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Crítica | Musashi – Vol. 1: A Terra / A Água / O Fogo, de Eiji Yoshikawa

por Ritter Fan
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O ronin e espadachim Miyamoto Musashi viveu entre 1584 e 1645 e entre sua técnica de uso simultâneo de duas espadas, algo inédito na época, seus 61 duelos sem perder um sequer e a autoria de O Livro dos Cinco Anéis e Dokkodo, tratados sobre sua prática e filosofia que ele entregou a Terao Magonojō, seu mais importante pupilo, sete dias antes de seu falecimento, tornou-se um dos mais importantes praticantes de artes marciais do Japão, sendo até mesmo considerado um Kansei ou, na tradução literal, um “santo da espada”, título honorífico dado a grandes guerreiros espadachins. Seus feitos históricos são largamente conhecidos na literatura japonesa, mas, em tempos modernos, foi Hidetsugu Yoshikawa, nom de plume Eiji Yoshikawa (na verdade, o 19º do autor, que demorou a se decidir) que o tornou uma lenda em seu país e além dessas fronteiras, alcançando, também, o Ocidente.

Entre 1933 e 1939, o romancista nascido em Kanagawa, hoje parte de Yokohama, publicou o romance épico intitulado, apenas, Miyamoto Musashi, diariamente em um dos mais importantes jornais japoneses, o Asahi Shimbun, romanceando a vida do espadachim a partir do momento em que, em uma das mais famosas e eficientes sequências de abertura de um livro que já tive o prazer de ler, o jovem “renasce” por sobre corpos de samurais mortos na importantíssima Batalha de Sekigahara, ocorrida em 21 de outubro de 1600 e que marcou a unificação do Japão debaixo das forças de Tokugawa Ieyasu ao fim do período Sengoku. Conhecido no Ocidente apenas como Musashi, o romance é dividido em sete tomos, A Terra, A Água, O Fogo, O Vento, O Céu, O Sol e a Lua e A Luz Perfeita, lançado posteriormente em formato de livro das mais variadas formas, normalmente em um, dois ou três volumes.

Minha leitura da obra – e a presente crítica é apenas do primeiro dos três volumes como publicados no Brasil pela Editora Estação Liberdade – se deu de maneira curiosa e trabalhosa, pois foquei na leitura da tradução em inglês feita por Charles S. Terry, com diversos capítulos intercalados lidos em português conforme tradução de Leiko Gotoda, ambas feitas diretamente do japonês. A razão para isso foi pura curiosidade para constatar como o japonês é uma língua complexa, com variações grandes na forma e no estilo de cada tradução. Em linhas gerais, enquanto Terry verteu a obra para um inglês mais direto, sem depender de palavras rebuscadas, mas mantendo as principais – como daimyo – em japonês, Gotoda emprestou um verniz que poderia ser chamado “de época” ao livro, fazendo todo o esforço para apresentar variações em português mesmo das palavras japonesas mais famosas – daimyo, por exemplo, tornou-se suserano -, o que empresta solenidade à obra, além de trazer ricas notas de rodapé com todo o contexto necessário.

Seja como for, é importante reiterar que Musashi é a versão romanceada da vida do grande espadachim. É, para todos os efeitos, a versão criada para tornar-se lenda, para funcionar como um romance de ação, ainda que ação propriamente dita não seja algo muito presente na obra, apesar do tamanho do volume. Mas isso não quer dizer que o leitor não terá um panorama realista do Japão do início do século XVII – o volume 1 acompanha o protagonista de 1600 até o primeiro dia do ano de 1606 – pois é nisso que o romance realmente brilha, retratando o início de uma época de calmaria no país que passara mais de 120 anos em constantes guerras civis. É justamente nesse momento em diante que os samurais e ronins, antes apenas guerreiros altamente treinados, passaram a ter menos uma função correlacionada à guerra e mais uma função de mestre, de professor e, os melhores, de filósofos e de artistas, como foi o caso de Musashi. Da mesma maneira, em razão da “falta de guerra”, por assim dizer, o número de duelos entre samurais e ronins aumentou, ajudando a perpetuar a imagem de grandes espadachins desenvolvendo e demonstrando suas próprias técnicas.

Yoshikawa mostra muita preocupação com o contexto e consegue inserir em seu texto, de maneira consideravelmente natural e fluida, explicações históricas que ajudam o leitor a compreender melhor a época em que a história se passa. Não são, porém, momentos longos e detalhados, mas sim, apenas, o suficiente para que seja possível compreender a razão por trás de determinado acontecimento e para aguçar a curiosidade do leitor em eventualmente procurar fontes históricas para estudar mais a fundo o período ou a própria vida de Musashi que, desse início, pouco realmente se sabe. Mas a história em si é a clássica narrativa de amadurecimento, sem tirar nem por. Depois que o jovem Takezo – o futuro Musashi – emerge da batalha de Sekigahara (tendo lutado pelo lado que perdeu) com seu amigo de infância Matahachi, os dois procuram manter a cabeça baixa para recuperar-se de seus ferimentos, o que os faz permanecer escondidos na casa de duas mulheres, uma mãe e uma filha que os acolhem e que acabam marcando o futuro da dupla que, não demora, logo se desfaz.

O que segue daí é a evolução de Takezo, violento, explosivo e desrespeitoso – basicamente como todo jovem ainda em tenra idade – em Musashi ou, como talvez seja mais correto dizer levando-se em conta este primeiro volume apenas, em um proto-Musashi, um ronin errante de grande habilidade com a espada, mas que ainda não encontrou seu caminho definitivo. E, como é de se esperar de uma obra publicada diariamente em jornal ao longo de nada menos do que cinco anos – muito parecido com o caso de Os Três Mosqueteiros menos de um século antes, vale lembrar, ainda que a obra de Alexandre Dumas tenha sido serializada ao longo de meses e não anos -, há um sensível estabelecimento de pequenos capítulos, ou episódios, que fazem a narrativa parecer muito claramente o que é, uma série literária publicada de pouco em pouco, e que precisa entregar ao leitor micro-arcos completos a cada poucas páginas.

No entanto, diferente do que se poderia esperar a partir da ótica moderna, a calma oriental reinou no texto de Yoshikawa que não corre com absolutamente nada e não procura narrar uma história vertiginosa de ação, mas sim um longo – LONGO – conto de crescimento pessoal, de evolução como ser humano por que passa Musashi. Como disse, os poucos duelos que existem neste primeiro volume são extremamente rápidos, do tipo que é resolvido em praticamente um parágrafo, por vezes até mesmo em uma frase, o que pode frustrar muitos, mas que, na verdade, só deixam ainda mais evidente o quanto Musashi é eficiente em sua arte mortal. Considerando-se essa calma do autor, há uma impressionante fluidez no texto como um todo, ainda que o leitor tenha que se acostumar – e não é pedir muito – com a permanência do protagonista em segundo plano em diversos momentos de forma que seja possível que a história desenvolva os importantíssimos personagens coadjuvantes que informam a personalidade e a vida de Musashi, sejam Otsu e Akemi, as duas mulheres apaixonadas por ele, seja Joutaro, o menino que quer ser seu pupilo, Takuan, o importantíssimo monge Zen que é o responsável direto pela transformação de Takezo em Musashi e, claro, seu complicado amigo Matahachi e todos os seus futuros inimigos, desafetos, colegas e mestres.

E o interessante é que Yoshikawa, pelo menos nesse primeiro terço (não li os seguintes ainda para não “contaminar” a crítica do primeiro), não se preocupa em fazer o leitor gostar de verdade de Musashi. Afinal, ele é, como disse, um jovem impetuoso ainda, que não encontrou seu verdadeiro caminho, o que o leva a atitudes imaturas e até inexplicáveis que podem deixar muita gente irritada com o protagonista. Mas errar é parte essencial do crescer e é isso que o autor quer deixar bem claro ao leitor, mesmo que isso custe empatia com seu protagonista de lenda. Queremos ansiosamente ver o Musashi herói, o Musashi mestre e filósofo, o Musashi mítico que sobreviveu os séculos, mas o que recebemos, nesse início, é definitivamente seu humilde começo, um momento na vida em que nem ele – nem quase ninguém, se formos honestos – sabe de verdade o que é a vida simplesmente por não tê-la vivido de maneira significativa, com muita gente morrendo sem conseguir isso, vale dizer. A jornada de autodescoberta do protagonista é fascinante, mas nunca gratuita, fácil ou seguindo caminhos óbvios. Há muito mais contemplação do que ação, muito mais momentos anticlimáticos do que os que chegam às vias de fato e isso pode ser um obstáculo à leitura do épico de Yoshikawa, especialmente por olhos e mentes mais impacientes.

No entanto, a jornada é o que realmente importa e, mesmo que por vezes Yoshikawa faça grandes desvios narrativos para introduzir personagens que, neste primeiro volume, não revelem sua razão de ser (mas isso é “culpa” da divisão dos volumes e não do autor), investindo uma boa quantidade de páginas na formação de suas personalidades e, em alguns casos, nas suas técnicas de luta, com um pouco de suspensão da descrença quando caminhos aleatórios se cruzam, há uma inegável qualidade narrativa do que podemos chamar de “criação de mundo” que, ao final das 600 páginas, permite um panorama muito sólido da estrutura socioeconômica do Japão da época. E tudo isso serve de base ao que está por vir, com Musashi constantemente sendo utilizado mais como um ponteiro, como uma bússola para os desdobramentos narrativos futuros do que efetivamente como o personagem que, talvez, alguns mais afobados esperem que ele seja já na largada, o que seria irreal, claro.

O primeiro volume do épico nipônico Musashi é um grande prazer literário – seja em português, seja em inglês e, imagino, mais ainda em japonês – que constrói a infraestrutura cultural, social e econômica para que o lendário Miyamoto Musashi desabroche nos quatro tomos (em dois volumes) seguintes. Todo o investimento de tempo do leitor, aqui, provavelmente multiplicado exponencialmente por pesquisas paralelas para engrandecer todo o cenário com contextualizações ainda mais detalhadas sobre eventos históricos, lugares, templos, pessoas, técnicas, jargões e tudo mais, algo que veementemente aconselho que seja feito, será, sem dúvida alguma, recompensado pelo começo de uma fascinante jornada de autodescoberta e engrandecimento pessoal.

Musashi – Vol. 1: A Terra / A Água / O Fogo ( 宮本武蔵 / Miyamoto Musashi: Vol. 1 – Japão, 1935/39)
Autor: Eiji Yoshikawa
Editora original: Asahi Shimbun (jornal)
Data original de publicação: 1935 a 1939
Editora no Brasil: Editora Estação Liberdade
Data de publicação no Brasil: 05 de agosto de 1999
Tradução: Leiko Gotoda
Páginas: 600

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8 comentários

Jordison Francisco 23 de abril de 2021 - 21:53

Gostei muito dessa obra, aborda muito a cultura da região e principalmente os hábitos e costumes dos samurais e sua “decadência”, personagem principal muito interessante assim como os secundários.

O final deixou um pouco a desejar, pelo menos pra mim, e ainda assim recomendo fortemente.

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planocritico 24 de abril de 2021 - 00:31

Sim, uma baita obra!

Abs,
Ritter.

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Giovanni Filoni 15 de abril de 2021 - 14:23

Nunca havia ouvido falar dessa obra, mas me pareceu tão fantástica que já entrou na frente de muitos outros livros em minha lista! Excelente crítica!

Responder
planocritico 15 de abril de 2021 - 16:09

Obrigado, @giovannifiloni:disqus !

Olha, é um investimento de tempo enorme pelo tamanho dos livros, mas vale muito a pena mesmo! Tomara que você goste!

Abs,
Ritter.

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Danilo Rezende 13 de abril de 2021 - 09:47

Os livros são maravilhosos. A leitura é tão fluída que nem parece que são volumes grandes.
O mangá Vagabond também é excelente, principalmente pela arte, mas prefiro a narrativa dos livros.
Parabéns pela análise.

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planocritico 13 de abril de 2021 - 12:39

Obrigado, @disqus_UBijxm6w9O:disqus !

Realmente a leitura é bem tranquila mesmo, o que foi uma surpresa para mim. Ainda estou caminhando pelo segundo volume, mas está bem legal!

Depois eu parto para Vagabond!

Abs,
Ritter.

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Alex Dias 12 de abril de 2021 - 14:47

Não podemos esquecer que essa obra também ganhou uma adaptação em mangá, intitulada Vagabond, que é também uma obra prima (a arte de Takehiko Inoue é fabulosa!).

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planocritico 12 de abril de 2021 - 14:59

Além de diversos filmes.

E tem mais de um mangá. Vagabond é só o mais famoso deles.

Abs,
Ritter.

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