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Crítica | Mundo Proibido (1992)

por Roberto Honorato
878 views (a partir de agosto de 2020)

Ralph Bakshi é um animador único. Ele não trabalha com a melhor arte do mundo, mas tem um apelo visual bem… evidente. Recebe alguns elogios por American Pop, e particularmente gosto bastante de sua direção em longas como O Gato Fritz, e não é por eu ser um enorme fã de Robert Crumb, mas por inserir sua própria identidade em algo que já tem uma personalidade forte. Seu trabalho é sujo, mas a forma como desenvolve algumas artes conceituais para o design de produção é impressionante. Mas todos podem cometer erros, e o maior erro de Bakshi foi imperdoável, sem contar que conseguiu arrastar o pobre Brad Pitt em começo de carreira para essa desgraça que provavelmente o fez questionar sua decisão de ser ator.

Mundo Proibido começa sua “história” em 1945, com as famílias recebendo as tropas no aeroporto. O detetive Frank Harris (Pitt) é recebido por sua mãe, e já está aí o primeiro erro, porque Frank nunca atua como um verdadeiro detetive, sem contar que tem ideias sem sentido como comprar uma moto e convidar a mãe para um passeio no deserto de Las Vegas. Esse passeio, obviamente, termina em desastre, quando um casal dirigindo bêbado bate de frente com o veículo de Frank. Todos vão pelos ares e Frank procura sua mãe aos berros como se estivesse no meio de um bombardeio. Eu nem preciso lembrar que esse comportamento de soldado com estresse pós-traumático também não retorna em momento algum do resto do filme, foi só para essa cena em particular. Essa falta de comprometimento com algo básico, chamado roteiro, é o único compromisso assumido pelo longa. E pode se segurar que vai piorar.

Depois do acidente, da maneira mais repentina possível, Frank é abduzido por um pequeno cientista animado. É tudo tão brusco e sem razão que não tem outro jeito de explicar. Nada disso foi apresentado que qualquer forma antes, o mundo animado surge do nada. Finalmente estamos no Mundo Proibido, onde as regras não fazem sentido algum, como já sabemos. Logo na primeira troca de diálogos entre Frank e o cientista, são jogadas informações ao vento, sobre viagem entre realidades paralelas e outras mil coisas que não tem — quem diria — qualquer envolvimento com o que vem depois. É exposição vazia, nada vai te ajudar a entender o que está acontecendo.  

Paralelamente, vemos um quadrinista chamado Jack (Gabriel Byrne), que foi parar na prisão depois de matar um homem por tê-lo encontrado na cama com sua mulher (vale mencionar que essa informação é entregue casualmente depois de um cara na fila da loja de quadrinhos perguntar sobre o acontecido com a mesma tranquilidade como a de alguém que pergunta pela hora). Ao contrário de Frank, que precisou de uma tecnologia inovadora dos seres que habitam o mundo animado, Jack vai parar do outro lado porque um personagem o puxa direto de uma página na qual estava trabalhando. Então dá pra entrar no Mundo Proibido se eu simplesmente desenhá-lo? Ok, vai para a lista de perguntas sem resposta.

Eu não vou perder tempo explicando o resto da trama porque ela simplesmente não existe. Frank e Jack não tem ligação alguma e tudo que acontece no mundo animado é só uma desculpa para mostrar o visual maneiro (por isso o nome original “Cool World”, talvez), que é genuinamente bem criativo com seus prédios estilizados e as sombras que lembram algo que poderia ter vindo da mente de Tim Burton, só que nem isso conseguem fazer direito. A animação de todos os habitantes do mundo animado é tão genérica que em certa cena, envolvendo uma boate movimentada, todos os personagens dançando são o mesmo, com o mesmo movimento. É engraçado ver como não conseguiram algo simples como animar um carro, já que ele só pode ser visto assim à distância. De perto, ele volta a ser um carro comum.

Além disso, o que são as bizarras inserções de sons e animações que chegam a assustar quem assiste? Como uma cabeça flutuando em um canto, ou uma cena de perseguição que acontece em cima de outra cena. É como se tivessem montado o filme em cima da hora, deixando várias camadas sobrepostas na ordem errada e esquecido de revisar. Esse é um dos ENORMES problemas técnicos, eu nem entrei em detalhes sobre a animação não casar com o cenário estático do fundo, resultando naquele efeito horrível de personagens escorregando para os lados. É triste ter que comparar mais uma vez, mas ele pediu por isso: Mundo Proibido tenta demais ser uma versão mais adulta e sombria de Uma Cilada para Roger Rabbit, inserindo até uma versão barata de Jessica Rabbit, chamada aqui de Holli Would (sutil), dublada e interpretada mais para frente por uma Kim Basinger que precisava pagar as contas.

E pagar as contas é importante para todos, principalmente Brad Pitt, que parecia pronto para desistir de tudo em todas as suas cenas. É de um nível altíssimo de vergonha alheia assistir Pitt tentando fumar um cigarro animado, que tremia incontrolavelmente, e nem era um cigarro antropomórfico, era só questão de um péssimo trabalho do departamento técnico em manter algo parado na mão de um ator. Por que não deram logo um cigarro normal para ele? Ou nem dava um, para começo de conversa!

Olha, eu já estou ficando nervoso só de pensar nesse filme. Até agora nada faz sentido, não entendi porque a morte de uma pessoa do mundo real transforma a mesma em um desenho no Mundo Proibido. Isso quer dizer que temos mais pessoas mortas neste mundo ou essa regra foi criada em cima da hora como o resto do filme? Jamais saberei, e isso porque não tenho fibra moral ou mental para me aprofundar na insanidade desse filme, que não agrada como ação, a comédia não faz rir e quando tenta ser sério e realista, sai como bobo e forçado. É o maior tiro no pé da carreira de Bakshi, uma mancha que ficou no currículo e não dá para esquecer. É quase ofensivo ao ver como não parecem ao menos ter se importado.

Mundo Proibido (Cool World) — EUA, 1992
Direção: Ralph Bakshi
Roteiro: Michael Grais, Mark Victor
Elenco: Gabriel Byrne, Brad Pitt, Kim Basinger, Michele Abrams, William Frankfather, Maurice LaMarche, Joey Camen, Deirdre O´Connell
Duração: 102 minutos (mas parece infinito).

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23 comentários

Mivve 28 de agosto de 2020 - 00:40

Esse filme é muito ruim mesmo, antes mesmo de o Frank entrar no Mundo Proibido eu já tava achando horrível. Kkkkkk ou seja, com uns 10 minutos de filme.

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el.lagrima 27 de fevereiro de 2019 - 02:05

Nerds falando de filmes, “nada faz sentido, nada faz sentido”, agora
todas as produções novas ”fazem sentido” e são uma chatice sem fim. Mundo Proibido é
um filme nonsense – se o espectador não consegue lidar com um pouco de absurdo, não assista.

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Roberto Honorato 27 de fevereiro de 2019 - 09:34

Há um diferença entre nonsense consistente, experimental e mal feito. Aqui foi claramente mal feito levando em consideração como haviam erros óbvios, como os mencionados no texto. Eu assisti a filmografia do Bakshi e esse filme claramente teve muito envolvimento da produtora por conta do elenco, e o próprio não quis muito se envolver com a obra, então…Não é como se não gostássemos de nonsense, e também não é como se tudo que fosse absurdo automaticamente fosse bom.

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Roberto Honorato 10 de julho de 2018 - 00:38

Bakshi era bem louco mesmo, e eu até curto a animação de Senhor dos Anéis, mas é claro que não é nada comparado ao livro ou até o épico de Peter Jackson. Sobre o jogo de SNES, fiquei surpreso, não sabia dessa!

Obrigado pelo comentário 😉

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SUPRAMATY 9 de julho de 2018 - 15:15

O roteiro desse filme é igual a filho feio; quando nasce e ninguém quer assumir.
Ralph Bakshi culpa os produtores, os roteiristas culpam Bakshi, mas assistindo todas as aberrações nisso, podemos culpar a todos envolvidos.
Aquele final em que Kim Basinger aparece por 10min. e depois vira uma zona, conseguiram serem os piores, pelo simples fato de jogarem toda uma idéia que poderia ter tido sentido em alguma parte perdida do roteiro, pois para quem assisti não o faz.
E depois pesquisando, descobri que teve até um jogo de SNES. ¬¬’
Dei chance pro miserável do Bakshi em até defendê-lo, mas assisti dois filmes que ele dirigiu -aquela infeliz adaptação de Senhor dos Anéis foi uma; que troço ruim de doer, principalmente a caracterização de Aragorn
Na boa, depois que peguei essas duas animações me senti mais doente que ele. O cara era um surtado -e mais ainda querendo processar Peter Jackson e o filho de J.R.R. Tolkien.

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Alvaro Viana Batista 25 de junho de 2018 - 17:24

Esse filme é bem fraquinho, mas ainda sim gosto dele. Bem que poderia rolar um especial do Bakshi, gosto muito de Fritz e de Heavy traffic.

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Roberto Honorato 25 de junho de 2018 - 23:00

Quem sabe rola um dele, estou planejando fechar toda a filmografia dele ainda, gosto do trabalho dele independente do desastre que foi Mundo Proibido.

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vc falou em pipoca? 22 de junho de 2018 - 21:21

Lembro que confundia esse filme com roger rabbit quando passava no sbt, nunca entendi nada mas era desenho então fodase mermão, mas desencorajei em ver hoje em dia devido às críticas desfavoráveis, mas acho que a história tem potencial demais pra não receber um remake.

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Stella 22 de junho de 2018 - 15:28

Nossa que nota baixa, eu adoro este filme. A cena da dança Holli é muito legal. Eu gosto tanto de Uma Cilada para Roger Rabbit, quanto este. E adorei que a série Happy tem a mesma pegada de animação , agora 3D com temática adulta interagindo com live action.

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Roberto Honorato 22 de junho de 2018 - 18:10

Eu ainda não assisti Happy, mas meu maior problema com esse filme é exatamente essa tentativa em criar um Roger Rabbit mais sombrio, mas acaba parecendo mais plágio que deu errado do que uma versão melhor. Sem contar que não consigo deixar passar essas coisas que mencionei, como a animação mal feita e a história.

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Roberto Honorato 22 de junho de 2018 - 18:12

Ah, e eu quase esqueci: obrigado pelo comentário.

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vc falou em pipoca? 22 de junho de 2018 - 21:19

Se happy for na mesma pegada desse filme então eu finalmente vou dar uma chance.

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Stella 22 de junho de 2018 - 22:05

sim é bom tem a critica aqui no Plano Critico.

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Ricardo 22 de junho de 2018 - 14:53

Poxa! Eu gosto desse filme. É o típico filme ruim que é bom! Agora sobre esse questionamento do autor do texto: “não entendi porque a morte de uma pessoa do mundo real transforma a mesma em um desenho no Mundo Proibido”. No filme explicam que quando um humano é morto por um desenho ele automaticamente se transforma em um desenho animado também. Tudo bem. Não faz sentido algum, mas não são todas as pessoas que morrem que viram desenho, apenas as que são mortas por outros desenhos!

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Roberto Honorato 22 de junho de 2018 - 18:12

Eu gostava quando era menor, foi um dos que me introduziu na filmografia do Bakshi, mas vendo agora eu sinto certa vergonha alheia.

Sobre a minha indagação dos humanos mortos, foi meio que uma piada com a inconsistência do filme mesmo, era pra mostrar como eu achei aleatório rs

Obrigado pelo comentário.

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vc falou em pipoca? 22 de junho de 2018 - 21:23

Então o inferno, ou céu, dos assassinados por desenhos seria o mundo dos desenhos?

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Ricardo 24 de junho de 2018 - 11:12

Provavelmente. Porque também não lembro se os desenhos morriam. Lembro que tinha um que ficava preso dentro e uma caneta e outro era explodido por essa mesma caneta, mas não chegaram a morrer!

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Flavio Batista 22 de junho de 2018 - 14:43

Sempre achei esse filme bem maluco, mas adorava o visual. Alem de q eu achava (ainda acho) a Holli Would linda.

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Roberto Honorato 22 de junho de 2018 - 18:13

Esse filme é estranho nesse departamento. Todo o design de produção e aquele background estilizado são lindos, mas aí você vê a animação 2d padrão e ela envelheceu tão mal, e piora quando você lembra que Roger Rabbit fez melhor anos antes.

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Dan Oliver 22 de junho de 2018 - 14:31

Valsa com Bashir, do mesmo diretor, é ao contrário desse filme, uma obra-prima que vale a pena conferir!

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Roberto Honorato 22 de junho de 2018 - 18:17

Mas o Valsa não foi dirigido pelo Ari Folman? O mesmo de Congresso Futurista. Mundo Proibido foi pelo louco do Bakshi, que fez aquela animação clássica do Senhor dos Anéis.

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pabloREM 22 de junho de 2018 - 14:29

Eu lembro de somente uma coisa relevante sobre esse filme: a trilha sonora, principalmente a música Disappointed, do super grupo Electronic (Bernard Sumner do New Order e Johnny Marr do Smiths) com a participação de Neil Tennant do Pet Shop Boys.

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Roberto Honorato 22 de junho de 2018 - 18:18

Sortudo. Eu queria ter como lembrança apenas isso. Mas agora estou traumatizado rs

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