens criam barrigas que mesmo ajeitadas na montagem, soam nada orgânicas na progressão do episódio (como aquele falso zumbi, ou toda a entrevista do último episódio – com a ilustre participação Wendel Bezerra), além de, em termos de atuação, as interações soarem pouco convincentes, ou pelo menos naturais como o resto. Incluindo aí a inteligência artificial “B.R.I.G.G.S”, que surge como um perfeito utensílio (ou melhor, personagem) para dividir a tela com Castanhari de modo autêntico ao universo de explicações mais complexas e principalmente na liberdade de designs e animações para promover essas explicações de modo visual (fora que Guilherme Briggs é sempre ótimo no trabalho de dublagem).

Poderia ser apenas os dois e seria o suficiente para vender bem a série na proposta de ‘conhecimento como entretenimento’, mas do modo apresentado, o tom e falta de sutilezas em alguns momentos, com piadinhas internas e coisas do tipo, se tornam gratuitas, por sua vez, desviando constantemente a atenção da locomotiva principal. De qualquer forma, o saldo ainda é bastante positivo. Mesmo que não apresente nada novo num macro universo de conteúdo sobre os temas que aborda, tem uma fácil acessibilidade comunicativa que talvez muitas delas não tenham. Traz o esforço, marca e principalmente carinho em cada ponto de execução de seu idealizador, que certamente merece (e vai) ser recompensado por nunca ter se contentado com o conforto que poderia, indo bem além do que Youtube poderia oferecer.

Mundo Mistério – 1ª Temporada (Brasil, 04 de agosto de 2020)
Criação: Felipe Castanhari
Direção: Felipe Castanhari
Roteiro: Felipe Castanhari
Elenco: Felipe Castanhari, Guilherme Brigs, Bruno Miranda, Lilian Regina, Wendel Bezerra
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 8 episódios – 25 minutos em média cada episódio

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais