Crítica | Muppets – O Filme (1979)

“Rainbows are visions
They’re only illusions
And rainbows have nothing to hide
So we’ve been told and some chose to
Believe it
But I know they’re wrong wait and see”

Os Muppets sempre foram uma versão crescida, menos restringida a uma certa censura, dos personagens da Vila Sésamo, também fantoches que surgiram da mente imaginativa de Jim Henson. O programa infantil, no seu caso, ansiava – e permanece, pois a transmissão continua nos Estados Unidos – um caráter pedagógico, querendo ensinar crianças pequenas a contar e ser gentis. Enquanto isso, o grupo composto por Caco, o Sapo (Jim Henson) e companhia teria um viés mais explícito por simplesmente entreter o povo, sem querer objetivos a mais que não se propusessem a mover comédia, espetáculo e graciosidade. Os Muppets são, assim sendo, artistas verdadeiros, que se reconhecem como artistas e, mais que isso, passam pelos obstáculos que a arte e o show business norte-americano criaram aos que sonham. No caso, o humor sarcástico que norteia Caco marca as ironias no sonhar, sempre com camadas. E não são esses meros fantoches como todos nós, procurando conquistas que não virão unicamente porque queremos muito ou nos esforçamos tanto? Pois no primeiro longa-metragem destes queridos personagens, aprenderemos não a escrever, no entanto, a sonhar em meio às contradições do sonho americano.

Depois de um completo desconhecido – Dom DeLuise, no primeiro de muitos cameos – dar um empurrãozinho, Caco, o Sapo parte em uma viagem para Hollywood em busca dos seus desejos. O protagonista do musical começa, portanto, uma roadtrip pelos Estados Unidos, convidando Muppets durante o trajeto. Usa-se como premissa “Rainbow Connection”, canção composta por Paul Williams, que nos instantes iniciais da obra já acentua a pureza das ambições de Caco, um sonhador. Entretanto, tais sonhos tão impossíveis são traçados a uma proposta mais realista, que constantemente brinca com a inocência dos personagens. Os demais Muppets simplesmente aceitam o convite de um estranho que, como uma passagem da canção “Rainbow Connection” apontava, ouvia vozes em sua cabeça chamando-o pelo seu nome e convidando-o a perseguir as suas utopias. O personagem até se culpará momentaneamente por isso, mais tarde, ao repensar tal crença louca. Enquanto Caco cantarolava a mundaneidade de sua rotina no pântano, os outros aproveitavam vidas também pedestres, nada espetaculares. Fozzie, por exemplo, era comediante de stand-up, Grande Gonzo dirigia um caminhão, e Miss Piggy participava de concursos ordinários.

O longa traz estes nomes tornando-se parte de uma longa viagem, que propõe um significado à América, tão encantada quanto cômica. Zomba-se o faroeste, o sci-fi, o romance. O continente é preenchido de leste à oeste por comuns trabalhadores que entram em uma jornada inesperada para serem algo a mais, como os próprios Muppets. Nesse sentido, a Vila Sésamo ensinaria crianças a não desistirem dos seus sonhos, em vista de que apenas querendo e correndo atrás conseguimos alguma coisa. Já os Muppets sabem que nem mesmo cruzando todos os Estados Unidos, enfrentando mil e uma ameaças com um grupo de desajeitados, o sucesso virá. Quando encontra Fozzie, Caco observa um péssimo humorista. O personagem, que é agraciado pela interpretação de Frank Oz – também intérprete do Mestre Yoda, de Star Wars, e de outros Muppets -, simplesmente não tem o menor talento. Nem merecedor de algum prêmio o pobre Fozzie é. Mas isso não é necessariamente um problema, porque o urso e seus amigos continuarão cantando e tentando encontrar a conexão do arco-íris que tanto esperam. Embora Henson, o roteiro e o diretor James Frawley reconheçam um mundo duro, os Muppets se esforçam para aproveitá-lo e cantá-lo.

E por isso esses personagens são tão associáveis, por serem verdadeiros em seus fracassos e em suas ânsias por sucesso, que compartilhamos. Um dos coadjuvantes passa a obra inteira apenas tentando chegar a Caco e companhia. O toque especial que as produções dos Muppets promovem – a maioria, pelo menos – é a mescla entre um entretenimento quase puro, usando das piadas mais ternas possíveis em certas ocasiões, com a acidez de uma comédia que compreende e usufrui das contrariedades que compõem o sonho americano. Caco, o Sapo está basicamente fugindo, enquanto corre atrás do seu desejo, de um homem que quer usar suas habilidades como dançarino para propaganda de uma marca que vende sapos como comida. A grande conquista técnica de Muppets – O Filme, por sua vez, é justamente os pés dos seus personagens, que nunca antes haviam sido mostrados. Usando aparatos extraordinários, James Frawley conseguiu tornar os Muppets ainda mais vivos, enquanto explorava como parte da premissa esses efeitos tão especiais. Hollywood precisa consumir as suas novidades. Tal ameaça soa coesa a uma cômica roadtrip despreocupada na superfície, mas que comenta sobre a indústria e esta nação americana.

A conclusão do musical encerra-o com chave de ouro. Na mais inesperada participação especial deste longa-metragem, que resolve a coletânea de nomes conhecidos despontando na obra, Orson Welles aparece interpretando um produtor que oferece um contrato aos Muppets. Isso sem criar uma única ressalva, uma única nota de rodapé. Essa é claramente uma piada e das mais engenhosas. Um dos grandes diretores de cinema de todos os tempos, o cineasta, contudo, sofreu enormemente nas mãos de pessoas de Hollywood. Muppets – O Filme está conversando com a desgraça desse artista em questão, que simplesmente criou Cidadão Kane, considerado um dos maiores filmes de todos os tempos, e não se imunizou do ostracismo por Hollywood. Welles, em contrapartida ao que aconteceu consigo mesmo, permite que um desconhecido grupo de esquisitos conquiste a chance de suas vidas, o que inclui um controle criativo completo sobre suas criações. Então, os Muppets encerram a sua caminhada recriando os cenários que cruzaram pela jornada, refazendo as suas trajetórias para as transformarem em cinema, cantando e dançando. Mesmo assim, pouco se concretizará, o que não significa, contudo, que não há espaço às alegrias.

Essa gigantesca e espirituosa farsa americana é compreendida, em outra instância da execução, na metalinguagem usada, que sugere conquistas nascidas apenas às custas de ajudas do roteiro. Uma cena, por exemplo, coloca a Eletric Mayhem resgatando, inesperadamente, Caco e os outros, pois a banda simplesmente pescou no roteiro que os protagonistas estavam precisando de ajuda. Os Muppets são naturalmente um grupo de fracassados, que nunca encontrarão, pelo menos da maneira como esperam, o que diabos existir no término desse arco-íris. Mas, como acontece na conclusão do longa-metragem, o cenário se desmonta e, justamente na última desgraça, o arco-íris aparece. Ninguém para de cantar, ninguém para de sorrir. Das mais agridoces conclusões que roadtrips já viram. Muppets – O Filme é um atestado do porquê esses personagens de Jim Henson serem tão relevantes como marcas de épocas – as participações especiais – e sentimentos, ao mesmo tempo promovendo-se como anti-depressivos em um mundo tão contraditório. Embora no musical, por um lado, as esperanças não se provem como planejadas, os Muppets, para além do cinema, conseguem o que querem: trazer um pouco de cor para um mundo muito cinza e cansado.

Muppets – O Filme (The Muppet Movie) – EUA, 1979
Direção: James Frawler
Roteiro: Jerry Juhl, Jack Burns
Elenco: Jim Henson, Frank Oz, Jerry Nelson, Richard Hunt, Dave Goelz, Charles Durning, Austin Pendleton, Edgar Bergen, Milton Berle, Mel Brooks, James Coburn, Dom DeLuise, Elliott Gould, Bob Hope, Madeline Kahn, Carol Kane, Cloris Leachman, Steve Martin, Richard Pryor, Telly Savalas, Orson Welles, Paul Williams, Scott Walker
Duração: 97 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.